Na saída de campo, Iñaki Williams não segurava as lágrimas. Ídolo do Athletic Bilbao, o atacante anotou nesta quinta-feira um de seus gols mais importantes com a camisa do clube. E a emoção não se limitava apenas ao peso da ocasião, mas também ao calor do momento em San Mamés: com um tento aos 48 do segundo tempo, os bascos eliminaram o Barcelona na Copa do Rei. O triunfo por 1 a 0 garantiu os leones em semifinais históricas do torneio, horas depois que os rivais da Real Sociedad já tinham despachado o Real Madrid. A esperança de um campeão diferente ao que se vê nas últimas décadas agita a Espanha, sobretudo pela valentia dos vencedores nestas quartas de final.

Sem muitos jogadores à disposição para rodar o time e também sem viver uma fase favorável, o Barcelona entrou em campo com uma equipe tarimbada, em que Antoine Griezmann se tornou o único poupado em relação à vitória sobre o Levante no final da semana. E, desde os primeiros minutos, o Athletic mostrou que dificultaria a vida do Barça. O equilíbrio se notava logo, entre duas equipes com estratégias bem distintas.

O Barcelona tinha mais posse, mas encontrava problemas para superar a marcação do Athletic. Os bascos se defendiam com coesão e dificultavam a saída de bola, enquanto partiam em velocidade nas transições ofensivas. Ansu Fati teve uma boa chance aos seis minutos, em arremate que Unai Núñez tirou do caminho às redes. De qualquer maneira, a resposta veio rapidamente, com um tento de Iñaki Williams anulado por impedimento.

As defesas prevaleciam na maior parte do tempo. A marcação do Athletic chegava junto para bloquear os espaços e pressionar, com muito combate físico, enquanto o Barcelona precisava de mais velocidade nas recuperações para não dar brechas. Numa primeira etapa de poucos riscos aos goleiros, Dani García assustou aos 30. Depois de um erro do Barça na saída, o meio-campista arrematou com muito perigo para fora. Já Messi, por mais que tentasse, não pôde superar a forte cobertura dos leones. Núñez, em especial, seria perfeito em um desarme sobre o argentino dentro da área.

O segundo tempo começou com o Barcelona no controle. Quique Setién fez sua primeira alteração aos 12 minutos, com a entrada de Griezmann no lugar de Ansu Fati. Neste momento, os blaugranas se mostravam mais propensos à vitória, com Messi armando mais e criando ocasiões aos companheiros. Os catalães empurravam os anfitriões para trás. O goleiro Unai Simón fez algumas saídas de gol mais arriscadas, a zaga basca se defendeu no limite e Sergi Roberto acertou a trave num lance anulado por impedimento.

Aos 24, Unai Simón realizou mais uma defesa essencial, quando Griezmann recebeu de Sergi Roberto e bateu de primeira, numa bola difícil. Já do outro lado, Williams incomodava. Sobrava mais campo para o atacante partir em velocidade e a zaga blaugrana não conseguia acompanhá-lo. Em um de seus lances, o basco driblou Gerard Piqué e o defensor, além de apelar à falta que rendeu o cartão amarelo, ainda se lesionou, substituído por Samuel Umtiti. No mesmo período, a entrada de Aritz Aduriz contribuía ao jogo direto do Athletic, visando seus homens de frente com bolas longas.

Ante a aproximação dos minutos finais, até parecia que a prorrogação seria inescapável. O Barcelona não tinha pressa e o Athletic esperava o bote. No entanto, o jogo se abriu em dois lances decisivos. Primeiro, Messi teve a chance de decidir aos 42. Arthur deu um passe milimétrico ao camisa 10, que pôde dominar e bater. Unai Simón salvou os leones com os pés. E o heroísmo estava mesmo reservado a Iñaki Williams. Depois de pegar mal na bola aos 44, o atacante resolveu a parada durante os acréscimos. Ibai Gómez, que acabara de sair do banco, cruzou da direita. Williams disputou no alto com Busquets e conseguiu dar uma casquinha. A bola seguiu à lateral da rede e saiu do alcance de Marc-André ter Stegen. Foi o gol da classificação.

O Barcelona sequer teve tempo para reagir. Stegen até subiu ao ataque para tentar uma cabeçada, mas Unai Simón segurou o cruzamento, pouco antes que o apito final soasse. O novo San Mamés rugiu como nunca se viu desde sua inauguração. O Athletic elimina um dos favoritos, avança com autoridade e pode sonhar com um título que não conquista desde 1984. Nem é a melhor temporada dos leones, com sua irregularidade em La Liga. Independentemente também da crise do Barça, não deixa de ser um ato de grandeza dos bascos.

Segundo dados do Mister Chip, será a primeira Copa do Rei em 17 anos na qual Real Madrid, Barcelona e Atlético de Madrid estarão todos fora das semifinais. Presente nas últimas seis finais, o Barça também vinha de nove semifinais consecutivas. Além disso, há a certeza de pelo menos um campeão que não se vê há tempos: enquanto Mirandés e Granada buscam seu primeiro título, a Real Sociedad é a vencedora mais recente, com sua última taça levantada em 1987. Dono de 23 troféus, uma marca ainda superior à do Real Madrid, o Athletic possui quatro vices nos últimos 36 anos.

A mudança de regulamento na Copa do Rei foi um acerto para aumentar a imprevisibilidade dos mata-matas. A má fase dos grandes também contribui, é verdade. Mas nada disso seria possível sem a postura aguerrida dos quatro classificados, que superaram adversários mais badalados. Protagonizam uma edição memorável às copas nacionais europeias. O sorteio da próxima fase acontece nesta sexta-feira, sob expectativas de uma glória maior aos sobreviventes.