Fotos: Daniel Kfouri

Uma avó jamais abre mão da proximidade de seu neto. Ainda mais se ela ficou anos sem saber o destino dele, sem saber onde estava, o que fazia, nem se estava vivo. Por isso, quando Dona Cida viu Denis na televisão, imediatamente lhe ofereceu abrigo. O rapaz recusou, e a experiência não deixou Dona Cida titubear: “Deixa ele ir. Ele tem família lá, ajudam ele”. E Denis podia voltar a onde se sentia em casa, o lugar em que viveu anonimamente por “mais ou menos 15 anos”, o lugar em que estava até que uma reportagem revelasse como o aeroporto internacional de Guarulhos, um dos lugares mais impessoais possíveis, recebeu e deu carinho e compreensão ao adolescente assustado que fugia de casa. Um garoto que construiu sua vida em um mundo próprio, mas que sabe que, quando precisa de contato com o mundo real, sempre terá o Corinthians.

Essa jornada começou em algum momento perto do ano 2000. A data não é precisa, pois referências de tempo não são uma virtude das pessoas envolvidas nela. Mas foi naquele momento que Denis Luiz de Souza, 32 anos, desembarcou no saguão do aeroporto de Cumbica. Como sempre, todos estavam ali em direção a seus destinos ou chegando deles. Apressados, cansados e preocupados, buscavam na multidão apenas o abraço dos conhecidos ou as letras dos seus nomes em plaquinhas expostas pelos motoristas. Poucos pararam para notar que naquele ambiente onde o natural é o vai e vem, o transitório, o temporário, um rapaz discreto, sorridente e muito corintiano estava se instalando. E tem sido assim desde então. Denis desceu do ônibus e ficou. Tinha problemas com a madrasta, pelo que revelou a pessoas mais próximas. Era agredido? Forçado a trabalhar? Simplesmente não ia com a cara da nova esposa do seu pai? Não importa. Faz parte de uma vida que ele deixou para trás e sobre a qual não gosta muito de discutir.

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Optou pelo aeroporto porque era um local que conhecia e apreciava. Encontrou nele o mínimo que precisa para sobreviver. Um teto, um lugar para dormir, uma maneira de se alimentar e um trabalho. Ele ajuda os funcionários do aeroporto em tarefas do dia a dia, e ganha uns trocados como agradecimento. Dessa relação surgiram os amigos que ele escolheu para compor a sua família. Eles lavam sua roupa, levam comida e se preocupam com ele. Tem o Flávio e o Sandro na locadora de carros. A Sheila, a Claudinha e as outras meninas da loja da Vivo. A Dona Flor no Banco do Brasil. O Márcio do táxi. Os rapazes do Bradesco com quem comenta futebol. Com quem comenta a sua maior paixão: o Corinthians.

Denis não teve educação formal e responde muitas perguntas com uma única palavra ou várias sem uma ordem lógica que respeite a combinação sujeito e predicado. Estimulá-lo a falar mais não funciona muito bem. Ele concorda com afirmações específicas, mas passa a impressão de que não entendeu direito o que foi falado. A memória dele para detalhes sobre o seu passado não é dos melhores, nem sua capacidade de reconstruir os eventos e se expressar clara e eloquentemente. Mas, quando o assunto é Corinthians, tudo isso desaparece. Ele se empolga. Sua mente parece despertar.

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Consegue citar os principais jogadores do elenco: Renato Augusto, Elias, Jadson, Guerrero, Cássio e Danilo. Seu preferido era o atacante peruano, mas agora que ele foi para o Flamengo, passou a ser Jadson. “Guerrero sabe fazer gols”, opina. Danilo também é considerado artilheiro por ele, que lembra o tento que o canhoto marcou no jogo contra o São Paulo pelo Paulistão. “Estávamos invictos no Paulistão até chegar o mata-mata e aí ‘pffff’. Temos 27 paulistões. Se ganhássemos, teríamos 28”, calcula, corretamente. E quantos Brasileiros? “Vinte e um”, responde, incorretamente. Respeita Tite, mas a corneta não poupa ninguém. “Ele é muito bom, mas pisa muito na bola. Ele troca muito jogador bom por jogador ruim”, critica. “Mas deu muitos títulos para o Corinthians”.

