O Lille oficializou nesta sexta-feira a contratação de Renato Sanches. O fato, entretanto, vai muito além do mero reforço ao clube francês. Afinal, a venda do meio-campista também oficializa que o Bayern de Munique abre mão da promessa que foi comprada por uma fortuna há três temporadas. Os bávaros não se iludiram sozinhos nesta história, especialmente após todo o impacto que o prodígio causou na Euro 2016. O problema é que, desde então, o desenvolvimento de sua carreira esteve muito distante de atingir o patamar imaginado. Agora, muito por conta de sua vontade, o lusitano muda de ares.

Renato Sanches surgiu como um meteoro no Benfica, ganhou a posição na seleção portuguesa meses depois e teve um papel primordial na maior conquista da história de seu país. Suas atuações nos mata-matas da Eurocopa possuíam uma naturalidade imensa, de quem parecia não sentir o peso da ocasião. A transferência a um clube maior era o passo natural e vários cresceram os olhos sobre o adolescente, às vésperas de completar 19 anos. O Bayern desembolsou €35 milhões imediatos, além prometer outros tantos milhões em bônus.

Era certo que o Bayern precisava ter certa paciência na adaptação do garoto, mas as aparições na Euro e o preço referendavam Renato Sanches a logo jogar. No fim das contas, não foi exatamente a pressão que determinou o fracasso do português em seu primeiro ano na Baviera, sob as ordens de Carlo Ancelotti. Nas chances que ganhou, parecia um jogador bem diferente daquele se prometia. Não se via nada da intensidade e da agressividade que marcaram a ascensão. Notava-se um rapaz desconectado, que cometia erros em fundamentos e não conseguia se focar nas partidas. Em 25 aparições, não fez um gol ou deu uma assistência sequer.

O empréstimo, então, se tornou a opção para que Renato Sanches se provasse em uma liga com alto nível de exigência. O Swansea apareceu em seu caminho e ele seguiu à Premier League. Não conseguiu sequer se firmar em uma equipe que terminou rebaixada, e disputou apenas 12 partidas ao longo do campeonato. Neste momento, muitos já cravavam a aposta frustrada e sugeriam que o Bayern desse outros rumos à promessa. Niko Kovac, porém, preferiu garantir um voto de confiança e o utilizou com certa frequência em 2018/19.

O desempenho de Renato Sanches em sua segunda temporada no Bayern não foi tão ruim quanto na primeira. Ele teve seus lampejos, com menção principal à vitória sobre o Benfica na Champions, em que terminou ovacionado pela antiga torcida no Estádio da Luz. Contudo, outra vez, o português esteve longe de provar seu talento. Foi uma peça a mais na rotação e perdeu espaço durante o segundo turno. Por algumas aparições neste início de temporada, até dava para acreditar que Kovac tentaria lapidar um pouco mais o meio-campista em 2019/20. O jogador não quis esperar. Após a primeira rodada da Bundesliga, manifestou o desejo de seguir a um time em que fosse titular e, irritados, os bávaros preferiram se desfazer do lusitano.

Os €20 milhões pagos pelo Lille não compensam todo o investimento inicial do Bayern, mas o clube fez bem ao aceitar a proposta. Os minutos com Kovac permitiram a Renato Sanches recuperar um pouco de moral. Mantê-lo na Allianz Arena poderia representar outra queda acentuada em seu valor, considerando sua insatisfação com os poucos minutos em campo. Os franceses realizam uma aposta. E confiam que, a partir de seu bom trabalho com jovens jogadores, também podem tirar o melhor do português. Com 22 anos recém-completados, ele ainda tem tempo de crescer, embora a estagnação seja evidente.

O Lille, aliás, é um clube que prima por redescobrir atletas e fazer um bom dinheiro a partir disso. O sucesso da última temporada permitiu aos Dogues lucrarem com suas vendas e agora eles renovam as suas apostas. Renato Sanches aporta neste cenário, tentando contribuir com sua experiência não só à Ligue 1, mas também à Champions. Em um clube com cobranças mais baixas e também sem o mesmo nível de expectativas sobre si, ele terá que corresponder aos créditos dados pelos franceses, até por seu desejo de seguir em frente.

A maior dúvida é saber qual o verdadeiro Renato Sanches, o fenômeno ou o flop. Pode até ser um meio termo entre esses dois personagens. O talento bruto visto em Portugal não se repetiu na Alemanha e o jovem também demonstrou sua falta de foco na carreira. Sua resposta precisa vir em campo. O Lille é uma porta aberta na qual o meio-campista precisa entrar e se apresentar. Caso contrário, será difícil imaginar que ele ainda poderá vingar em alto nível.