O bicampeonato estadual dá uma estrela dourada às semanas espetaculares atravessadas pelo Fortaleza

Os estaduais, muitas vezes, funcionam como uma mera ilusão aos clubes da Série A. Títulos que parecem referendar um trabalho capenga e que mascaram problemas expostos no segundo semestre da temporada. São inúmeros exemplos disso nos últimos anos, de clubes que foram até rebaixados por um falso conforto transmitido pela taça. Entretanto, os estaduais podem referendar, sim, uma grande fase. Com os pés no chão, se tornam o detalhe dourado de um momento histórico. E assim o Fortaleza deve tratar a conquista do Campeonato Cearense nesta quarta, com a vitória por 1 a 0 sobre o rival Ceará. O bicampeonato representa um contexto maior no Leão do Pici e serve de marca à eternidade.

O título, afinal, amplia a passagem vitoriosa de Rogério Ceni pelo Fortaleza. Os maiores títulos conquistados pelo treinador ainda são a Série B de 2018 e a Copa do Nordeste de 2019. O Campeonato Cearense, de qualquer maneira, mantém o gosto pelas conquistas e sobrepõe o Ceará – num momento em que os alvinegros também desfrutam de suas glórias, com o troféu do Nordestão nesse ano. Depois de algumas derrotas recentes para o Vozão, em que o Leão do Pici pareceu de mãos atadas pela estratégia dos rivais, a volta por cima vem em grande estilo.

Após a vitória por 2 a 1 na primeira partida, o Fortaleza jogou com a vantagem nas mãos. Preferiu se resguardar mais no campo de defesa e explorar os contragolpes, já que o Ceará precisava de dois gols para ser campeão. E o Vozão assustou bastante, com direito a duas bolas na trave durante o primeiro tempo, com Vina e Rafael Sóbis. Os alvinegros desperdiçaram outras boas chances na segunda etapa, mas a noite era mesmo dos tricolores. Após um recuo errado, Tinga (herói também no primeiro duelo) apareceu para anotar o gol do título aos 15 minutos. Então, ficou mais fácil de administrar o placar, diante da tensão do outro lado e da expulsão de Leandro Carvalho.

A conquista ressalta um pouco mais o trabalho tão fantástico quanto histórico de Rogério Ceni. Em quase três anos à frente do Fortaleza, o treinador teve seus momentos de desgaste e de instabilidade. Nem por isso a diretoria abriu mão de seus serviços. Afinal, o saldo é muito mais positivo, pela maneira como os jogadores abraçam a ideia em campo e pela forma como o Leão do Pici apresenta alternativas ao seu jogo. É uma equipe destemida e que não mede o tamanho de seus adversários para buscar as vitórias. O Clássico-Rei foi o jogo de número 150 sob as ordens do ex-goleiro, agora o segundo técnico com mais partidas à frente do Leão do Pici.

“Este jogo representa um cansaço para o domingo, já que o São Paulo, nosso adversário, descansa desde ontem. Mas também representa alegria e confiança que temos. O que a gente perde nas pernas, ganha com alma e coração”, declarou Rogério Ceni, depois da partida. Foi o 43° título do Fortaleza na história do Campeonato Cearense, reduzindo a dois a diferença em relação ao Ceará, maior campeão estadual.

A taça, além do mais, valoriza o momento espetacular atravessado pelo Fortaleza nestas últimas semanas – talvez o melhor desde a chegada de Ceni, pelo peso de alguns resultados. Os tricolores somam 11 partidas de invencibilidade. O time é o sétimo colocado no Brasileirão, com vitórias recentes sobre Sport, Internacional, Atlético Mineiro e Palmeiras. Também segue vivo na Copa do Brasil, por toda a valentia nos 3 a 3 diante do São Paulo durante a última semana. Neste cenário, o Campeonato Cearense vale como uma estrela para acrescentar brilho à fase inspirada.

É difícil imaginar o Fortaleza faturando o Brasileirão, a Copa do Brasil ou ainda a Copa Sul-Americana, apesar das boas campanhas. A diferença de orçamento é massiva e o que faz Rogério Ceni, dentro das limitações, já pode ser considerado uma conquista. Assim, a celebração que resta é nos torneios regionais. Os anseios da torcida tricolor, hoje em dia, são bem maiores que o Campeonato Cearense. Mas nada como bater os grandes rivais e selar a hegemonia local, que corresponde a uma força além dos limites do estado.