Pela primeira vez desde 1977, um dérbi entre dois times de Berlim acontecerá na Bundesliga. E o clássico entre Hertha e Union deste sábado promete um capítulo histórico à competição, não apenas pelo raro embate que proporcionará. Se hoje os dois clubes berlinenses têm a chance de se enfrentar no mesmo campeonato, essa possibilidade foi apenas um sonho distante durante décadas. As duas agremiações, afinal, permaneceram separadas pela divisão da Alemanha. No entanto, ainda que um muro tenha cindido a capital ao longo 28 anos, as duas torcidas mantiveram seus laços além das barreiras. A ponto de, dois meses após a queda do Muro de Berlim, em janeiro de 1990, as equipes realizarem um amistoso para comemorar a reunificação.

A presença de poucos times de Berlim Ocidental na Bundesliga é explicada pela própria divisão da cidade. O isolamento em relação ao restante da Alemanha Ocidental prejudicava os clubes, com dificuldades logísticas e financeiras, bem como pouca atratividade para contratar os melhores jogadores. Não eram numerosos os atletas que aceitavam viver ilhados pelo muro, por mais que existisse certa liberdade de circulação do lado ocidental para o oriental. Assim, o Hertha foi a única equipe estável na capital durante a divisão – e com seus percalços, incluindo o pagamento ilegal de um “bônus-isolamento”, que acabou violando as regras do campeonato. Os alviazuis estiveram na elite em 16 das 28 edições da Bundesliga até a reunificação.

O Tennis Borussia Berlim, potência da cidade até a década de 1950, entrou em declínio justamente durante a criação da Bundesliga. Foi o único a coincidir na primeira divisão com o Hertha, disputando clássicos nas temporadas 1975/76 e 1976/77. Além disso, os outros dois representantes berlinenses na elite de 1963 a 1991 pintaram num momento em que o Hertha figurava nas divisões de acesso, o que impediu o dérbi. Tasmania 1900 e Blau-Weiss 90 tiveram efêmeras passagens pelo primeiro nível em 1965/66 e 1986/87, respectivamente.

Enquanto isso, o futebol na Berlim Oriental tinha maior representatividade. O Dynamo era a principal força da antiga Oberliga, mas sem atrair tantos simpatizantes, ao monopolizar os títulos graças ao apoio da Stasi – a polícia secreta alemã-oriental. Por sua vez, o Union tinha raízes populares, mas não era muito competitivo. Variava entre a primeira e a segunda divisão, limitado à conquista da Copa da Alemanha Oriental em 1968. Ainda assim, a equipe conseguia manter uma relação com o Hertha que superava o muro.

A construção do Muro de Berlim, em 1961, separou o Hertha de parte de sua torcida e até mesmo de alguns jogadores que moravam do lado oriental. Milhares torcedores alviazuis não podiam atravessar a fronteira para assistir aos jogos de sua equipe. No máximo, colavam a orelha no radinho para comemorar juntos os gols anotados do outro lado, com o antigo estádio próximo da muralha. Desta maneira, muitos seguidores orientais do Hertha passaram a adotar o Union como seu novo time. Além do mais, como o trânsito de dentro para fora do muro não tinha tantos empecilhos, torcedores ocidentais também iam apoiar os alvirrubros no Estádio An der Alten Försterei.

A torcida do Union conseguia retribuir o apoio durante os jogos do Hertha nas copas europeias. Moradores da Berlim Oriental não tinham problemas em visitar outros países da Cortina de Ferro. Eles chegaram a engrossar o setor visitante das arquibancadas quando os alviazuis enfrentaram outros times do bloco comunista nos torneios da Uefa. Foi assim em compromissos na Iugoslávia, na Tchecoslováquia e na Bulgária durante a década de 1970. Na Copa da Uefa de 1978/79, metade dos 30 mil espectadores em Praga contra o Dukla era composta por alemães – boa parcela destes, orientais.