Denis não tem acesso a programas esportivos pela televisão ou internet, mas guarda informações que muitos torcedores deixam escapar. Sabe, por exemplo, que Petros era jogador do Penapolense. Reproduz declarações que o ex-presidente e hoje superintendente de futebol Andrés Sánchez deu ao programa Bola da Vez da ESPN Brasil sobre Guerrero. Lista os jogadores que estão de saída, como o próprio peruano, Emerson e Gil (esse segue no elenco) e também avalia reforços. Gosta de Rildo e de Dentinho, “quase acertado”. Confia no colombiano Theo Gutiérrez, que “só vem depois da Libertadores e fez gol no Cruzeiro”.

Informa-se pelo Lance!, que afirma comprar todos os dias. “Era R$ 1,50, agora está R$ 2. Ficou mais caro”, reclama. Só tem um detalhe: ele não sabe ler. Está aprendendo e afirma estar cada vez mais hábil. Porém, ainda precisa da ajuda dos amigos para entender as notícias. Consegue diferenciar os números, por isso decora os placares. Assiste aos gols nos computadores da loja da Vivo. “Ele fica pedindo, mas às vezes não dá porque está lotado”, conta Sheila. “E ele fica no canto da porta, com aquele olhar de dó.” Na sua cabeça, só o Corinthians tem espaço privilegiado.

A obsessão de Denis pelo Corinthians não é aleatória. A medicina tem algumas hipóteses para a obsessão com o time de Tite. “Ele pode ter escolhido um objeto para ser o seu marcador”, explica o neurologista Paulo Henrique Bertolucci, médico do Centro Integrado de Atendimento Neurológico e professor de neurologia da Universidade Federal de São Paulo. “Em geral, temos mais de um objetivo na vida, mais de um farol. Ele pode ter escolhido esse pelas circunstâncias, por estar onde está. Ele pode ter um distúrbio psiquiátrico, e nesse distúrbio, pegou a única coisa que tinha garantido. Pode ser o que lhe sobrou em uma situação extrema. No filme ‘Náufrago’, o marco era o Wilson, a bola. O Corinthians é o Wilson dele.”

E Denis ama o Corinthians tanto quanto Tom Hanks amava sua bola de vôlei. Aprendeu a torcer pelo clube com a família, mas foi com os amigos que passou a frequentar os estádios, desde criança. Manteve esse hábito na vida adulta. Boa parte do parco dinheiro que consegue arrecadar fazendo seus bicos era investido em ingressos. Adorava ir ao estádio. Conta que esteve na goleada por 7 a 1 sobre o Santos em 2005 e na final da Libertadores contra o Boca Juniors. Comprou os ingressos no Parque São Jorge. Pagou R$ 50 pela final do torneio sul-americano com o dinheiro que juntou “durante um tempão” fazendo favores. Antes de vibrar com os gols de Emerson, estava confiante. “Depois do primeiro jogo, pensei: ‘só falta um jogo para o título, só mais um’”, conta. Sua dificuldade para reconstruir uma sequência cronológica desaparece quando narra como Romarinho entrou no final da partida em La Bombonera e empatou o jogo.

Na Arena Corinthians, assistiu às vitórias sobre Portuguesa (2 a 0) e Penapolense (5 a 3), todas neste ano. Ainda foi ao Morumbi ver seu time bater o São Paulo por 1 a 0 no Paulista. Também foi, ano passado, no primeiro dérbi do estádio novo do Corinthians. Gostaria de ter ido ao clássico contra o Palmeiras pelo Campeonato Brasileiro deste ano, mas não tem mais condição de bancar os bilhetes. É mais um entre os muitos corintianos que não podem mais ir aos jogos devido aos altos preços e pela impossibilidade de pagar o plano de sócio-torcedor para ter descontos. “Parei de ir, para mim não dá mais. Está muito caro.” Mesmo assim, prefere o Itaquerão ao Pacaembu.

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Resta acompanhar do aeroporto. Cumbica costumava ter mais televisões, e elas geralmente ficavam ligadas em canais esportivos, mas foram retiradas. Quando o jogo é transmitido, ele tenta assisti-los pelos poucos monitores que restaram em restaurantes, mas o comum é sintonizar o pequeno rádio de pilhas, com adesivos do Corinthians, que deixa com as suas roupas nos sacos de lixo guardados na loja da Vivo. A preferência é pela Rádio Globo, com os narradores Oscar Ulisses e Doni Vieira. Também gosta de ouvir música na Gazeta FM, mas não tem um estilo musical preferido. “Gosto de todas as músicas.”

