Kurt Landauer deixou a presidência do Bayern de Munique em 1951, mas continua celebrado como o maior dirigente da história dos bávaros. O currículo do veterano, falecido em 1961, é bem menos extenso se comparado a outros presidentes do clube. Sua importância está no pioneirismo, primeiro a levar o Bayern ao topo da Alemanha, campeão nacional em 1932. E, ainda mais, está em seu exemplo. Landauer era judeu, como boa parte dos membros da agremiação naquele período. Sofreu perseguição do regime nazista, precisou se exilar na Suíça e, após o fim da Segunda Guerra Mundial, voltou para conduzir o processo de modernização da instituição. Não à toa, a praça onde está localizada a Allianz Arena leva o seu nome. E, nesta semana, foi inaugurada uma estátua de bronze no CT, com a figura do empresário.

A relação de Landauer com o Bayern de Munique era intrínseca. Nascido na própria Baviera, filho de comerciantes judeus, ele foi goleiro do segundo quadro do clube. Já entre 1913 e 1914, teve a sua primeira passagem como presidente. Deixou o cargo antes de lutar na Primeira Guerra Mundial pela Alemanha, recebendo condecorações militares. Em 1919, ele retornou ao comando do Bayern e permaneceria por lá até a década seguinte, liderando os primeiros grandes sucessos dos alvirrubros. Naquele momento, havia uma presença massiva da comunidade judaica nos bastidores da agremiação.

O ápice desse sucesso aconteceu no Campeonato Alemão de 1932. Vice-campeão regional, o Bayern ganhou o direito de disputar a fase final da competição nacional. Chegou a superar o Nuremberg, grande força bávara da época, antes de derrotar o Eintracht Frankfurt por 2 a 0 na final. O técnico era Richard “Domby” Kohn, também judeu, nascido em Viena. Ele deixou a Alemanha em 1933, diante da ascensão do nazismo, mas, considerado “persona non grata” pelo Terceiro Reich, ele foi preso por “propaganda comunista” em Marselha. Chegou a ser enviado a um campo de concentração e, depois, ao front da guerra. Contudo, o seu passado no futebol o levou ao time de soldados e, assim, ele escaparia dos riscos, sobrevivendo ao conflito.

Segundo dados do próprio Bayern de Munique, 104 dos 1050 membros do clube na época foram perseguidos pelos nazistas. Entre 1933 e 1945, eles foram privados de seus direitos, expulsos do país ou mortos por causa de suas origens judaicas. Ao todo, 27 pessoas foram assassinadas, oito faleceram durante a ditadura, nove desapareceram e quatro se suicidaram. Além disso, 52 se exilaram, entre eles Kurt Landauer, vítima ainda de outras ameaças feitas pelo regime.

Por conta dos nazistas, Landauer foi obrigado a renunciar o posto de presidente do Bayern nove meses após o título e o clube precisou se adaptar às imposições do regime. O dirigente também perdeu o seu emprego no principal jornal local, indo trabalhar em uma lavanderia. Em 1938, ele chegou a ser enviado ao campo de concentração de Dachau, embora tenha sido liberado meses depois, por conta dos serviços prestados durante a Primeira Guerra.

Em maio de 1939, Landauer fugiu à Suíça. Quatro de seus irmãos não tiveram a mesma possibilidade, assassinados durante o Holocausto. Enquanto morava no país neutro, o ex-presidente foi homenageado pelo Bayern. Em 1940, o clube realizou um amistoso em Zurique, contra a seleção suíça. Landauer estava nas tribunas e foi aplaudido pelos jogadores em campo, independentemente dos riscos de represálias aos atletas no retorno à Munique.

Ao final da Segunda Guerra Mundial, Kurt Landauer retornou à Baviera. Reassumiu seu posto como presidente em 1947 e comandou o ressurgimento do clube. O principal passo aconteceu com a construção do centro de treinamentos de Säbener Strasse. A partir da estrutura, os bávaros conseguiram desenvolver suas categorias de base e viram os reflexos surgirem na década de 1960, com a formação do esquadrão que elevaria o patamar do time e passaria a empilhar títulos. O presidente permaneceu no cargo até 1951 e faleceu em 1961, aos 77 anos de idade.

O reconhecimento a Landauer se ampliou nos últimos anos, com as revelações sobre o passado do Bayern e as suas ligações à comunidade hebraica. São costumeiros os mosaicos com o rosto do dirigente nas arquibancadas, exaltando sua dedicação ao clube e à maneira como resistiu à perseguição dos nazistas. A homenagem na praça da Allianz Arena é uma marca eterna. Já nesta semana, o veterano foi imortalizado em Säbener Strasse. A inauguração da estátua contou com a participação de seu sobrinho, Uri Siegel, de 96 anos.

Vice-presidente do Bayern, Dieter Mayer enfatizou a importância do tributo: “Consideramos como nossa missão estabelecer um sinal permanente contra o esquecimento. Esta é a parte mais obscura e dolorosa da história de nosso clube. Não podemos fechar os olhos. Devemos guardar a memória honrosa de todas as vítimas”. A inauguração da estátua é um passo fundamental do clube, para preservar e reconhecer sua trajetória. É outro símbolo da grandeza, muito além de títulos e de craques.