O Club Atlético Nacional não estava lá na primeira onda de êxito do futebol colombiano. Bem, até estava, já que foi fundado em 1947, ainda como Club Atlético Municipal. Mas ainda era recente demais entre 1949 e 1954, quando fazia fama a liga pirata, que se tornou o “Eldorado” e atraiu para o Millonarios de Bogotá craques argentinos como Alfredo di Stéfano e Adolfo Pedernera. O tempo passou. O clube verde cresceu. Superou seus rivais, tornando-se conhecido em toda a América do Sul. E com a manifestação comovente de homenagem e apoio à Chapecoense, nesta quarta, no estádio Atanasio Girardot, o clube de Medellín provou ser merecedor de toda a grandeza que conseguiu dentro de campo – e fora dele também, claro.

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Uma grandeza que começou a partir da mudança de nome para Club Atlético Nacional, em 1950, pretendendo apostar somente na contratação e revelação de jogadores colombianos. Mas que contou com dois destaques argentinos para ganhar seu primeiro impulso, a partir de 1954, com o primeiro título nacional. Em campo, ficou notável o atacante Carlos Gambina – goleador máximo do Campeonato Colombiano, com 21 gols; no banco, havia o técnico Fernando Paternoster, vice-campeão mundial em 1930 com a seleção de seu país. Sem contar o meio-campista colombiano Humberto “Turrón” Álvarez, primeiro grande ídolo da torcida verdolaga.

Porém, o impulso foi interrompido a partir de 1958, com a grave crise financeira por que passou o clube. A diretoria comunicou que só teria dinheiro para renovar o contrato de cinco jogadores. Pelo esforço dos próprios atletas (incluindo “Turrón” Álvarez), houve uma cotização para pagar a ficha de inscrição do clube na Dimayor, a liga colombiana. Aí houve talvez o primeiro episódio de solidariedade na história do Nacional. Por sinal, vindo de um rival cuja bandeira também esteve na homenagem à Chape: o Independiente Medellín. Também em crise econômica, o rival citadino fundiu-se temporariamente com o Nacional, e cedeu jogadores para o Campeonato Colombiano de 1958. Para efeitos oficiais, o clube seguiu sendo o Atlético Nacional. Mas aquela fusão disputou a Primera A sob o nome popular de “Independiente Nacional”. E não saiu-se de todo mal: ficou na segunda posição durante boa parte da competição, terminando em quinto lugar.

Aos poucos, os Verdolagas foram se recuperando. Mas preferiram apostar mais na fama de clube revelador de talentos do que em títulos – a tal ponto que o clube voltava periodicamente a contratar/revelar somente colombianos, durante a década de 1960, exatamente para minorar o impacto da falta de dinheiro. Somente em 1971 a equipe alviverde voltou a disputar seriamente os títulos com regularidade: conquistou o Apertura colombiano (àquela altura, a Colômbia já adotava o sistema de dois campeonatos), disputou o título geral do país num quadrangular com Millonarios, Santa Fe e Deportivo Cali, e terminou na segunda posição. Já serviu para garantir a estreia na Copa Libertadores, em 1972.

A retomada do caminho para a grandeza estava mais próxima. E ganhou o impulso necessário em 1973, com o fim do jejum nacional. Campeão do Finalización, o clube terminou o triangular decisivo pelo título colombiano do ano à frente de Millonarios e Deportivo Cali. Não bastasse a volta à Libertadores, no ano seguinte o Nacional alcançou o vice-campeonato colombiano. E na segunda participação seguida na Libertadores, em 1975, os Verdolagas conseguiram um feito que consideraram por muito tempo o maior de sua história: encerraram uma longa invencibilidade do Cruzeiro no Mineirão, fazendo 3 a 2 na Raposa, pela fase de grupos, em Belo Horizonte – Hugo Londero foi o destaque, com três gols.

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A partir dali, o caminho foi célere até o topo, para igualar a sua tradição à dos rivais de Cali (América e Deportivo), mais Santa Fe e Independiente Medellín. Em 1976, o clube contratou um técnico que jorrava tradição na América do Sul: o argentino Oswaldo Zubeldía, histórico comandante do Estudiantes tricampeão sul-americano. E Zubeldía treinou a equipe nos títulos colombianos de 1976 e 1981. No primeiro, figurava ali um zagueiro, dentista de formação, que ainda seria muito importante na história dos Verdolagas: Francisco Maturana. No segundo, o destaque foi o atacante peruano César Cueto, goleador do campeonato.

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Mas um momento de dor estava no meio do caminho: Zubeldía morreu enquanto ainda estava no clube, em 1982. Restou voltar para mais um período de amadurecimento – iniciado em 1983, com a inauguração da Escuela de Fútbol de Nacional, tendo à frente do projeto o uruguaio Luis Cubilla (substituto de Zubeldía) e… ele, Francisco Maturana, então já de carreira encerrada. Aquele período seria fundamental para a decisão tomada em 1987: o clube voltaria às origens, somente contratando e revelando jogadores colombianos, e trazendo Maturana do Once Caldas para ser o técnico do time principal. Começava a época dos “Puros Criollos”.

Daí por diante, a história é mais conhecida. As contratações de Luis Carlos Perea, Gildardo Gómez, Leonel Álvarez, Alexis García e Albeiro Usuriaga, que se uniram às revelações da Escuela de Fútbol: René Higuita, Andrés Escobar, John Jairo Tréllez. A polêmica sobre a relação com o narcotráfico, sobre a qual muito se cala, ainda. Os frutos esportivos do investimento, com o primeiro título colombiano na Libertadores (1989) e a valorosa atuação no Mundial Interclubes daquele ano, caindo para o Milan na prorrogação, com um gol no penúltimo minuto. O trauma do assassinato de Andrés Escobar. O vice-campeonato sul-americano em 1995, com mais dois nomes que marcaram época no clube: Mauricio “Chicho” Serna e Victor Hugo Aristizábal – merece menção o zagueiro Victor Marulanda, hoje gerente de gestão (e ex-presidente) do clube.

Periodicamente, o Atlético Nacional continuou participando de edições da Libertadores e da Copa Sul-Americana, e seguiu consolidando sua tradição na Colômbia (é o clube com mais títulos colombianos – 15). Entre 2012 e 2015, sob o comando de Juan Carlos Osorio, novos tempos de glória, com três títulos colombianos – destaque para 2013, quando o time unificou as conquistas dos Torneios Apertura e Finalización. Além disso, a consolidação de um estilo tático. Reafirmado sob Reinaldo Rueda, treinador da equipe que levou o clube de novo ao topo da América do Sul, neste ano, com o segundo título da Libertadores.

Ou seja: tradição esportiva, o Atlético Nacional já tinha. Talvez fosse o mais conhecido clube colombiano do continente. Já era um clube grande. Virou gigante ontem. Ou talvez, além da grandeza dentro de campo, tenha ganho outro tipo de grandeza – bem mais importante, cá entre nós.

*A quem quiser se aprofundar na relação do Atlético Nacional com o narcotráfico (e como as brigas entre os cartéis de Cali e Medellín influíram decisivamente no desenvolvimento do futebol colombiano), sempre é bom reavivar a dica do filme “The Two Escobars” (2010), dos irmãos Jeff e Michael Zimbalist.