O ano de 2019 terminaria grandioso ao Flamengo, de um jeito ou de outro. A conquista agonizante da Libertadores, encerrando o jejum de 38 anos com todos os requintes épicos, e o indiscutível Brasileirão, empilhando recordes, garantiam este caráter memorável à temporada rubro-negra. Restava saber como seria o ponto final desta história. E, em seu 74° jogo em 2019, o Fla fecha este capítulo com orgulho. Não é o desfecho mais alegre, longe disso, assim como esteve distante da goleada que alguns poderiam temer. Apesar da derrota e da frustração incontornável por aquilo que se almejou, a honra de vestir a camisa rubro-negra permanece a qualquer flamenguista, que se enche de brio pelo espírito do time em Doha. Perdeu sem deixar de ser Flamengo.

De um ano no qual a diretoria precisou dar carteirada sobre a Flórida Cup, o Flamengo viveria uma das maiores reviravoltas do futebol brasileiro. Não que tenha surgido algum elemento mágico na Gávea, garantindo o imponderável. Apenas as peças do quebra-cabeças se encaixaram para formar a imagem plena de um esquadrão. O poderio financeiro pesou, a diretoria montou um elenco competitivo, jogadores passaram a atuar em nível altíssimo. E a contratação de Jorge Jesus, a peça final, permitiu a ascensão meteórica.

Ao longo do Brasileirão, o Flamengo não encontrou adversário capaz de acompanhar o seu ritmo. Na Libertadores, os rubro-negros alternaram imposições e reações incríveis, numa montanha-russa que acabou com todos os traumas. E a questão vai além dos títulos, além daquilo que a torcida pôde reviver, além dos números massivos. Havia um orgulho e uma alegria de ser rubro-negro, também pelo futebol que os flamenguistas apresentaram em campo. O Fla valorizou o trato com a bola e encheu os olhos como raríssimos clubes no Brasil fizeram neste século. O Fla resgatou um sentimento de futebol mágico que estava adormecido no peito da magnética, como se eternizou naquele dezembro de 1981.

A conquista da Libertadores e do Brasileirão tornavam o 2019 do Flamengo excepcional. O Mundial de Clubes seria um bônus a isso. Obviamente, qualquer torcedor rubro-negro em sã consciência desejava o título no Catar. Mas era preciso ter noção que mesmo um vexame no Mundial não diminuiria a grandeza construída nos meses anteriores, por mais que pudesse deixar um clima de fim de feira. A presença do Flamengo em Doha valia basicamente isso: a honra de terminar 2019 de cabeça erguida – e, quem sabe, uma façanha para cantarolar décadas depois.

A vitória sobre o Al-Hilal, aguerrida e aliviada como foi, afastava os maiores medos de uma queda precoce. Os sauditas sabidamente tinham um bom time, mas fizeram um primeiro tempo ainda acima das expectativas e exigiram bastante do Flamengo. O nervosismo da estreia passou na volta do intervalo e os rubro-negros cumpriram o que geralmente é visto como obrigação. A decisão representava um passo mais próximo do sonho absoluto. Não mais um peso.

A decisão contra o Liverpool, por fim, carregava todas as suas místicas. Jogar contra os ingleses colocados na roda, claramente, servia como uma motivação a mais. Entretanto, o Flamengo pôde fazer um jogo diferente do que se viu na maioria dos Mundiais durante as duas últimas décadas, quando o abismo financeiro entre Europa e América do Sul aumentou demais. Aí que se concentra a razão maior deste orgulho. Houve coragem, não um encolhimento.

Os rubro-negros não quiseram ser a “gata borralheira” em busca de seu conto de fadas. Jorge Jesus não armou o seu time para disputar uma guerra, entrincheirado na defesa para achar o seu tiro fatal. O Flamengo tinha armas suficientes para encarar o Liverpool e tentar jogar de igual, apesar da superioridade expressa do elenco vermelho. O Flamengo não se retraiu, e se saiu muito melhor do que tanta gente previa. De peito aberto, os brasileiros apresentaram um futebol como não se viu por muito tempo entre os sul-americanos do Mundial e teve a vitória a seu alcance. Mais efetivo e perigoso, porém, o Liverpool venceu na prorrogação. É do jogo.

