Nem o esquadrão de Beckenbauer e Gerd Müller, assim como o timaço de Mätthaus ou o de Kahn. Por três vezes em sua história, o Bayern de Munique já havia faturado o tricampeonato da Bundesliga. A equipe atual havia igualado o feito na temporada passada, ao também chegar o tri com mais uma campanha arrasadora. E, pela primeira vez, os bávaros alcançam o tetra – um feito inédito no país, tanto na fase moderna da liga quanto na antiga. A conquista esperada há semanas se consumou neste sábado, na penúltima rodada, com a vitória apertada fora de casa sobre o Ingolstadt por 2 a 1. Um jogo que, de certa forma, carrega o seu simbolismo em meio ao que foi a trajetória do time de Pep Guardiola: um campeão praticamente imbatível, mas que perdeu empolgação na reta final, até pela monotonia das vitórias.

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Os momentos mais fantásticos do tetracampeonato do Bayern de Munique vieram ao longo do primeiro turno. Afinal, a vantagem se estabeleceu graças à arrancada impecável nas 10 rodadas iniciais: foram 10 vitórias (um recorde no país), além de apenas quatro gols sofridos e 33 marcados. O momento mais impressionante aconteceu diante do Wolfsburg, o principal algoz da temporada passada. Os bávaros começaram perdendo na Allianz Arena, mas viraram graças à noite implacável de Robert Lewandowski, autor de cinco gols em nove minutos. Ao final da primeira metade do campeonato, o time de Guardiola sofreu somente dois tropeços, incluindo a derrota para o Borussia Mönchengladbach. Nada que causasse tantos temores.

Já no segundo turno, a queda de nível do Bayern se tornou evidente. Ainda que os pontos perdidos passassem a ser um pouco mais frequentes, a perda de força se demonstrava mais nas vitórias difíceis de se arrancar. Mesmo assim, os bávaros continuavam mantendo a vantagem sobre o Borussia Dortmund. Já a partida que praticamente definiu os rumos do campeonato foi o empate sem gols no Signal Iduna Park, logo após a derrota para o Mainz em Munique. Quando os aurinegros pareciam prontos para uma ultrapassagem antes impensável, os líderes esfriaram suas pretensões e emendaram seis vitórias consecutivas. Supremacia que garantiu a Salva de Prata neste sábado.

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Não dá para diminuir os méritos do Bayern de Munique. Afinal, nem mesmo a segunda melhor campanha do Borussia Dortmund em sua história foi suficiente para alcança-los. E, por mais que os recordes não tenham sido tão numerosos nesta temporada quanto na última de Jupp Heynckes ou na primeira de Guardiola, a hegemonia é gritante. Os questionamentos maiores fogem da alçada dos vencedores, e se concentram sobre o nível de competitividade do torneio. Por mais que a Bundesliga apresente excelente nível técnico e equilíbrio entre os seus demais participantes, conseguir bater o Bayern se transformou uma façanha. Desnível que faz a conquista soar como obrigação e as seguidas quedas na Champions, como fracasso.

De qualquer forma, o marasmo do Bayern campeão ainda reflete sua maior virtude nesta campanha: o domínio. O estilo de Pep Guardiola chegou ao seu ápice nesta temporada. Tudo bem, a posse de bola muitas vezes tornou as atuações dos bávaros cansativas, principalmente quando as individualidades não despontavam. Mas os rivais mal tiveram oportunidades e Manuel Neuer pouco trabalhou, ao contrário do que aconteceu em 2014/15. Mesmo se tomar mais dois gols na última rodada, a equipe iguala o recorde de defesa menos vazada da história da Bundesliga, com 18 gols sofridos em 2012/13 e 2014/15. Fruto de uma imposição esmagadora em quase todas as rodadas.

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Neste aspecto, a regularidade de Thiago Alcântara e Arturo Vidal teve grande significado na imponência do Bayern ao longo do tetra. Por mais que, individualmente, os grandes nomes tenham sido outros. Douglas Costa causou grande impacto em sua chegada e suas atuações foram imprescindíveis na arrancada do primeiro turno, especialmente por suprir o protagonismo de Arjen Robben e Franck Ribéry. Já a produção ofensiva dependeu da sede de gols de Robert Lewandowski e Thomas Müller. Juntos, os atacantes marcaram 49 tentos, 63,6% do total da equipe na competição. Enquanto o polonês se encarregou de chamar a responsabilidade em vários momentos, incluindo nos dois gols do jogo do título, Müller se fez fundamental mais uma vez graças a sua inteligência muito acima do comum.

O tetra, por fim, marca o fim de uma era. Pep Guardiola deixa a Baviera e Carlo Ancelotti vem para tentar manter o alto nível do Bayern. Ainda é cedo para dizer qual será a postura da equipe sob as ordens do italiano ou quão grande será o “legado” do espanhol sobre a filosofia de jogo. O fato é que a Bundesliga, mais uma vez, será vista como uma tarefa a se cumprir, e não um título a se almejar. Por mais extraordinário que seja dentro da história do campeonato, o penta também ganha ares de obrigação, ainda que as mudanças possam desestabilizar o clube durante o início do trabalho. Neste momento, ao menos, os bávaros têm todos os seus direitos de festejar o tetra.