O Atlanta United precisou de duas temporadas para conquistar o seu primeiro título na Major League Soccer. Ascensão meteórica sacramentada na noite deste sábado, com a indiscutível vitória por 2 a 0 sobre o Portland Timbers. A falta de “tradição” do clube pode até ser um ponto que desagrada quem não conhece tanto sobre o futebol nos Estados Unidos. Mas a verdade é que, além dos próprios méritos para chegar à taça (e eles são muitos), os rubro-negros também ajudam a MLS com esta conquista. É um modelo que pode dar certo e que, em uma liga na qual parcas franquias possuem mais de duas décadas de história, projeta para o futuro a tradição de um “soccer” realmente com cara de futebol. Os 73 mil presentes nas arquibancadas no Estádio Mercedes-Benz, já um recorde de público na decisão do torneio, surgem apenas como o primeiro indício.

Afinal, os Estados Unidos tentaram várias fórmulas diferentes para emplacar o “soccer” profissional no país. E, a bem da verdade, boa parte delas fracassou. A começar pela NASL, a liga que atingiu o seu ápice nos anos 1970. Às vésperas de Jerry Buss comprar o Los Angeles Lakers e revolucionar a NBA com o seu famoso ‘Showtime’, que unia tanto o glamour de Los Angeles quanto o basquete espetacular dos Lakers para o entorno da franquia, o New York Cosmos já havia sido uma prática disso na costa leste. Teve Pelé como porta-voz de um estado de arte e fama do futebol, bancado pela indústria da música, unindo ainda outros craques. No entanto, quando os principais astros se foram dos Estados Unidos, a competição não conseguiu se sustentar pelo jogo em si. Tentou enveredar até mesmo como um campeonato “indoor”, até que a falência se tornasse inescapável.

A Major League Soccer já tinha o conhecimento sobre o que não deu certo no país e veio com um formato diferente, aproveitando o embalo da Copa do Mundo de 1994. Pautou-se muito mais no desenvolvimento do esporte no país e de seus atletas. Mas também precisou dar muitos murros na parede até perceber que diferentes padrões não tinham futuro. Os indefectíveis “shootouts” nas partidas, que chegaram a substituir os pênaltis? Hoje são apenas um extinto folclore. Os nomes da franquia “cidade+alegoria”, tão comum em outras modalidades americanas? Cada vez mais em desuso. A ideia de fomentar o surgimento dos jogadores através das universidades? Caíram na real que o desenvolvimento no futebol é mais precoce, com o incentivo às categorias de base. E assim, diferentes detalhes foram se aprimorando ao longo do tempo.

O próprio conceito dos clubes mudou. Não é mais essa coisa artificial de achar que o público vai brotar apenas por se instalar na cidade, como o futebol americano consegue por osmose. No “soccer”, é necessário criar uma base de torcedores locais. E isso aconteceu aos poucos, entre erros ou acertos. Um primeiro passo ousado veio com o Chivas USA, tentando se atrelar à comunidade latina através de uma “marca” famosa no México. Não deu certo. Mas, ao longo da última década, o nascimento das franquias se tornou mais consistente. Algumas com nomes fantasiosos passaram a adotar uma imagem mais boleira, como o FC Dallas e o Sporting Kansas City. O Canadá se transformou em mercado inteligentemente mais explorado. O investimento de grandes empresas se tornou mais amplo, como no New York Red Bulls e no New York City – percebendo-se também, enfim, como a rivalidade é essencial para fomentar a paixão. Aproveitaram times que já possuíam sua história em outras ligas, com menção honrosa ao trio da Cascadia – Seattle Sounders, Portland Timbers e Vancouver Whitecaps. E, diante deste caldeirão de informações, o Atlanta United desabrochou a partir de 2017.

Como franquia, o Atlanta acerta em vários pontos. O primeiro deles está na imagem do próprio clube. Como se tornou bem mais frequente nos últimos anos, é um clube de futebol que qualquer pessoa identifica como um clube de futebol. E isso contribui bastante na penetração da marca, dentro ou fora do país. Outro ponto vital é a própria abertura da MLS ao sudeste dos Estados Unidos, algo que tardou a acontecer após as experiências falidas com Tampa Bay Mutiny e Miami Fusion. Demorou para a liga reconhecer que a Flórida e suas adjacências eram mercados inescapáveis ao crescimento da competição. Neste ponto, méritos iniciais ao Orlando City, cujo impacto transformou a noção sobre o “soccer” por ali. Além do mais, Atlanta também ascendeu muito graças à experiência de sua gestão em outros esportes. É algo que o Seattle Sounders, por exemplo, se beneficia ao compartilhar bastante com o Seattle Seahawks. E que aconteceu com força na Geórgia, a partir de Arthur Blank, bilionário dono do Atlanta Falcons na NFL. Cores e ideias são traços em comum entre as duas equipes, que ainda ganharam um estádio novinho em 2017, o Mercedes-Benz, para chamar de seu.