Muitos preferiam que o Flamengo abrisse mão de seu estilo de jogo e se fechasse na defesa, como se esse fosse o único caminho para enfrentar o Liverpool. Os primeiros minutos da partida, aliás, deram essa impressão, diante das chances claras desperdiçadas pelos Reds. Os rubro-negros puderam resgatar o brio ao partirem para cima e atuarem com uma segurança notável. Uma segurança de si. Se perder por 1 a 0 rende a mesma medalha de prata, retrancado ou não, perder jogando de igual preserva o reconhecimento. E, nas desigualdades que existem no Mundial, isso precisa ser ressaltado.

O Flamengo de laterais expostas não foi problema em Doha, apesar das bolas nas costas da zaga. A defesa teve enorme solidez, aliás. O meio-campo jogou com um vigor na marcação inédito com Jorge Jesus, abdicando a pressão adiantada para bloquear os espaços na intermediária. E no manejo com a bola, os rubro-negros demonstraram o seu toque refinado e a verticalidade para atacar. Faltou ser mais perigoso ao gol de Alisson e aguentar um pouco mais de tempo, após 90 minutos grandiosos. Pesou o desgaste físico e também alterações que não surtiram efeito.

O Liverpool que se viu em Doha foi menos agressivo que o costume na Premier League ou na Champions League. Todavia, não dá para bradar um possível desdém dos Reds. E nem é isso que deve diminuir a atuação do Flamengo. Contra o melhor europeu do momento, os rubro-negros foram superiores em parte do tempo. Não é a primeira vez que o vencedor da Champions entra em rotação mais baixa, mas fazia tempo que o desafiante não o olhava nos olhos dos favoritos desta maneira. Fica a impressão de que os sul-americanos podem desejar um pouco mais, a despeito das distâncias significativas.

E, mesmo com a derrota, muitos jogadores do Flamengo saem maiores depois deste Mundial. Bruno Henrique impressiona (de novo) pela maneira como não sente o peso da camisa do adversário e cresce nos jogos grandes. Ao menos para este escriba, foi o principal nome rubro-negro em 2019, mesmo com a veia artilheira de Gabigol. Rodrigo Caio foi outro que jogou muita bola em Doha, ótimo sobretudo no primeiro tempo. Willian Arão, sempre sob desconfianças, pareceu se multiplicar na cabeça de área. Diego Alves foi o goleiro confiável que o Fla precisava. Assim como outros que não brilharam individualmente, mas se doaram um bocado para garantir o esforço deste sábado – menções especiais a Everton Ribeiro, Filipe Luís e Gerson.

O Flamengo terá o seu merecido descanso nas próximas semanas. Tem que descansar, depois de 74 partidas e dois títulos emblemáticos. Precisa lidar com as possíveis perdas, buscar os reforços pontuais e se planejar em busca de mais um ano vitorioso – além de, institucionalmente, ter o dever de resolver a situação das indenizações às vítimas do Ninho do Urubu. Dentro de campo, o objetivo dos campeões da Libertadores e do Brasileirão não deve ser o Mundial, e sim a conquista do bicampeonato da Libertadores e do Brasileirão. O duelo ao Liverpool mais serviu como um extra nesta caminhada, não uma razão.

O ponto não está em sobrevalorizar o que, de fato, foi uma derrota ao Flamengo. Mas é necessário reconhecer a mentalidade e o ímpeto dos rubro-negros. A perda do título continua sendo amarga. Mas não se viu apequenamento, longe disso. É esse o sentimento que fica. O time de Jorge Jesus respeitou a história do clube e a vontade de vencer da torcida. Vontade esta que fica para, quem sabe, os flamenguistas voltarem a desafiar os europeus em breve.