Futebol e rúgbi são esportes que nasceram a partir da mesma árvore genealógica. Enquanto o “Football Association” surgiu de uma padronização das regras inspirada na maneira como se praticava o jogo em Cambridge, o “Rugby Football” se baseou na Rugby School – localizada em Warwickshire, na região central da Inglaterra. E, desde seus primórdios, alguns atletas conseguiram conciliar as diferentes modalidades em alto nível. Uma história que merece ser lembrada, às vésperas da decisão de mais uma Copa do Mundo da bola oval.

Finalista no Japão, a Inglaterra tem a chance de conquistar o seu segundo título mundial no Rúgbi Union. E a própria origem da equipe está ligada ao futebol. Afinal, o primeiro try da história da seleção inglesa foi anotado por um “futebolista”. Reg Birkett chegou a atuar pelas duas seleções, e também teve o seu sucesso com a bola redonda. Como goleiro, disputou duas finais da Copa da Inglaterra e ergueu o troféu em 1880.

Nascido em Londres, Birkett teve contato com os esportes onde eles floresciam: a universidade. Foi no Lancing College que o multi-atleta despontou. Em pouco tempo, Birkett passaria a integrar o Clapham Rovers, uma importante organização esportiva londrina que incentivava tanto a prática tanto do “Football Association” quanto do “Rugby Football”. A agremiação amadora seria uma das fundadoras da Rugby Football Union, primeira entidade organizadora da modalidade, em 1871. Além de estar no evento inaugural da RFU, Birkett também foi um dos primeiros 13 membros de seu comitê administrativo.

Além de “dirigente” e comerciante de peles por profissão, Reg Birkett se destacava por seu talento nas quatro linhas. Ele seria convocado para o primeiro amistoso entre seleções da história do rúgbi, também em 1871, entre Inglaterra e Escócia. Aos 22 anos, o inglês anotaria o único try de seu time naquela partida memorável, embora os escoceses tenham garantido a vitória no clássico. Birkett voltaria à equipe em 1875, em outro amistoso contra a Escócia. Também faria mais dois jogos, contra escoceses (1876) e irlandeses (1877).

A relevância com a bola oval não impedia Reg Birkett de brilhar também no futebol. Ele compunha a equipe do Clapham Rovers FC, que chegou ao estrelato no final da década de 1870. Em 1879, o Clapham alcançou sua primeira final da Copa da Inglaterra. Na decisão, sucumbiria ao Old Etonians. Formada por antigos estudantes do Eton College, a potência da época venceu a decisão no Kennington Oval por 1 a 0. Birkett era o goleiro e, dias depois, seria reconhecido com sua única partida na seleção inglesa de futebol. Participaria de uma emocionante vitória por 5 a 4 sobre a Escócia, também no Kennington Oval.

Se não ganhou novas convocações, Birkett se redimiu ao erguer a taça da FA Cup em 1880. O Clapham Rovers chegou a derrotar o Old Etonians nas quartas de final, antes de encarar a Universidade de Oxford na decisão. O goleiro ajudou a segurar a vitória por 1 a 0, que teve gol decisivo de Clopton Lloyd-Jones. Já o craque da conquista era Norman Bailey, que chegou a disputar 19 partidas pela seleção inglesa e capitaneou os Three Lions em 15 oportunidades.

Birkett deixaria um legado mais amplo ao rúgbi union: seu filho John, nascido em 1884, seria capitão da seleção inglesa no esporte. Registraria um feito não menos importante que o do pai, ao anotar em 1909 o primeiro try da história de Twickenham, estádio lendário da modalidade – cuja representatividade se equivale a Wembley no futebol. Infelizmente, Reg Birkett não estaria vivo para ver o sucesso do rebento. Ele faleceu em 1898, aos 49 anos, e de maneira trágica: sofrendo de difteria, o veterano saltou da janela de seu apartamento. A história de seu pioneirismo, porém, sobrevive através dos séculos.

Outros personagens do rúgbi union e do futebol

O caso de Reg Birkett é emblemático, mas não o único. Há outros jogadores renomados que transitaram por ambos os esportes. Também naquela década de 1870, uma lenda é Henry Renny-Tailyour. O escocês não entrou em campo naquele primeiro amistoso de rúgbi em 1871, mas estaria em campo pela seleção no ano seguinte. Todavia, seu maior impacto aconteceu no futebol. Ele fez parte das primeiras representações nacionais da Escócia e anotaria o primeiro gol da história da Tartan Army, em derrota para a Inglaterra por 4 a 2 em 1873. Arrebentaria ainda na Copa da Inglaterra.

