A verdadeira explosão do Tottenham já tinha acontecido. A ignição se deu cerca de dois minutos antes – quando Fernando Llorente ajeitou o lançamento com o joelho, Dele Alli enfiou a bola por entre os zagueiros e Lucas Moura, mesmo pressionado, chutou para transformar a história desta Liga dos Campeões. O gol que ressuscitou os Spurs na competição. O gol que permitiu, a milhões de torcedores, desatarem a angústia que amarrava a garganta em um sonoro grito de glória. O gol que será contado e recontado por décadas no norte de Londres, em Amsterdã ou em qualquer outro canto onde se pôde sentir a catarse pelo inimaginável.

Assim, o apito final na Johan Cruyff Arena, mais do que outro pico de êxtase, provocou o alívio. O Tottenham não precisava lutar mais. Não precisava se desesperar mais. Poderia se desprender daqueles 96 minutos angustiantes para, enfim, desfrutar da certeza que em nenhum outro instante teve: a classificação estava em suas mãos. A reação mais natural, além de comemorar, era desabar. E isso é o que tantos personagens centrais, capazes deste esforço descomunal, fizeram no gramado em Amsterdã.

Lucas se deitou. Estirou-se no gramado, mãos no rosto, para esconder as lágrimas impossíveis de controlar. Ele tinha o direito de se expressar como fosse, porque só o seu futebol foi capaz de romper o impossível na Johan Cruyff Arena. Era abraçado pelos companheiros, que faziam questão de vibra-lo. De oferecer sensações físicas em meio à erupção que acontecia em sua mente. De provar que, sim, aquilo era mesmo real. E se, no cinema, o filme ‘A Origem’ poetiza com os pequenos objetos que ajudam a sair da imaginação para retornar à realidade, Lucas se agarrou ao símbolo da façanha: a bola, seu prêmio pelos três gols, a sua verdade absoluta.

Mauricio Pochettino, extremamente carnal, nem sabia o que fazer. Desvencilhou-se do abraço de Harry Kane, queria ficar sozinho, queria clarear a cabeça. E, depois do protocolar cumprimento ao treinador rival, só conseguiu limpar a mente também com lágrimas. Um choro intenso, que transfigurava o seu rosto e escancarava o orgulho por tudo aquilo que aconteceu. Pelo milagre que seus jogadores possibilitaram. Pela maneira como o Tottenham superou tantos percalços. E por sua força para domar o timão e conduzir a embarcação em meio às infindáveis tormentas.

O Ajax, por outro lado, dava face ao lado vencido. São garotos, em sua maioria. E são garotos que, pela falta de vivência, sentem ainda mais a dor pelo que aconteceu. Talvez aconteça novamente, talvez mudem esta história, talvez não tenham mais a oportunidade. Esta, de qualquer forma, era a chance dos Godenzonen. A chance que eles não souberam aproveitar e deixaram escapar pela última fresta. Terão que aprender da maneira mais dura.

E, ao fundo, o som que dava mais beleza àquelas cenas. A torcida na Johan Cruyff Arena reconhecia. Aplaudia os jogadores. Do Ajax, por sua campanha incrível. Do Tottenham, por serem adversários tão dignos. A decepção é incontornável neste momento. Mas a grandeza está em reconhecer o que é inerente ao futebol. Amsterdã viveu uma noite gigante, do que não se imagina, mas do que só o futebol pode proporcionar. É o futebol em seu mais puro estado.