Se você observar a lista de franceses eleitos como “o jogador do ano” pela France Football, encontrará diversos nomes familiares. De Raymond Kopa a Antoine Griezmann, passando por Zinedine Zidane e Michel Platini, a quantidade de futebolistas históricos é imensa. Desde 1975, apenas dois vencedores não disputaram uma Copa do Mundo ou uma Eurocopa pelos Bleus. David Ginola é uma exceção por culpa das fatalidades, não pela falta de talento. Stéphane Paille, por sua vez, passa despercebido pela maioria. Ganhador da honraria em 1988, tinha 23 anos na época. Defendia o Sochaux, mas estourou mesmo no Campeonato Europeu Sub-21. Liderou a seleção ao título em um time cheio de promessas, no qual era a estrela ao lado de Éric Cantona, o parceiro com quem se entendia tão bem. Paille, todavia, nunca estourou como se esperava. Não conseguiu fazer história como o ex-companheiro. E, nesta semana, diante da notícia de sua morte aos 52 anos, prevalece a impressão sobre o craque que nunca foi.

O jovem talento começou sua carreira profissional no Sochaux e, por lá, viveu os seus melhores momentos. Alçado ao time principal quando tinha apenas 17 anos, não demorou a se firmar na equipe que fazia figuração no Campeonato Francês. Em 1986/87, acabou rebaixado. E justamente quando duvidava-se da progressão, o prodígio atingiu o seu ápice. Anotou 18 gols na segundona, liderando os Lionceaux ao acesso. Na caminhada durante a competição, chegaram a enfiar 7 a 1 sobre o Lyon, com grande atuação do jovem. Além disso, o time alcançou a final da Copa da França. Eliminou quatro adversários da elite, até cair na decisão contra o Metz, na disputa de pênaltis. O gol no tempo normal foi justamente de Paille, em lindo chute de primeira.

Enquanto voava pelo Sochaux, o jovem também causava impacto nas seleções de base. Já tinha sido conquistado o Campeonato Europeu Sub-18 em 1983, batendo a Tchecoslováquia de Tomas Skhuravy na final – além de deixar pelo caminho adversários como Paulo Futre, Giuseppe Giannini, Roberto Mancini e Denis Irwin. Logo passaria ao sub-21 e até ganharia a primeira chance na seleção principal em 1986, contra a Islândia, pelas eliminatórias da Euro 1988. Na mesma época, viveria sua maior glória pelos Bleus. No início da campanha do Europeu Sub-21 de 1987, a França superou União Soviética, Alemanha Oriental e Noruega. Nas quartas de final, com atuações mágicas de Paille, deixou pelo caminho a Itália de Paolo Maldini. Depois, atropelou também a Inglaterra de Paul Gascoigne. E a missão na final acabou sendo até fácil, superando a Grécia para erguer a taça. A consagração de um elenco que via o desabrochar de Laurent Blanc, Jocelyn Angloma, Alain Roche, Vincent Guerin e Franck Sauzee. Sobretudo, de Cantona e Paille, arrasadores no ataque.

Campeão europeu sub-21, vice da Copa da França e promovido à primeira divisão, Stéphane Paille complementou o ótimo ano estourando no primeiro turno do Campeonato Francês. Anotou 15 gols naquela temporada. E também virou nome frequente na seleção principal, dirigida por Michel Platini, disputando diversas partidas nas Eliminatórias da Copa de 1990. Assim, sua escolha como jogador francês do ano em 1988 é bastante compreensível. Infelizmente, este seria o começo do fim para o promissor atacante.

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Cortejado por diversos clubes, acertou sua transferência ao Montpellier. Por lá, reeditaria a dupla de ataque com Eric Cantona. Não durou mais do que quatro meses. Passaria ainda por Bordeaux e Porto, sem causar impacto. Faltava um pouco mais de empenho. Diziam que, com um pouco mais de vontade, poderia ser melhor que Jean-Pierre Papin, porque tinha mais talento que o craque francês do momento. Pesava, todavia, o gosto pelas noitadas. Antigos companheiros o relembram como uma pessoa sociável e bastante generosa – inclusive nos excessos.

A partir de 1991, Paille indicou uma recuperação durante sua passagem pelo Caen. Marcou muitos gols, se destacou na Copa da Uefa e até voltou a ser convocado à seleção francesa, para o segundo quadro. Teve uma nova chance no Bordeaux. Mas a montanha-russa guardava apenas uma descida vertiginosa para a sequência da carreira. Defenderia ainda Lyon, Mulhouse, Servette e Hearts. Pouco jogou, pego duas vezes no doping, flagrado por uso de maconha e anfetamina. Chegou mesmo a ser condenado por suas ligações com um traficante que lhe forneceu cocaína em sua casa em Mônaco.

Ao encerrar sua carreira em 1997, aos 32 anos, Stéphane Paille tentou recomeçar como treinador. Trabalhou nas categorias de base do seu Sochaux, antes de rumar a novas aventuras. Passou por diversas equipes da segunda e da terceira divisão, sem nunca emplacar. Atuou também no Real Madrid, como olheiro, a convite de Zinedine Zidane, seu antigo companheiro nos tempos de Bordeaux. Auxiliou os merengues por alguns anos no início desta década, até voltar ao banco de reservas para os últimos desafios como técnico. E, justamente em seu aniversário de 52 anos, veio a óbito nesta terça, em morte súbita de causa ainda não identificada. Deixou diversas lembranças, especialmente sobre expectativas que não se cumpriram.