O sábado já havia garantido um resultado histórico na Copa da França. O torneio nacional mais plural do mundo viu, pela primeira vez neste século, um time da sexta divisão eliminar um oponente da Ligue 1. O milagre foi alcançado pelo Viry-Châtillon, nanico da região de Paris. O clube, que nunca adotou o profissionalismo, caiu da quarta para a sexta divisão nesta temporada por conta de problemas administrativos. Ainda assim, em um estádio para 5,7 mil torcedores, os Canários eliminaram o Angers com a vitória por 1 a 0. O domingo, por sua vez, guardou outra epopeia. O Andrézieux está em condições ligeiramente melhores, na quarta divisão. Contudo, para sempre poderá se vangloriar do dia em que derrotou o poderoso Olympique de Marseille. Mesmo com vários astros do outro lado, a equipe de Rhône-Alpes bateu os marselheses por 2 a 0, em tarde inesquecível para a sua torcida.

Fundado em 1947, o Andrézieux está localizado na região de Saint-Étienne. O clube amador sempre militou nas divisões de acesso, perambulando sobretudo entre a sexta e a quinta divisão. A partir da última década é que começou a frequentar a quarta divisão, atualmente ocupando o nono lugar no campeonato – mais próximo do rebaixamento do que do acesso. E foi esta a “potência” que conseguiu eliminar o Olympique, dentro do Estádio Geoffroy Guichard, emprestado pelos vizinhos do Saint-Étienne.

 

Rudi García mandou a campo um time cheio de medalhões. Steve Mandanda, Luiz Gustavo, Florian Thauvin e Dimitri Payet eram as referências no 11 inicial. Ainda assim, o Andrézieux precisou de 16 minutos para abrir o placar – logo após Mandanda fazer milagre em belíssimo voleio dos oponentes. Após cobrança de escanteio, o goleiro marselhês saiu mal e Bryan-Clovis Ngwabije completou de cabeça para as redes. Já a pá de cal aconteceu aos 37 do segundo tempo, quando o desespero batia sobre o Olympique. Mandanda não afastou completamente o cruzamento e o chute desviado de Florian Milla entrou. Durante a comemoração, até o goleiro saiu correndo para abraçar os companheiros.

Não foi por falta de tentativas que o Olympique de Marseille sucumbiu. Os celestes finalizaram 28 vezes ao longo da partida, pecando pela falta de pontaria. Valère Germain, em especial, destoou pelas chances desperdiçadas. Em contrapartida, o esforço dos nanicos para segurar o placar também merece o reconhecimento. Muito bem armados na defesa, os anfitriões anularam Payet e Thauvin, sobretudo durante o primeiro tempo. A solidez e a eficiência pesou bem mais.

O resultado coloca ainda mais em xeque a permanência de Rudi García à frente do Olympique de Marseille. O clube não sofreu grandes mudanças em relação à temporada passada, mas caiu de rendimento vertiginosamente. Sem vencer há sete partidas, os celestes ocupam a sexta colocação na Ligue 1, além de terem sustentado uma das piores campanhas na fase de grupos da Liga Europa – com apenas um ponto conquistado. E o vexame ante o Andrézieux não é um caso isolado aos marselheses na Copa da França, sobretudo nesta década. Em 2012, o carrasco foi o Quevilly, da terceirona. Já em 2015, caíram ante o tradicional Grenoble, então na quarta após decretar falência.

Ao Andrézieux, a festa está apenas no começo. A população da cidadezinha de 10 mil habitantes realmente tomou parte do Estádio Geoffroy Guichard e recebeu o reforço de outros vizinhos para criar uma atmosfera pulsante nas arquibancadas. Agora, pode aguardar quem será o adversário nos 32-avos de final da Copa. A rodada deste final de semana anda pródiga em zebras, aliás. Além de Andrézieux e Viry-Châtillon, o L’Entente e o Lyon-Duchère, ambos da terceirona, despacharam adversários da elite – Montpellier e Nîmes, respectivamente. Já Monaco e Lyon conquistaram vitórias magras contra Canet Roussillon e Bourges Foot, concorrentes da quinta divisão. O charme na Copa da França está nas grandes histórias, como a vivida por Les Herbiers na temporada passada. Os novos contos de fadas começam a surgir.


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