Renny-Tailyour era atacante do Royal Engineers, equipe composta pelos engenheiros do exército britânico. O time foi considerado um pioneiro no futebol por praticar um estilo de jogo inovador: em tempos de chutões, os militares ficaram famosos por apostar na troca de passes com a bola no chão. Renny-Tailyour era justamente o craque e disputaria três finais da Copa da Inglaterra. O Royal Engineers foi vice-campeão na primeira edição do torneio em 1872 e também em 1874, até erguer o troféu em 1875. O multifacetado artilheiro anotou dois gols nas finais contra o Old Etonians.

Com o desenvolvimento do futebol e a adoção do regime profissional a partir de 1885, a especialização dentro do esporte aumentou. Mas nada que barrasse os multi-atletas. John Willie Sutcliffe vingou em ambas as modalidades – e seria o último jogador a defender as duas seleções inglesas. Ele começou no rúgbi e, quando defendia o Heckmondwike, foi convocado. Disputou uma partida contra os Maori All Blacks em 1889 e até marcou um try no amistoso. Contudo, meses depois sua carreira mudaria de rumos.

Um dos princípios da Rugby Football Union era justamente o amadorismo. Foi a oposição da entidade ao regime profissional que provocou a criação da Rugby League no norte da Inglaterra, em 1895, com ligeiras mudanças nas regras. Tanto é que, seis anos antes, o Heckmondwike foi suspenso pela RFU por dar dinheiro aos seus atletas. Sutcliffe, então, resolveu mudar de esporte e assumiu as luvas como goleiro. Começaria como profissional no Bolton Wanderers, com o qual superou as 300 partidas e disputou a final da Copa da Inglaterra em 1894.

Sutcliffe deslancharia no futebol, transformando-se em um personagem importante naqueles primeiros anos de Football League. O goleiro disputou cinco partidas pela seleção inglesa da modalidade, entre 1893 e 1903. Além disso, sua longa trajetória incluiu uma estadia expressiva no Plymouth Argyle. Também atuou por dois anos no Manchester United, usando a braçadeira de capitão nos Red Devils. Seguia na ativa até os 46 anos de idade e trabalhou ainda como técnico, dirigindo Vitesse e Bradford City.

Além da Inglaterra, a Irlanda também merece menção por seus multi-atletas. Um caso interessante é o de Kevin O’Flanagan, que atuou nas décadas de 1930 e 1940. Ele representou a seleção irlandesa em ambos os esportes. No futebol, chegou a passar pelo Arsenal, mas preferiu não seguir carreira profissional para também se dedicar ao rúgbi, onde teve sua principal passagem pelo London Irish. Já Tony Ward fez história no rúgbi union, mas com sua relevância no futebol. Eleito o melhor jogador da Europa com a bola oval em 1979, ele integrou o British & Irish Lions (a seleção das ilhas) e também os Barbarians – tidos como uma seleção do mundo. Ainda assim, jogaria futebol por Shamrock Rovers e Limerick United em seu país. Chegou a ser campeão da Copa da Irlanda, disputando a Copa da Uefa em 1981/82.

Na Argentina, Martín Terán foi um símbolo dos Pumas e disputou duas Copas do Mundo, em 1991 e 1995. Meses depois de se aposentar da seleção de rúgbi, aos 26 anos, recebeu o convite para jogar pelo Atlético Tucumán, seu clube de coração. Primeiro, se tornou artilheiro do segundo quadro na liga tucumana. Depois, não só disputaria alguns jogos com o time principal, como também marcou o gol que salvou os albicelestes do rebaixamento à terceira divisão em 1996/97. Finalista da Copa de 2019, a África do Sul pode mencionar Conrad Jantjes, que defendeu os Bafana Bafana nas categorias de base, enquanto foi Springbok no nível adulto.

E para fechar essa lista, dois nomes do futebol que possuem sua pontinha no rúgbi. Gareth Bale dividia a bola redonda em seus tempos de escola com Sam Warburton, que viraria capitão de Gales em duas Copas do Mundo de Rúgbi Union, assim como usaria a braçadeira nos British & Irish Lions. Aaron Ramsey, por sua vez, se aventurava com a bola oval e recebeu convites para atuar na base de um clube profissional do rúgbi league, embora já tivesse contrato com o Cardiff City. O meio-campista é uma prova recente de como a capacidade atlética e a inteligência motora podem abrir portas em distintas modalidades. É interessante imaginar como alguns atletas poderiam ter sucesso em ambas as empreitadas.