De maior vencedor do Campeonato Colombiano, o América de Cali passou esta década condenado ao ostracismo. Os Diablos Rojos pagaram as consequências do apogeu desfrutado com o dinheiro do Cartel de Cali, quando chegaram a quatro finais da Libertadores entre 1985 e 1996. Em sua derrocada posterior, até viveram um inferno maior do que o projetado, amargando cinco anos consecutivos na segundona a partir de 2011. O retorno à elite aconteceu em 2017, mas ainda assim não era suficiente à grandeza dos alvirrubros. Já neste sábado, enfim, o desterro da torcida escarlate se encerrou. Dentro do Estádio Pascual Guerrero, o América derrotou o Junior de Barranquilla por 2 a 0 e reconquistou a taça. O Finalización 2019 enterra um jejum que já durava 11 anos, com o 14° título nacional.

O América é um dos maiores retratos das mudanças que o futebol colombiano atravessou. Os clubes eram bastante visados pelos narcotraficantes, vistos como um caminho fácil para a lavagem de dinheiro. Desde a década de 1980, os Diablos Rojos contaram com times fortíssimos fomentados pelo Cartel de Cali. Entretanto, a queda dos narcos a partir dos anos 1990 provocou problemas econômicos e os alvirrubros sofreram as consequências, mesmo distanciando-se dos chefões. Em 1999, o clube entrou para a lista negra da Casa Branca e viu suas finanças serem asfixiadas. Com dívidas gradativas e parcas possibilidades de negócios, a salvação só veio em 2010, quando o apoio da torcida e da prefeitura de Cali evitou a falência.

Se a bancarrota deixou de ser um risco, o América ainda lidava com os mais diferentes tipos de problemas institucionais. Em 2011, o inédito rebaixamento à segunda divisão se tornou inescapável. E conquistar o acesso não seria imediato, por diferentes motivos. O gargalo estreito da segundona era um empecilho. Os Diablos Rojos também não encontravam sua estabilidade, com constantes trocas na presidência. E mesmo após absolvição da Casa Branca em 2013, a reestruturação financeira foi gradual. Os escarlates passaram cinco anos em busca da promoção, até que ela viesse em 2016, com novos donos e um elenco tarimbado. No entanto, até pelo período longe da elite, não seria possível apressar os passos.

O América de Cali se transformou em um time de meio de tabela nas últimas edições do Campeonato Colombiano. Chegou duas vezes às semifinais em 2017, mas não avançou aos mata-matas em 2018. Por conta das oscilações, sofreu mais mudanças internas. Acionista majoritário desde o acesso, o dono de cadeia de supermercados Túlio Gómez deu um passo para trás ao abandonar a presidência, assumida pelo antigo ídolo Ricardo Pérez. Além disso, as trocas no comando técnico também foram constantes. Neste cenário, a nova aparição no quadrangular semifinal do Apertura 2019 já podia ser vista como um sinal positivo.

Um dos protagonistas na conquista foi contratado pelo América no meio deste ano: o técnico Alexandre Guimarães. Comandante da Costa Rica em duas Copas do Mundo, o brasileiro naturalizado costarriquenho chegou como uma aposta dos alvirrubros, após trabalhos em times da China e da Índia. Provou o seu valor. Já dentro de campo, o clube também trouxe os seus reforços, num elenco montado praticamente inteiro a partir de 2018. Entre os novatos está o goleiro brasileiro Neto Volpi, ex-Figueirense, que passou pelo América no ano anterior e defendeu Deportivo Pasto durante o último Apertura.

Na fase de classificação, o América de Cali já deixou uma boa impressão. Terminou com a segunda colocação geral, atrás do Atlético Nacional apenas pelo saldo de gols, em seu melhor desempenho desde o retorno à primeira divisão. Os alvirrubros cresceram na reta final e também dominaram seu grupo no quadrangular semifinal. Contra Deportivo Cali, Independiente Santa Fe e Alianza Petrolera, os Diablos Rojos fecharam a chave com quatro pontos de vantagem. Ganharam a vaga na decisão, na qual encarariam o Junior de Barranquilla, em busca do tri nacional.

Por ter a melhor campanha, o América de Cali tinha o direito de decidir no Pascual Guerrero. O empate por 0 a 0 em Barranquilla abriu o caminho. Já neste sábado, os Diablos Rojos confirmaram a taça. O estádio se preparou especialmente para a ocasião. Durante a entrada dos times, a torcida ofereceu um caloroso recebimento aos escarlates, com papel picado, trapos e muita fumaça colorida. E o time correspondeu, ao conquistar a vitória por 2 a 0.

O América abriu o placar logo aos 19 minutos. O artilheiro Michael Rangel acertou uma cabeçada potente no travessão, mas teve a sorte de ver a bola pegar nas costas do goleiro Sebastián Viera e entrar. Do outro lado, Neto Volpi realizou uma defesa espetacular num tiro à queima-roupa de Téo Gutiérrez. Já aos 34, Carlos Sierra completou o cruzamento rasteiro de Duván Vergara e confirmou o triunfo. As pretensões do Junior seriam limitadas por um tento anulado antes do intervalo, graças à intervenção do VAR, na estreia da tecnologia no futebol colombiano. Já durante o segundo tempo, a pressão dos Tiburones pouco adiantou e a expulsão de Marlon Piedrahita atrapalhou ainda mais. O troféu voltaria a Cali.

O apito final culminaria numa grande invasão de campo – um símbolo do desafogo pela espera que durou 11 anos. Os Diablos Rojos finalmente deixaram seu inferno particular. Ao se classificar à final, o América de Cali já tinha garantido sua volta à Libertadores pela primeira vez desde 2009. O título, por sua vez, representa sua tentativa de restabelecer a força histórica da agremiação. Quando caiu, o América tinha 13 títulos, igualado ao Millonarios como maior vencedor do país. Hoje o clube de Bogotá possui 15 taças, enquanto o Atlético Nacional saltou de 11 para 16, tomando a dianteira na lista histórica. O ressurgimento permite aos alvirrubros desejarem mais, embora a paciência que os acompanhou nos últimos anos seja necessária.