Trocar uma carreira promissora no futebol por seus ideais. A decisão difícil foi tomada por Burak Karan. O ex-jogador das seleções de base da Alemanha trocou a bola por armas, se juntando a exércitos rebeldes na Síria para lutar contra o regime de Bashar Al-Assad. E acabou pagando com a vida. Segundo o jornal Bild, Karan foi morto em um bombardeio a uma vila na fronteira com a Turquia.

Filho de imigrantes turcos, Burak Karan nasceu na cidade de Wuppertal. O início brilhante nos gramados levou o zagueiro a defender as seleções de base em sete oportunidades, entre as categorias sub-16 e sub-17. Jogadores que depois fariam sucesso como profissionais foram seus companheiros, como Sami Khedira, Kevin-Prince Boateng e Dennis Aogo. Karan não teve tanta sorte quanto os companheiros na hora de se tornar profissional, mas rodou pela base de clubes importantes, como Bayer Leverkusen, Hertha Berlin, Hamburgo e Hannover 96.

“Dinheiro e carreira não eram importantes para ele”, conta Mustafa Karan, irmão de Burak. Já Marcus Olm, seu ex-treinador no Hannover, ressaltou a religiosidade do alemão: “Não importa se estávamos treinando ou viajando, cinco vezes por dia ele se retirava para orar. Ele era um rapaz alegres, desses fáceis de você fazer rir”.

A decisão por encerrar a carreira aconteceu em 2008, aos 20 anos, quando militava na segunda equipe do Alemannia Aachen – Lewis Holtby era seu companheiro nesta época. Karan resolveu se agarrar ainda mais aos preceitos do islamismo. Mesma época em que conheceu Emrah Erdogan, radicalista islâmico também de Wuppertal, que neste ano foi preso por estar envolvido nos atentados a um shopping no Quênia.

Segundo o seu irmão, o ex-atleta tinha se mudado para a fronteira da Turquia com a Síria havia sete meses, junto com a mulher e os dois filhos, disposto a ajudar os refugiados de guerra. Mustafa ainda negou que Burak tenha lutado na Jihad. “Se ele se armou, era para proteger os transportes. Ele sempre me disse que não queria lutar”, declarou. Apesar disso, um vídeo postado no YouTube por um grupo extremista islâmico mostra o ex-zagueiro com um rifle nas mãos. E, em abril de 2010, Burak Karan já tentara ir ao Afeganistão para lutar no conflito local.

Independente das razões de Karan, o caso não possui um precedente tão notável no futebol. A história mais parecida aconteceu no futebol americano. Defensor do Arizona Cardinals, Pat Tillman optou por largar a carreira e o salário milionário da NFL para se alistar no exército americano apenas oito meses depois dos atentados de 11 de setembro. Em abril de 2004, foi morto no Afeganistão. Segundo a versão oficial do governo americano, por uma emboscada talibã. Na verdade, por fogo amigo, o que se provou meses depois.

Dificilmente Karan receberá o reconhecimento de Tillman. O americano ganhou uma estátua de bronze ao lado do estádio do Arizona Cardinals. Enquanto isso, o alemão dificilmente seria lembrado se não tivesse passado pelas seleções de base ou por clubes tão importantes. Deixa a história de alguém que ignorou os holofotes do futebol para seguir as ideias que tinha em mente, por mais controversas que fossem.