O Atlético de Madrid não faz uma boa temporada, e os motivos para justificar esta afirmação são diversos. No entanto, o futebol pode mudar tudo em uma noite. E o Wanda Metropolitano presenciou o Atleti em sua melhor forma, justamente contra a poderosa Juventus, em plenas oitavas de final da Liga dos Campeões. Durante boa parte do jogo, as duas equipes reforçaram as suas virtudes. As defesas prevaleciam no duelo, apesar da insistência dos ataques em destravar os cadeados. Já no segundo tempo, os colchoneros cresceram, empurrados por uma torcida pulsante ao longo dos 90 minutos. Mais perigosos, encontraram o caminho às redes. Os zagueiros, tão valiosos atrás, acabaram sendo os heróis também na frente. Godín e Giménez anotaram os gols, de uma equipe que sabe muito bem explorar as bolas paradas. A vitória por 2 a 0 deixa os espanhóis em uma excelente situação para o reencontro em Turim. A oportunidade para que reafirmem o elo com os melhores momentos sob as ordens de Diego Simeone. Nesta quarta, os rojiblancos beiraram a perfeição, em seu futebol de controle defensivo e eficiência no ataque.

A grande novidade na escalação do Atlético de Madrid era Diego Costa, retornando ao time titular pela primeira vez desde sua lesão. O sergipano compunha o ataque ao lado de Antoine Griezmann, enquanto Simeone optou por um meio-campo mais consistente em seu 4-4-2. Rodri e Thomas Partey fechavam pelo meio, enquanto Saúl Ñíguez e Koke vinham abertos. Do outro lado, a Juventus confiava em Mattia De Sciglio na lateral direita, a principal surpresa no 11 inicial de Massimiliano Allegri. Pelo meio, os juventinos contavam com o trio composto por Blaise Matuidi, Miralem Pjanic e Rodrigo Bentancur. Já na frente, força máxima com Cristiano Ronaldo, Mario Mandzukic e Paulo Dybala. A movimentação dos atacantes era uma aposta da Velha Senhora.

Não seria o primeiro tempo mais vistoso. O Atlético de Madrid teve a iniciativa durante os minutos iniciais, mas a tônica do jogo logo ficou clara. Os dois times defendiam de maneira muito compacta e sobrava poucos espaços para atacar. Como nenhuma das equipes contragolpeava com velocidade, restava arriscar de fora da área ou esperar as bolas paradas. Assim, a Juventus deu seu primeiro aviso aos oito minutos. Cristiano Ronaldo era bastante vaiado pela torcida no Wanda Metropolitano, por motivos óbvios. Respondeu com uma cobrança de falta potente, não tão bem colocada, mas que deu trabalho para Jan Oblak espalmar. Pouco depois, a partir de um escanteio, Leonardo Bonucci subiu livre e cabeceou para fora. Já aos 14 minutos, o Atleti obrigou a primeira intervenção de Wojciech Szczesny, pegando firme uma bomba de Thomas na entrada da área.

A Juventus teve mais posse de bola no primeiro tempo. Porém, o Atlético parecia exercer melhor sua pressão quando se colocava no ataque. A participação de Antoine Griezmann, saindo da área, ajudava nesse sentido. Faltava apenas um pouco mais de qualidade na criação, com os passes saindo um pouco esticados na hora de definir. Depois de minutos mornos, a torcida do Atleti teve um motivo para comemorar quando o árbitro assinalou um pênalti sobre Diego Costa, aos 25. Com a instrução do VAR, ele voltou atrás e assinalou a infração fora da área, embora fosse discutível até mesmo a marcação. Na cobrança, Griezmann protagonizou o melhor lance de sua equipe durante a primeira etapa. Chutou direto, com força, mas Szczesny realizou uma excelente defesa.

Exceção feita a um chute de Dybala, tranquilamente defendido por Oblak, os 15 minutos finais careceram de emoções. Em compensação, escancararam o jogo pegado, com uma cara de Libertadores. A intensidade dos times na marcação era evidente desde os primeiros minutos e também causava rusgas entre os atletas. Já às portas do intervalo, sobraram entradas duras, algumas até passíveis de cartões. Cristiano Ronaldo era o alvo principal e provocava. A arbitragem, contudo, deixava o jogo correr e se mantinha branda em relação às divididas. Com os colchoneros exagerando um pouco mais na força, apenas Thomas e Diego Costa (este, por reclamação) receberam cartões amarelos. Ambos suspensos para o jogo de volta.