A celebração entre as torcidas integraria os eventos posteriores à queda do Muro de Berlim. Em 11 de novembro de 1989, apenas dois dias após o início da derrubada da barreira, o Hertha Berlim recebeu o Wattenscheid pela segunda divisão do Campeonato Alemão. Mais de 44 mil torcedores foram Estádio Olímpico de Berlim, quando a média dos alviazuis não passava dos 10 mil. Entre os presentes, milhares de alemães-orientais, que compraram ingressos a preços promocionais. Enquanto muitos torcedores do Hertha tinham uma nova chance de ver seu time de coração após décadas de separação, gritos de “Eisern Berlim” (em referência ao Union) também foram entoados nas tribunas.

Já em 27 de janeiro de 1990, aconteceu o esperado encontro entre Hertha e Union dentro de campo. Os dois times organizaram um amistoso no Estádio Olímpico de Berlim. O duelo teve grande representatividade dentro da reunificação. Com entradas gratuitas, mais de 51 mil torcedores encheram as arquibancadas, sob o mote de “Hertha und Union, eine Nation” (Hertha e Union, uma nação). Emblematicamente, o primeiro gol da partida foi anotado pelo estreante Axel Kruse, atacante que tinha deixado o lado oriental para se tornar um dos heróis alviazuis. Ele seria fundamental ao acesso do Hertha à Bundesliga naquela temporada.

A vitória do Hertha por 2 a 1 foi o de menos no amistoso, diante da festa que ocorria ao redor. “Estávamos satisfeitos e muito felizes. Foi uma grande experiência, depois das turbulências nas semanas anteriores. Valeu a pena”, declarou Horst Wolter, técnico do Hertha naquele duelo, à Tagesspigel. Sua visão foi complementada por Karsten Heine, comandante do Union na época: “Nenhum torcedor se arrependeu de vir ao estádio. A derrota não me incomoda, pelo contrário: ela nos dá ímpeto por nossos objetivos”.

Os times foram massivamente aplaudidos ao apito final. A única faísca dentro do Estádio Olímpico aconteceu nos últimos minutos, quando cerca de 100 torcedores do Dynamo Berlim foram reconhecidos. Sob gritos de “fora Stasi”, eles acabaram escoltados pela polícia para fora do recinto. Segundo os boletins policiais, as ocorrências naquele dia se limitavam a “confrontos insignificantes nos arredores do estádio”. O clima fraternal imperou. Todavia, com o passar do tempo, as diferenças entre o lado ocidental e o lado oriental mostrariam como Hertha e Union não eram tão próximos assim. Apesar de outros amistosos, a ligação não perdurou tanto.

Desde o início da década, Hertha e Union se enfrentaram também em caráter oficial. E a atmosfera nos embates pela segunda divisão indicou não uma irmandade, mas uma luta pela hegemonia local, como se espera de um dérbi. Em 2010/11, prevaleceu o empate do lado oriental e a vitória dos alvirrubros em pleno Estádio Olímpico. Já em 2012/13, o Hertha buscou a vitória no An der Alten Försterei, enquanto os vizinhos empataram por 2 a 2 durante o outro encontro. As duas partidas no Estádio Olímpico tiveram casa cheia, com os fanáticos pelo Union também marcando presença entre os mais de 74 mil espectadores.

Apesar do período de dificuldades financeiras em sua reestruturação ao sistema capitalista, o Union se transformou no segundo clube da capital a atingir a Bundesliga desde a reunificação. Sua ascensão ao longo dos últimos anos é pautada principalmente no engajamento de sua torcida, culminando no inédito acesso durante a temporada passada. E o que os novatos na primeira divisão menos desejam é perder a chance de demonstrar sua força no An der Alten Försterei durante o clássico deste sábado. Independentemente do bonito passado em conjunto, Hertha e Union têm um novo capítulo da história para escrever. Simbolicamente, 30 anos depois da queda do Muro de Berlim.

A divisão das torcidas em Berlim (Fonte: Berliner Morgenpost)