Houve um tempo em que o grande clube da Espanha não era Real Madrid e nem Barcelona. O Athletic Bilbao se manteve como potência nacional até a década de 1950, quando as duas potências dos maiores centros econômicos do país passaram a investir pesadamente em craques estrangeiros. Desde então, os Leones reviveram os grandes momentos em breves períodos. Na década de 1980, por exemplo, quando conquistaram o bicampeonato nacional. Porém, nos últimos 31 anos, faltaram taças. Os bascos contaram com bons times nos últimos seis anos, quase sempre batendo na trave. Até que o grito finalmente saísse da garganta da fanática torcida desta vez. A Supercopa da Espanha pode ser um título secundário, mas, diante da seca e da autoridade sobre o Barcelona, ninguém nega a sua grandeza.

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A história começou a ser feita no maior momento do novo San Mamés. Por mais que o Barça tenha entrado em campo com alguns reservas, nada tira o mérito da vitória do Athletic. Até pelo placar construído pelo time de Ernesto Valverde. Os leones enfiaram 4 a 0 sobre os blaugranas, com direito a um golaço do meio de campo de Mikel San José e a tripleta de Aduriz. O centroavante acaba sendo o grande personagem desta conquista. Desde 2005, nenhum jogador conseguia anotar três gols em um mesmo jogo contra os catalães. Desde 1943, em tão pouco tempo, balançando as redes em 15 minutos. E coube ao artilheiro definir o empate por 1 a 1 no Camp Nou, que culminou na festa da conquista.

O Barcelona bem que tentou a virada histórica. Desta vez, Luis Enrique escalou os seus principais nomes à disposição. E os blaugranas exerceram uma grande pressão desde os primeiros instantes. Contudo, nada parecia tirar o título dos leones. Quando não era a trave ou Iraizoz, a falta de pontaria pesava contra os anfitriões. O gol dos catalães só saiu no final do primeiro tempo, em uma linda bola ajeitada no peito por Luis Suárez que Messi fuzilou. Logo depois, a maneira como Iraizoz se agarrou à bola para catimbar e retardar o reinício do jogo demonstrava a vontade do Athletic. O que o Barça não teve no segundo tempo, ainda mais quando perdeu Piqué, expulso por reclamação. Por fim, Aduriz aproveitou uma nova falha bisonha da defesa blaugrana para fuzilar e coroar os bascos.

O Athletic vai para a sua 34ª conquista nacional, a terceira da Supercopa – e ainda são 23 Copas do Rei e oito Campeonatos Espanhóis. Apenas Real Madrid e Barcelona possuem mais taças no país. Entretanto, nos últimos 31 anos, os bascos viram tantos outros clubes de menor projeção triunfarem. Atlético de Madrid, Deportivo de La Coruña, Valencia, Sevilla, Zaragoza, Mallorca e Betis tiveram títulos desde então. Algo que explica muito a vontade dos leones nos dois jogos da Supercopa. O que pode parecer apenas um detalhe após a temporada magnífica dos blaugranas, vale muito mais em San Mamés. Até como chance de vingança, depois da derrota na final da Copa do Rei.

Desde 1984, o clube tinha somado sete vice-campeonatos. Perdeu a Copa do Rei de 1985 para o Atlético de Madrid e foi vice de La Liga em 1998, arrancando no final após a queda do Real Madrid, focado na Champions. Entretanto, desde 2009, foram cinco vices. Três na Copa e um na Supercopa para o Barcelona, além da Liga Europa de 2012 justo diante do Atlético de Madrid. Os méritos eram evidentes, para um clube que se vira nas próprias limitações, de contar apenas com bascos, e monta praticamente uma seleção regional. Por mais que o pé de obra seja escasso, na última temporada o time esteve na Champions.

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Neste sucesso recente, cabe ressaltar o bom trabalho dos treinadores Joaquín Caparrós foi o responsável pelo reerguimento, enquanto Marcelo Bielsa viveu uma temporada de sonho e futebol ofensivo. Contudo, a estabilidade nos últimos dois anos vem com Ernesto Valverde. Ex-jogador do clube, o treinador voltou para casa após viver bons momentos com Olympiacos e Valencia. Conseguiu montar uma equipe de qualidade técnica, mas também equilibrada. Além de ter à disposição os esforços da diretoria para recrutar os talentos bascos.

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Por mais que seja um clube de ótima saúde financeira, nem sempre o Athletic consegue segurar os seus melhores jogadores. Acaba perdendo muitas vezes pela multa rescisória, como aconteceu com Javi Martínez e Ander Herrera, ou pelo fim do contrato, a exemplo de Fernando Llorente. No entanto, a saída do centroavante, artilheiro do time em cinco temporadas consecutivas, teve o seu lado bom. Abriu as portas para o retorno de Aduriz, prata da casa que estava no Valencia. Em um jogo pela seleção basca, em 2011, o centroavante teve seu nome gritado pela torcida alvirrubra. Voltou para ser herói.

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O momento é de festa no novo San Mamés, o estádio mais moderno da Espanha na atualidade, símbolo da força do Athletic. Tanto nas finanças quanto dentro de campo, com o ótimo aproveitamento como mandante nas duas últimas temporadas. Dentro das possibilidades, é uma arma para a equipe. E mais um símbolo de orgulho para a torcida. Os leones sem mantêm firmes como uma bandeira da tradição do País Basco. Que, apesar das boas campanhas, agora tem um motivo evidente para comemorar. Mais do que merecido.