O clássico entre Barcelona e Real Madrid não aconteceu em sua data original por conta dos protestos que ocorriam na Catalunha em outubro. A condenação de líderes do movimento independentista gerou uma onda de manifestações e confrontos com a polícia. No dia da partida, um grande ato ocorreria na cidade, em prol dos presos políticos, e os clubes tiveram o bom senso de postergar o encontro. Os dois meses de espera, no entanto, não alijaram o debate político do Camp Nou. Pelo contrário, o jogo foi marcado por seus próprios protestos, enquanto os confrontos nos arredores do estádio deixaram dezenas de feridos.

As autoridades locais montaram um enorme esquema de segurança para o clássico. Um efetivo de três mil agentes atuou no Camp Nou, entre policiais e seguranças particulares. Além disso, o Barcelona prometia banir possíveis invasores de campo. O clube, de qualquer maneira, reiterou que não imporia barreiras a manifestações pacíficas. O presidente Josep Maria Bartomeu apontou que o “Camp Nou é um espaço de liberdade de expressão”. Os blaugranas, afinal, também se posicionam contra as prisões. E, naturalmente, muitos torcedores deixariam claro o seu posicionamento político durante a quarta-feira.

Na caminhada ao estádio, o Tsunami Democrático (movimento anônimo que ascendeu nestes últimos meses de protestos) realizou uma manifestação pacífica que contou com 5 mil presentes. Já dentro do Camp Nou, durante o mosaico com as cores da bandeira catalã, as arquibancadas exibiam faixas pedindo “liberdade” e dizendo para a “Espanha sentar e conversar” – lema do Tsunami Democrático em prol do diálogo. Aos dez minutos do segundo tempo, mais atos. Bolas amarelas passaram a ser atiradas dentro do campo. O amarelo é a cor de apoio aos presos políticos catalães. Ao mesmo tempo, ecoavam gritos de “liberdade”.

O Tsunami Democrático chegou a produzir 100 mil cartazes com a frase “Espanha, sente e converse”, distribuídos entre torcedores e manifestantes. Nos arredores do estádio, até mesmo os vendedores se aproveitavam da ocasião. Vendiam, além dos artigos dos times, também adereços em prol do movimento independentista. Para facilitar a ação da polícia no deslocamento, os elencos de Barcelona e Real Madrid se concentraram no mesmo hotel, a 600 metros do Camp Nou.

Contudo, a postura pacífica da maioria dos manifestantes não garantiu tranquilidade total. Segundo o relato do jornal El País, os protestos no entorno do Camp Nou subiram de tom enquanto a partida chegava à sua metade. Um grupo de pessoas tentou invadir os portões do estádio e a polícia catalã disparou balas de borracha. Manifestantes também montaram barricadas com latas de lixo, cercas e placas de trânsito. Algumas destas terminaram incendiadas.

As ruas próximas do Camp Nou ainda viraram palco de embates entre ultras e manifestantes. Torcedores organizados (sobretudo integrantes dos Boixos Nois) tentavam fazer seu cortejo rumo às arquibancadas, mas foram repelidos por integrantes do Tsunami Democrático. O choque gerou enfrentamentos entre ambos os grupos. Os Boixos Nois, com inclinações fascistas, possuem uma visão mais radical sobre o separatismo da Catalunha – que difere do diálogo professado pelo Tsunami Democrático. Oficialmente, os ultras estão banidos das tribunas, mas muitos de seus membros seguem frequentando as partidas.

O El País aponta que 13 pessoas terminaram detidas pela polícia. Além disso, o Marca informa que 60 pessoas precisaram ser atendidas com ferimentos. Dois policiais tiveram contusões mais graves, com fraturas. Além disso, 13 destes lesionados terminaram encaminhados a centros de saúde. O Mundo Deportivo, por fim, descreve que meia hora depois do apito final a situação já estava sob controle das autoridades e os embates foram dispersados.