O homem sem perspectivas ou um futuro definido tem, ao menos, um sonho. Segundo Sheila, adoraria conhecer o elenco do Corinthians. Um site chegou a convidá-lo para visitar o CT Joaquim Grava, a poucos quilômetros do aeroporto de Guarulhos. “Fiquei tão feliz quando soube”, afirma a vendedora. Mas a equipe não apareceu para levá-lo. Resta a Denis fazer o que pode para ter acesso aos seus ídolos. Mesmo com poucos pertences, cedeu um agasalho – valor da entrada – para acompanhar o treino aberto no Itaquerão antes do jogo de volta contra o Guaraní, do Paraguai. “Tinha 700 mil pessoas”, exagera, antes de lamentar a eliminação nas oitavas de final e estabelecer as obrigações do segundo semestre. “Agora tem que ganhar o Brasileirão e a Copa do Brasil para voltar à Libertadores.”

Uma alternativa para Denis são os embarques e desembarques. Ele lembra muito bem quando a torcida do Corinthians invadiu Guarulhos, em 2012, antes de o time viajar para o Japão. Disse que voltava da Armênia (estação de metrô em São Paulo onde também faz uns bicos) quando viu vários policiais em volta do aeroporto. Sabia que era por causa do Corinthians. “Não parava de chegar torcida”, relata. A polícia alertou que não poderiam fazer bagunça no saguão, “apenas lá fora”, e Denis se envolveu em uma confusão naquele dia, mas não quis entrar em detalhes. Em viagens mais tranquilas do time, ele tenta se aproximar dos jogadores, mas os seguranças não lhe dão muita liberdade. Mesmo assim, conseguiu um autógrafo do Elias.

Um dia estava uniformizado com uma das suas aproximadamente 30 camisas do Corinthians quando a torcida do Santos apareceu para se despedir do time que rumava ao Mundial de Clubes de 2011. “Eu falei: ‘Denis, sai correndo aqui’”, conta, aos risos, Márcio, que trabalha na companhia de táxi do aeroporto. Seria mais difícil correr se estivesse vestindo 22 camisas do clube do seu coração ao mesmo tempo, como fez uma vez. “(Fiz isso) porque gostei”, explica. Márcio é outro que ajuda Denis a se alimentar. “Às vezes, ele fala que está com fome e pede um sanduíche. Pergunto quanto é. ‘É R$ 6’. Dou R$ 10 para ele tomar um refrigerante também”, afirma. “Ele não pede dinheiro para ninguém, só para os amigos dele.” E amigos não faltam.

Difícil encontrar algum funcionário do aeroporto que não sorria quando cruza com Denis. Depois que virou celebridade, por causa de uma reportagem do El Pais que o colocou debaixo dos holofotes da imprensa brasileira, anda pelos corredores acompanhado dos repórteres e dos fotógrafos ouvindo piadas. “Como você está famoso, Denis” ou “Me dá um autógrafo”. A atenção da mídia também serviu para conhecer a sua família. Encontrou seus quatro irmãos, uma prima e visitou a avó em Campinas. Foi convidado parar morar com ela no interior de São Paulo, mas não quis. “Eu gosto dela, mas em Campinas não tem nada para eu fazer”, conta.

Não foi a primeira vez que ele rechaçou a possibilidade de deixar o aeroporto, mas a solução não é tão simples. Denis não tem educação formal, fala sempre em frases curtas e pouco articuladas e nunca aprendeu a fazer coisas simples, como cozinhar. Trocar um lugar onde se sente confortável pelo incerto exige uma confiança que precisa ser lentamente conquistada, e, nesse aspecto, sua família já lhe causou pequenas decepções. A prima Cléo prometeu levá-lo ao Poupatempo para tirar o seu documento de identidade, mas não apareceu. “Documento é bom. Se te param na rua, olham se você tem passagem. Documento é feliz”, resume. Combinou de ir com Sheila, da Vivo, o que corrobora as palavras da avó diante da insistência da família para que deixasse Guarulhos: “Deixa. Ele tem família lá, ajudam ele”.