Por tudo isso, o Atlanta não demorou a cair nas graças do público – com um forte investimento na imagem daquilo que o clube poderia representar à cidade e daquilo que a cidade poderia representar à MLS. Desta maneira, o United transformou-se em fenômeno, até superando as expectativas com sua média de público na casa de 53 mil por jogo. Impregnou-se a Geórgia com uma cultura de torcedor, e uma cultura que os americanos estão acostumados a se apaixonar quando veem aquelas multidões barulhentas nos estádios latino-americanos. Pode soar pouco autêntico em alguns momentos e também ter traços do “american way of cheer”, como bem se viu pelas luzes psicodélicas após a final deste sábado, mas não deixa de ser uma aproximação ao verdadeiro futebol. E mais do que uma artificialidade transportada de qualquer outra liga americana, é exatamente isso que dá certo: o futebol respeitado como ele é, com algumas pitadas de cultura local, como acontece em todas as partes do mundo.

O sucesso do Atlanta United, porém, não seria possível se esses conceitos se mantivessem alheios à parte esportiva. E neste ponto é que está a transformação proporcionada pelos rubro-negros. Entre os muitos murros na parede dados pela MLS, estava o investimento em medalhões. Há a questão midiática inegável, aprendida nos tempos de NASL. Mas ao próprio nível de jogo, os ganhos são questionáveis. O sucesso de times encabeçados por astros tarimbados (sim, Galaxy, estou falando especialmente de você) pode transmitir uma falsa impressão de qualidade no trabalho. Todavia, o legado disso costuma ser efêmero, como se pode notar em vários momentos diferentes nos EUA. Os craques da NASL ou dos primórdios da MLS não evitaram crises. Por isso mesmo, o Atlanta United intensificou algo teoricamente simples, mas até então raras vezes feito pelas franquias americanas: pensar o elenco como um meio, não como o fim, para grandes jogadores. Em vez de chegarem por pura falta de perspectivas ou após uma carreira já condecorada, melhor usar a equipe como trampolim.

E a tacada de mestre, sobretudo, esteve em quem o Atlanta United escolheu para ser o mentor de tal projeto. Alguns podem torcer o nariz para Tata Martino, mas o treinador era perfeito à MLS. Alguém com experiência incontestável em grandes clubes e seleções, que poderia transmitir isso a um clube em eclosão. Uma figura para impor respeito nos vestiários ou mesmo atrair novos jogadores. Um conhecedor do futebol bem jogado e incentivador da qualidade técnica dentro de campo. Tudo aquilo que poderia transformar o time em “estado de arte boleira” e, desta maneira, corroborar tudo o que se planejava nos bastidores. Afinal, o “Showtime” está longe de ser uma ideia desprezível, que não pode ser adaptada ao futebol. Eles só haviam olhado a um viés errado do conceito anteriormente. O show não precisa ser necessariamente um Harlem Globetrotters, mas também seria importante não limitá-lo a um punhado de craques que carregasse companheiros nas costas. O futebol se faz coletivamente.

Exceção feita a Carlos Alberto Parreira e a Bora Milutinovic lá na década de 1990, Tata Martino se tornou o primeiro em anos na liga a chegar como “nossa, esse cara tem uma história realmente foda como técnico de futebol”. Algo que pode parecer uma aposta tão básica entre as possibilidades à MLS, mas que simplesmente não acontecia. E que carrega consigo uma série de efeitos ao Atlanta United. Obviamente, não dá para personalizar tudo no argentino. Há uma série de decisões que partem da diretoria e outros responsáveis pelos méritos dos rubro-negros nestes dois anos. Mas surge um claro ponto de partida nisso, repercutindo na montagem do elenco, bem como no futebol que a equipe praticou nestas duas primeiras temporadas de tremendo sucesso.

Tata Martino e o projeto do Atlanta United se tornaram chamariz a jogadores com potencial. A aposta em latino-americanos com qualidade técnica é comum em toda a MLS, vale dizer. Mas não necessariamente naqueles que podem realmente causar impacto no futebol continental, com margem a evolução e prontos para se tornarem protagonistas em suas seleções. Assim vieram os três “craques”, os atletas designados que poderiam receber salários acima do teto da liga. Miguel Almirón já tinha sido campeão nacional por Lanús e Cerro Porteño, importante nas conquistas. Um camisa 10 típico da América do Sul, com muita qualidade técnica. E, então aos 22 anos, parte da seleção paraguaia onde Martino é lenda. Josef Martínez, por sua vez, vinha como um dos principais nomes da seleção venezuelana desde 2011. Mesmo jovem, aos 23 anos, desembarcava após defender diferentes clubes na Europa, incluindo o Torino. Tinha uma chance para se reerguer.

Na temporada inicial, o terceiro jogador designado era Héctor Villalba. O ponta incisivo se tornou um dos principais nomes do San Lorenzo na conquista da Libertadores de 2014 e, mesmo com bola suficiente a outras ligas mais badaladas, aceitou a proposta da MLS. Depois de uma ótima primeira temporada na equipe, o argentino recebeu o visto de permanência definitivo nos EUA e aceitou reduzir seu salário, com uma compensação financeira por isso. Assim, a terceira vaga se abriu a Ezequiel Barco, sensação do Independiente campeão da Copa Sul-Americana em 2017 e visto como um dos jogadores mais talentosos do país em sua geração. Todos eles viram o Atlanta United como um meio, não como um final, a carreiras que ainda podem mais. Tata Martino os ajudaria nisso.

E mesmo entre os demais nomes, há uma mescla interessante no Atlanta United. Brad Guzan e Michael Parkhurst, os dois americanos mais tarimbados do elenco, só atingiram seu nível de excelência ralando em clubes europeus – especialmente Aston Villa e Nordsjaelland, respectivamente. Darlington Nagbe nasceu na Libéria e, após fugir do país por conta da guerra civil, rodou a Europa durante a infância com seu pai, Joe Nagbe, que defendeu clubes como Nice, Monaco e PAOK. Greg Garza atuou na base do São Paulo e do Sporting, enquanto Sal Zizzo se desenvolveu no segundo time do Hannover 96. Entre os outros latino-americanos, de clubes tradicionais da Argentina chegaram Franco Escobar, Eric Remedi e Leandro Pírez González. O jamaicano Romario Williams foi peça importante no vice-campeonato de sua seleção na Copa Ouro em 2017. Por fim, da Europa ainda vieram o alemão Julian Gressel, que começou na base do Greuther Fürth, antes de se juntar ao sistema universitário americano; além do compatriota Kevin Kratz e do irlandês Chris McCann, estes talhados em clubes das divisões de acesso na Europa.

Com esta espinha dorsal, Tata Martino moldou a sua equipe. Pegou jogadores já preparados a um modelo de trabalho, para aplicar os seus métodos. Não demorou a criar um futebol intenso e objetivo, com uma vocação ofensiva inegável. A estreia do Atlanta United na MLS foi estrondosa, com um ataque que aplicou goleadas por 6 a 1 e 4 a 0 logo nas primeiras três rodadas. O time não atuou de maneira tão regular assim fora de casa, mas o ataque com média de quase três tentos por jogo na Geórgia impulsionou a franquia aos playoffs. Perderam logo na primeira fase, sucumbindo nos pênaltis ao Columbus Crew, um adversário bem mais tarimbado em mata-matas.

Todavia, o primeiro passo dado em 2017 viu a continuidade em 2018. A espinha dorsal da equipe foi mantida, com adições pontuais de jogadores como Nagbe, Williams, Escobar e Remedi, além do investimento de US$15 milhões em Barco. A sede por gols se manteve, com 70 bolas nas redes ao longo da temporada regular, enquanto os resultados como visitante melhoraram substancialmente. A torcida continuou provocando o calor no Estádio Mercedes-Benz e o rendimento em casa seguiu tão bom quanto. Os rubro-negros galgaram degraus na Conferência Leste, terminando com a segunda melhor campanha geral, abaixo apenas do New York Red Bulls. Com isso, já haviam garantido presença na próxima edição da Concachampions. Mas bem mais importante seria a dedicação aos playoffs, o objetivo principal.