O segundo tempo começou com o Atlético de Madrid mais aceso. E os rojiblancos lamentaram as chances perdidas, que poderiam muito bem dar a vantagem à equipe logo de cara. Diego Costa teve tudo para abrir a contagem, aos quatro minutos. Após um domínio errado de Giorgio Chiellini na faixa central, Griezmann fez o lançamento em profundidade de primeira e o centroavante ganhou de Bonucci na corrida, saindo de frente para o gol. Mesmo com a meta enorme a seu gosto, bateu de chapa para fora. Depois, em outro ataque rápido, seria a vez de Griezmann ficar a um triz do gol. Koke deu um belo passe por elevação e o francês tentou encobrir Szczesny. Méritos totais do goleiro, que desviou com a ponta dos dedos e ainda viu a bola explodir no travessão. Antes que alguém aproveitasse o rebote, Chiellini rifou para longe.

A Juventus retomaria o controle do jogo na sequência, tentando se impor no campo de ataque e pressionar a defesa do Atlético de Madrid. Os colchoneros se defendiam muito bem, sem conceder brechas aos oponentes. E logo Simeone gastou suas três alterações, buscando mais os contra-ataques. Saíram Diego Costa, Thomas Partey e Koke, para as entradas de Álvaro Morata, Thomas Lemar e Ángel Correa – este, para forçar um pouco mais Alex Sandro, que tomara o seu amarelo minutos antes. As redes não demoraram a balançar, aos 24 minutos. Em um lance no qual os dois times estavam concentrados pela direita, Filipe Luís aproveitou a avenida na esquerda e recebeu a inversão de Lemar. O catarinense cruzou com precisão e Morata cabeceou para dentro. Todavia, Chiellini reclamou de um empurrão na jogada. O árbitro foi até o vídeo conferir o lance e anulou o tento, marcando corretamente a infração.

Logo depois, Allegri daria mais presença física ao meio, com Emre Can no lugar de Pjanic. A Juventus tentou se impor nos minutos seguintes, mas as linhas de marcação do Atlético não se dobravam. E não demorou para os espanhóis balançarem as redes outra vez, agora valendo. Aos 32 minutos, Lemar cobrou escanteio pela esquerda. Morata cabeceou e Mandzukic bloqueou a finalização, antes que a bola batesse em Bonucci, caído. A sobra ficou diante de José María Giménez e o uruguaio se esforçou ao máximo, num lance de pura raça, dando um carrinho entre os adversários para arrematar a bola. Szczesny não teve o que fazer. Bonucci ainda reclamou de falta, após a mão de Giménez acertar seu rosto. Nada que valesse a anulação do tento, desta vez.

E o gol transformou a partida no Wanda Metropolitano. Empurrado por sua torcida, o Atlético de Madrid amassava a Juventus. Teve uma sequência de bolas paradas, sempre levando perigo no jogo aéreo. O segundo tento não demorou, aos 38 minutos. Antoine Griezmann cobrou falta pelo lado esquerdo e mandou o chuveirinho na área. Os colchoneros não conseguiram pegar na bola em cheio, mas o cruzamento perigoso levou Mandzukic a afastar como dava. A sobra, porém, veio mansa a Godín. Mesmo com pouco ângulo, o uruguaio conseguiu finalizar e viu com o auxílio involuntário de Cristiano Ronaldo, contando com o desvio no português para chegar às redes.

Sem mais nada a perder, a Juventus partiu ao ataque. Allegri, que já tinha colocado Federico Bernardeschi no lugar de Dybala antes do segundo gol, também tirou Matuidi para a entrada de João Cancelo. Apesar dos riscos de se expor ao contra-ataque, a Velha Senhora buscava o tento fora de casa, que poderia fazer a diferença no placar agregado. Aos 44, uma excelente chance veio em bola no limite da grande área. Apesar de todo mundo esperar um cruzamento fechado de Cristiano Ronaldo, já que não havia muito ângulo para bater direto, o craque rolou para Bernardeschi na entrada da área e o italiano soltou o pé. Parou em outra defesaça de Oblak. Já nos acréscimos, Cristiano Ronaldo poderia ter descontado. Can espetou uma bola na área e a movimentação do craque foi perfeita, se infiltrando sozinho. Entretanto, não ajeitou o corpo da maneira devida e a cabeçada saiu por cima. A vantagem monumental é do Atleti.

Não ter Diego Costa e Thomas Partey para o reencontro em Turim é uma questão ao Atlético de Madrid. No entanto, Morata entrou bem no segundo tempo e o meio-campo pode apostar em outras configurações para segurar a Juventus. Será uma noite para testar a solidez defensiva dos colchoneros mais uma vez, enquanto a Velha Senhora terá a pressão de resolver o resultado, sob o risco de praticamente não poder tomar gols. A atuação histórica dos rojiblancos nesta quarta merece o justo prêmio. Contra um adversário de características similares, mas jogadores mais badalados, o Atleti teve colhões – como indicou Simeone na comemoração do segundo gol. Também teve concentração e eficiência para alcançar o resultado desejado. Uma partida inesquecível a quem a viveu no Metropolitano.