A recusa também pode ter uma explicação científica. Obviamente, o diagnóstico seria muito mais preciso após uma consulta, mas o neurologista Paulo Henrique Bertolucci lembra a história de Diógenes, um filósofo grego que abandonou a vaidade da vida e passou a viver nu dentro de um barril em busca da verdade. “Esse comportamento ficou conhecido como Síndrome de Diógenes. Hoje é aplicado a pessoas que abandonam a família e, ainda que tenham um lugar para morar, querem ficar na rua, afastadas. Algumas dessas pessoas têm distúrbios psiquiátricos”, explica.

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O que Denis tem mesmo é dificuldade para distinguir um dia, uma semana ou um mês. A duração da sua estadia no aeroporto, de aproximadamente 15 anos, foi feita pelos funcionários que trabalham no local há muito tempo. Ele a adotou quando foi obrigado a responder a essa pergunta com frequência, a partir das inúmeras visitas de jornalistas interessados na sua história. Antes, falava apenas em “muito tempo”.

Questionado sobre a hora que vai dormir, responde “entre 1h e 5h”, um período bem grande de tempo. Mas como distinguiria? Não há referências temporais na sua vida, não trabalha das 9h às 18h, não tem horário para comer, dormir ou escovar os dentes. A diferença entre uma segunda-feira e um sábado é pequena, pois o aeroporto funciona normalmente todo dia. As estações do ano importam pouco para quem vive em um saguão climatizado. Todos os dias são praticamente iguais. “Quando você está de férias, lembra o dia do mês? Ninguém lembra. E lembrar o dia da semana requer um certo esforço. Ele não tem sequência, vive em férias”, afirma Bertolucci.

Denis não está exatamente de férias. Ele trabalha sempre que pode e do jeito que pode. Ganha marmitas e compra sanduíches com o dinheiro que recebe em troca de favores, como pagar contas e fazer jogos na lotérica. Sheila, uma das amigas mais próximas, chegou a colocar na sua mão uma parcela do seu apartamento junto com R$ 1,2 mil. “E ele pagou direitinho”, conta. No geral, Denis se vira. De madrugada, quando o volume de passageiros diminui, descansa a cabeça em uma pilha de roupas e deita em um espaço de três bancos no mezanino do Terminal 2. Dorme até umas 11h30. Alguns passos à frente, há um banheiro para lavar o rosto quando ele acorda. Banho mesmo, completo, com sabonete e xampu, depende da benevolência dos conhecidos e em média acontece uma vez por semana. Tão importante quanto comida, um teto e algo parecido com uma cama, tem carinho.

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Foi adotado pelos funcionários das lojas do aeroporto que simpatizaram com a sua situação. Todos confiam nele e o protegem. Descrevem-no como um homem de “bom coração e honesto”. O sorriso cativante ajuda, assim como a execução impecável das tarefas. Todo Natal, um comandante da TAM leva Denis para um dos hotéis da região e paga uma diária. Ele toma banho e se alimenta para um ano inteiro. “Quando eu estava lá, com tanta comida, pensei em vocês”, disse no começo do ano, segundo Sheila. Palavras simples, mas fortes o bastante para emocionar e compensar a ajuda que as funcionárias dessa loja da Vivo lhe dão.

Lar é onde está o coração, e o de Denis habita o Aeroporto de Guarulhos. Foi nele que encontrou carinho, algo parecido com uma rotina e um emprego. E enquanto respeitar regras básicas de convivência, não arrumar confusão ou mendigar, nada pode tirá-lo do aeroporto, a não ser a sua própria vontade, e por enquanto ele não pretende mudar de endereço.

A existência, agora um pouco menos invisível, entre passageiros e aviões, turistas e acompanhantes, motoristas e funcionários, não deve ser fácil. Quem o conhece há mais tempo identifica sinais físicos de esgotamento, causados por uma alimentação ruim e noites de sono erráticas. Ainda assim, ele sempre abre os olhos para abraçar um novo dia. Eles frequentemente parecem os mesmos, mas é só abrir as páginas do jornal para saber que o mundo está andando. Afinal, há novidades sobre o Corinthians, e ele precisa saber o que está acontecendo no seu time.