“Foi um gol de classe onde ele mostrou sua malícia e sua raça. Foi um gol de anjo, um verdadeiro gol de placa, que a galera agradecida assim cantava: Fio Maravilha, nós gostamos de você”. Fio ganhou um enorme presente em 1972, a partir da generosidade do coração rubro-negro de Jorge Ben. Ainda que fosse adorado pela torcida e tivesse mesmo marcado um golaço de placa naquele ano, o atacante estava longe de ser um jogador celestial. Mas teve a sorte de um craque da música eternizá-lo na MPB e, consequentemente, também no futebol. A ponto de, ao completar 70 anos nesta segunda, continuar lembrado muito além do que o seu talento pudesse sugerir.

A aptidão dos flamenguistas em exaltar o seu próprio folclore não vem de hoje. E a fama de Fio Maravilha vai muito ao encontro do que aconteceu anos depois com Obina ou Hernane. Os seus  números não impressionam: 79 gols em 289 partidas pelo Fla, além de um título carioca e três Taças Guanabara. O atacante chegou ao time principal em 1963, durante um período de entressafra na Gávea. Após rápidas passagens pelo Fluminense de Feira e pelo Avaí, deixou o clube em 1973, justamente quando acontecia a reafirmação do Fla, a partir da ascensão de Zico.

No entanto, a celebração de Fio tinha os seus motivos. Era uma das crias da Gávea, que gerava a identificação natural com a massa que frequentava a geral do Maracanã. O sujeito comum, desengonçado e de dentes tortos, que podia ser confundido com tantos outros brasileiros de origem humilde. Mas que, ao sair do interior de Minas Gerais para tentar a sorte no futebol, estava dentro de campo e marcando os seus golzinhos. Empolgando muita gente simples como ele. Indo além do que a sorte poderia lhe prever, como outros tantos meninos que sonharam em se tornar jogadores e nunca conseguiram.

Fio Maravilha pendurou as chuteiras em 1985, após rodar por Paysandu, CEUB, Desportiva e São Cristovão, além de defender equipes pequenas dos Estados Unidos. Permaneceu morando na Califórnia, onde começou a trabalhar como entregador de pizzas. E perdeu em partes aquela que foi sua maior conquista: ao exigir os seus direitos pela citação feita por Jorge Ben, viu a canção se transformar em “Filho Maravilha”.

Ainda assim, Fio nunca deixou de reafirmar o seu orgulho pelo golaço anotado em um amistoso contra o Benfica em janeiro de 1972. Saiu do banco e fez assim, aos 33 minutos do segundo tempo: “Tabelou, driblou dois zagueiros. Deu um toque driblou o goleiro. Só não entrou com bola e tudo porque teve humildade em gol”. O gol de sua vida, e o mais bonito da música brasileira.

Abaixo, uma reportagem do Esporte Espetacular com Fio Maravilha em 2007, que também contou com a participação de Obina, o seu sucessor com a camisa rubro-negra: