A gente sabe que não vai mudar nada. Mas, por vezes, a mente nos leva ao inevitável desengano de pensar o que seria caso o “e se…” agisse no futebol. E se aquele 22 de junho de 1986 tivesse sido diferente? E se a Inglaterra avança às semifinais da Copa do Mundo? Nem precisa de tanto. E se Maradona é mero coadjuvante, não faz o golaço destruindo a defesa dos Three Lions e nem usa a mão para vencer Peter Shilton pelo alto? Mente em branco: eu te entendo caso o seu cérebro tenha dado um tilt. Comigo aconteceu isso. Talvez só um supercomputador para conseguir processar o turbilhão de informações que transformariam a partir de então. Como o gol de Ghiggia em 1950, a bola sob os braços de Didi em 1958 ou a trama para Carlos Alberto em 1970, parece impossível imaginar o passado sem esses lances. E é. Por essas jogadas, tão históricas, tão sublimes, que o livro do futebol constrói o seu enredo. Maradona tratou de escrever com pena de ouro duas, no mesmo dia, há 30 anos.

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Juntar o “barrilete cósmico” (como definiu com primazia o uruguaio Victor Hugo Morales, alcunhando o craque em uma narração para sempre) e a “mano de Dios” num intervalo de 90 minutos só se torna compreensível porque Maradona está envolvido. Um personagem que mistura o talento celestial e a malícia mundana, que caiu e se levantou. Que deu ao futebol, em seu maior torneio, aquela sensação que aflora na raça dos campinhos de terra ou no deslumbramento do bate-bola das ruas. As canhotas de Diego, naquele dia, trabalharam para unir o criacionismo e o evolucionismo no mesmo jogo. Foi como se o Big Bang e a presença de Deus na formação do universo estivessem na mesma página, lado a lado, sem causar qualquer ruído. A imaginação privilegiada do camisa 10 tirou suas dissonâncias. Mais do que isso, as tornou verossimilhantes.

E, por trás dos lances que serão ainda repetidos por décadas e décadas e décadas, está o sentimento de Maradona. Porque aquela partida não seria tão grandiosa não fosse o seu contexto. A Guerra das Malvinas, que, independente do joguete político deplorável sob a qual foi conduzida, impulsionou uma rivalidade que naturalmente contaminou o ambiente no Estádio Azteca. Maradona estava ali pela classificação à semifinal da Copa de 1986, claro. Mas essa era apenas uma parte de sua tarefa, e não a mais importante no que vislumbrava. O craque queria uma vingança ao seu povo pela derrota nas armas. Uma maneira de inflar o peito de cada argentino com orgulho. Depois de muito tentar, e parar em Shilton nos 45 minutos iniciais, encontrou primeiro um caminho na trapaça do punho fechado, do qual não se envergonha justamente por aquilo que brotou em si – como se estivesse roubando algo que já lhe tinha sido tirado. Depois, no rabisco errante de sua perna esquerda, com destino traçado ao gol. Ódio e paixão, misturados em reação explosiva à vontade.

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“Nós, quando falamos sobre a partida contra a Inglaterra, falamos sobre o jogo em si, mas Bilardo foi muito inteligente: nós estávamos representando os mortos. Mandaram os argentinos à morte. Nós acreditamos que os ingleses apertaram um só botão e mataram a todos. Então nós tínhamos que entrar em campo e jogar futebol pensando que se tirássemos a Inglaterra da Copa, teríamos vencido uma guerra futebolística. Isso era o que nos motivava”, conta Diego, no filme ‘Maradona por Kusturica’.

Entre os seis e os 18 minutos da etapa complementar na Cidade do México, o tempo parou para que a ampulheta do futebol fosse virada. A órbita dos planetas se redefiniu. E não importou muito mais o que aconteceu depois disso. A Inglaterra nunca viraria aquela partida, por mais que Lineker tenha fechado o placar em 2 a 1. Também não teria peso se Valdano, Burruchaga, Bochini ou qualquer outro craque da Albiceleste resolvesse brilhar. O cosmos girava ao redor de Maradona. Erguer a taça era o destino manifesto do camisa 10 no México, que se completaria diante de Bélgica e Alemanha Ocidental.

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E se aquele 22 de junho de 1986 fosse subtraído do calendário? Se ele se tornasse um buraco negro na folhinha, um borrão na memória? Difícil dizer o que seria do futebol hoje, mas muita coisa seria diferente. Independente da habilidade ímpar que já tivesse exibido por Argentinos Juniors, Boca, Barcelona e Napoli, assim como pelo que faria depois, Maradona não estaria no patamar de hoje. Cultuado como pouquíssimos, mesmo também execrado tantas vezes. O Azteca, um palco místico e mítico, perpetuou o humano e o divino de Diego. Sacramentou o jogo mais emblemático de um dos maiores da história. Depois disso, o futebol seguiu por um caminho que nunca tinha sido.

Abaixo, um presente que encontrei por mero acaso, nesta obra maravilhosa chamada internet: uma crônica escrita por Eduardo Sacheri e narrada por Alejandro Alejo Apo (e não Eduardo Galeano, como havia escrito anteriormente) sobre aquele 21 de junho de 1986.

Recomendo também a história contada pelos amigos do efemérides do éfemello sobre aquele jogo, destacando a narração fantástica de Victor Hugo Morales.