Nas semifinais da conferência, contra o New York City, o Atlanta United não tomou conhecimento do adversário badalado por suas velhas estrelas. Ganhou os dois jogos, aplicando uma inapelável vitória por 3 a 1 na Geórgia. E que o New York Red Bulls aumentasse o nível do desafio na decisão do Leste, os rubro-negros deram show diante de sua torcida, com o triunfo por 3 a 0, que até permitiu a derrota por 1 a 0 no reencontro em New Jersey. Assim, o favoritismo do United era amplo para a MLS Cup ante o Portland Timbers, por mais que os adversários tivessem derrubado favoritos na Conferência Oeste.

Dono da melhor campanha geral entre os finalistas, o Atlanta United ganhou o direito de sediar a decisão única no Estádio Mercedes-Benz – palco do Super Bowl no início do próximo ano. E a torcida não fez por menos, ao esgotar os 73 mil ingressos, tentando criar uma atmosfera densa para empurrar a sua equipe. O talento dos rubro-negros falou por si. Trabalhando bem a bola e agredindo no ataque, abriram o caminho à vitória no primeiro tempo, em roubada de bola no campo de ataque para o artilheiro Josef Martínez decidir. Já na segunda etapa, quando os Timbers davam sinais de reação, coube a Franco Escobar liquidar a fatura, em cruzamento de Almirón que Martínez deu uma casquinha. Outro a se destacar na final foi o goleiro Brad Guzan, com defesas seguras e duas excelentes intervenções quando o Portland buscava o empate. Ao final, festa lisérgica na Geórgia, com o troféu entregue ao dono Arthur Blank e ao capitão Michael Parkhurst.

O título encerra o primeiro capítulo na história do Atlanta United. Tata Martino anunciou que não ficará na franquia, cotado para assumir a seleção mexicana. Também há dúvidas se Josef Martínez e Miguel Almirón continuam. MVP da temporada regular e dos mata-matas, além de artilheiro absoluto da liga com 34 gols, o venezuelano saiu com os olhos marejados ao ser aplaudido de pé pelo Estádio Mercedes-Benz. Tem bola para recuperar o prestígio na Europa e manter sua seleção competitiva. O mesmo aconteceu com Almirón nos instantes finais. O maestro se firmou como o jogador mais técnico da MLS neste biênio. Pretendido pelo Newcastle, logo deve iniciar sua história no Velho Continente. E o mesmo pode ser um dia, quem sabe, a Barco, Villalba, Williams e outros que despontam.

Será um desafio ao Atlanta United encontrar outro treinador com o peso de Tata Martino, assim como jogadores que apliquem tão bem as ideias em campo como Martínez e Almirón, se os dois realmente partirem. Mas há uma semente plantada que faz crer na continuidade do trabalho. O futebol em Atlanta não deve ser uma mera febre, por tudo o que circunda o clube. E não deve se conter apenas à Geórgia, afinal. Se a MLS muitas vezes se pauta pelos exemplos, há um mais do que claro sobre aquilo que pode prosperar no país. Sobre aquilo que transforma o “soccer” no futebol universal, da bola bem tratada e da atmosfera contagiante.

Citando o amigo Ubiratan Leal, o Atlanta United é a melhor coisa que aconteceu à MLS. E não apenas por levar a liga a um novo patamar, em termos esportivos ou administrativos. Também por transmitir outra imagem da competição ao resto do mundo. Confesso que estou entre aqueles acostumados a torcer o nariz para a MLS, mas que observa os rubro-negros de uma maneira diferente. Através de um projeto como esse, é que o campeonato americano pode ser notado não mais como um “retiro de estrelas”, mas como uma liga secundária razoável; que pode dar um impulso na qualidade coletiva dos times e, quem sabe, dos jogadores locais; que pode servir para desenvolver promessas de outros países. Não dá para dizer que a MLS vai virar uma NBA do futebol ou que os Estados Unidos vão ser campeões do mundo na próxima Copa, longe disso. Mas o mero respeito à liga como um espaço onde se vive o “soccer” de maneira verdadeira e que valoriza o talento que se desenvolve, diante de suas possibilidades financeiras, já é um grande passo aos Estados Unidos. O Atlanta ajuda a abrir essas portas. Talvez, com um modo de pensar que veio para ficar.