Oponentes em três finais de Copas do Mundo, Alemanha e Argentina possuem uma ampla rivalidade internacional. As equipes disputarão o 24° jogo de sua história nesta quarta-feira, dentro de uma série que inclui sete partidas em Mundiais. Se desta vez a Albiceleste poderá conhecer a Muralha Amarela no Signal Iduna Park, a Mannschaft também já teve a chance de atuar na Bombonera. O amistoso de 5 de junho de 1977, porém, não é tão honroso assim aos germânicos. O que poderia se marcar como uma passagem de bastão entre campeões do mundo, no fim, também faz parte do contexto tenebroso da Ditadura Militar na Argentina.

Às vésperas da Copa de 1978, a Argentina disputou uma série de partidas na Bombonera – algo raro, considerando que a seleção realizou somente mais cinco aparições no estádio desde então. Foram 12 amistosos no local entre 1977 e 1978, servindo de preparação ao time de César Luis Menotti. A Albiceleste encarou adversários de peso, incluindo Uruguai, Inglaterra, Escócia, França e Polônia. A Alemanha Ocidental foi a única a derrotar a Albiceleste, naquela que se tornou a segunda (e última) derrota dos argentinos em La Boca. Os visitantes venceram o duelo por 3 a 1, sob apito de Arnaldo Cézar Coelho.

A Argentina contou com boa parte da equipe que conquistaria a Copa do Mundo. Nomes como Daniel Passarella, Osvaldo Ardiles, Ricardo Villa, Leopoldo Luque e Daniel Bertoni estiveram em campo. Já a Mannschaft de Helmut Schön não contou com craques importantes, como Karl-Heinz Rummenigge e Sepp Maier. Ainda assim, o time capitaneado por Berti Vogts assegurou a vitória diante de 60 mil presentes na Bombonera. Klaus Fischer balançou as redes duas vezes e Bernd Holzenbein ampliou a vantagem, enquanto Passarella descontou apenas no final.

O que deveria ser mais um amistoso, contudo, se insere no contexto político da ditadura militar e marca a negligência das autoridades alemãs (incluindo a própria federação de futebol) em relação à barbárie que ocorria no país sul-americano. Em março de 1977, a alemã Elisabeth Käsemann foi presa em Buenos Aires. Nascida em Gelsenkirchen e filha de um professor de teologia, a socióloga de 30 anos estudava economia e trabalhava como professora de idiomas na capital argentina. Além disso, também realizava ações sociais no país, mas foi listada como terrorista pelo regime. Acabou levada para uma detenção e foi torturada durante semanas. Em 24 de maio, Käsemann foi executada ao lado de outros 15 prisioneiros, com tiros pelas costas. A versão oficial das autoridades dizia que ela falecera em “confronto com militares”.

Nas semanas anteriores ao amistoso, já existia uma mobilização de grupos de direitos humanos e religiosos ao redor da prisão de Elisabeth Käsemann. A diplomacia alemã, todavia, ignorou um pedido de habeas corpus. Três dias antes da partida, a embaixada da Alemanha Ocidental em Buenos Aires e também o presidente da DFB (a federação alemã) receberam a confirmação da morte da socióloga. Ainda assim, as autoridades preferiram realizar o jogo e abafar o assassinato. Presidente da entidade esportiva, Hermann Neuberger já havia relativizado publicamente as acusações contra o regime argentino. Além disso, o dirigente se prontificou a evitar que os jogadores fossem informados sobre o caso.

Somente no dia seguinte ao jogo é que a informação sobre a morte de Elizabeth se tornou pública. Em 8 de junho, o corpo seria transportado à embaixada e depois levado à Alemanha Ocidental, onde aconteceram as cerimônias fúnebres. E não foi o ocorrido que mudaria o pensamento da federação. Ignorando mais uma vez os assassinatos e as demais atrocidades cometidas pela ditadura argentina, a Mannschaft disputaria a Copa do Mundo um ano depois, com novas declarações públicas passando pano à situação.

Investigações posteriores mostraram que não houve intervenção diplomática da Alemanha Ocidental em prol de Elisabeth Käsemann. Enquanto isso, não há qualquer evidência do envolvimento da socióloga com grupos terroristas, como alegou a ditadura na época. Ainda hoje, a DFB mantém sob sigilo os documentos sobre o episódio. Mais de quatro décadas depois, não houve uma retratação oficial da entidade à família de Käsemann.

Já em 2014, durante a gravação de um documentário do canal ARD sobre o caso, o presidente da federação cancelou sua entrevista. A produção contou com depoimentos de jogadores que manifestaram sua lamentação e seu sentimento de culpa por não terem agido de outra maneira – incluindo Maier e Rummenigge, que disputaram a Copa. “A DFB nem sequer entendeu se havia a possibilidade de julgamento. Se você não deveria se sentir indignado, então quando? Seria um ato de grandeza dizer agora que falhamos como federação, que nos consideramos culpados pela omissão”, declarou Paul Breitner, que havia se aposentado da seleção por conflitos internos com dirigentes em 1976 e retornou ao time em 1981. O peso na consciência deveria permanecer.

Abaixo, os vídeos daquela partida e uma coleção de fotografias postadas pelo fotógrafo japonês Masahide Tomikoshi em suas redes sociais: