Para exaltar os seus maiores ídolos, há alguns anos, o Estrela Vermelha criou um símbolo especial. São os chamados “Zvezdina Zvezda”, as “estrelas do Estrela”, que recontam a história de glórias dos alvirrubros. A geração campeã europeia em 1991 representa uma dessas estrelas. O cracaço Dragan Stojkovic, precursor daquele time, outra. O artilheiro Dragan Dzajic, vice da Euro 1968, também marca presença. Há ainda Rajko Mitic – que, de tão venerado, passou a batizar o Marakana – e Vladimir Petrovic, que encabeçava a forte equipe da virada dos anos 1970. E como se cada astro representasse uma era dos Crveni, Dragoslav Sekularac merecia sua exaltação. O meia habilidosíssimo marcou época, jogador do clube de 1955 a 1966. Seu talento rompeu fronteiras e os dribles fizeram sua fama como um artista da bola – o que, aliás, também não se conteve às quatro linhas. O “Rei do Drible” era uma espécie de celebridade, a ponto de protagonizar um filme em seu auge. Estrela que, desde o último sábado, passou a cintilar no céu. Aos 81 anos, o ídolo faleceu em Belgrado, mas deixando vivas as lembranças de tantos admiradores.

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Nascido em 1937, em uma cidade que hoje pertence à Macedônia, Sekularac representava o caldeirão cultural do então Reino da Iugoslávia. Seu pai, de etnia sérvia, saiu do norte de Montenegro e se casou com uma macedônia. E quando o menino tinha apenas seis meses, a família se mudou a Belgrado, por questões profissionais. Advogado e funcionário do Ministério da Agricultura, o pai queria que o rebento se dedicasse aos estudos. Não gostava de futebol e sequer entendia o esporte. Mas logo teve que ceder, a partir do momento em que o talento do garoto desabrochou. Era impossível conter o guri franzino e arisco com a bola nos pés.

Logo após a Segunda Guerra Mundial, Sekularac pôde admirar a excelente geração que despontava na Iugoslávia – liderada, entre outros, pelo próprio Rajko Mitic. O Estrela Vermelha foi o primeiro clube de sua carreira, mas por obra do acaso. Aos 13 anos, o prodígio até agradou em uma peneira, na qual acabou dispensado por ser muito baixinho. Sua sorte foi que, jogando nos arredores da escola, atraiu a atenção de um olheiro e ganhou nova chance com os Crveni. Seria então aceito pela potência nacional, time apadrinhado pelo Ministério do Interior. A estreia do meia aconteceu na temporada 1954/55. Logo virou uma referência na equipe que dominou o Campeonato Iugoslavo ao final da década de 1950. E o pai, já resignado, começou a acompanhar o filho nas arquibancadas do Marakana.

Sekularac ganhou moral em uma excursão pela América e já era titular quando o Estrela Vermelha ganhou o título iugoslavo em 1955/56. Anotou seis gols na campanha, em esquadrão que ainda contava com Rajko Mitic, Vladimir Beara, Branko Stankovic, Borak Kostic e Vladimir Durkovic – todos ídolos da seleção. A estreia na equipe nacional também não demorou a acontecer. Após defender a Iugoslávia na base, a primeira chance com o time principal se deu em setembro de 1956, em amistoso contra a Tchecoslováquia. O sucesso dos Crveni, além de ser impulsionado pelo jovem, também afirmava o seu talento. Até 1960, o clube conquistou mais três títulos em quatro edições do Campeonato Iugoslavo.

Obviamente, a força do Estrela Vermelha não se conteve às fronteiras nacionais. O time era costumeiro participante das competições continentais. Em 1958, os alvirrubros conquistaram a tradicional Copa Mitropa, em uma edição extraoficial chamada “Copa Danúbio”. Além disso, bateram cartão na recém-criada Copa dos Campeões. A equipe sustentou sua reputação contra os oponentes de outros países, mas não conseguiu chegar às finais, sem superar os embates de peso que precisou encarar.

Em 1956/57, o Estrela Vermelha sucumbiu nas semifinais para a Fiorentina de Julinho Botelho. Uma temporada depois, faria jogos eletrizantes contra o Manchester United. Sekularac deu trabalho em Old Trafford, durante a vitória dos Busby Babes por 2 a 1. Já no Marakana, bem que tentou comandar a reação dos anfitriões, mas perdeu um gol nos minutos finais e viu o empate por 3 a 3 classificar os Red Devils. O jovem fez amizade com os jogadores ingleses e, após o duelo, chegou a tomar drinques com Bobby Charlton e Duncan Edwards num hotel de Belgrado. Desta forma, sentiu ainda mais as notícias sobre o desastre aéreo de Munique, que vitimou parte do elenco mancuniano. O retorno dos Crveni à Champions aconteceu em 1959/60. Deram o azar de cruzar com o fortíssimo Wolverhampton, dominante no Campeonato Inglês, e foram eliminados logo na primeira fase. O meia, de qualquer maneira, deslumbrava muita gente. A ponto de Gianni Agnelli, presidente da Juventus, tentar levá-lo à Serie A. O Ministério do Interior, todavia, barrou o negócio. Segundo o ministro Aleksandar Rankovic, o craque era necessário no país para “entreter a classe trabalhadora”. Foi o que seguiu fazendo.

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A primeira competição internacional de Sekularac com a seleção iugoslava foi o torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de 1956. O adolescente era titular na equipe, derrotada na decisão pela União Soviética. Dois anos depois, ele teria a chance de disputar sua primeira Copa do Mundo. Alcançou as quartas de final, quando os iugoslavos foram eliminados pela Alemanha Ocidental. Já na Euro 1960, o craque foi eleito para a seleção do campeonato, estrelando seu país rumo à decisão. A Iugoslávia eliminou Bulgária, Portugal e França, antes de sofrer mais uma vez contra a URSS. Anos depois, o ídolo confessaria que aquela final seguia atormentando suas noites de sono. Apesar da superioridade ampla dos balcânicos, eles precisaram aceitar o revés diante da eficiência soviética. No auge de sua forma, o camisa 10 não pôde levantar a taça que consagraria seu nome.

Em 1962, ao menos, Sekularac teve mais uma Copa do Mundo para exibir seu talento. Viajou ao Chile com o fortíssimo time da Iugoslávia e repetiu a melhor campanha da história de sua seleção. O camisa 8 encantou torcedores e jornalistas com suas fintas de corpo, as mudanças de direção repentinas, o controle da bola. Mandava na faixa central, distribuindo passes de efeito e criando espaços. Aplicava canetas e chamava os joões para dançar. Permitiu que os balcânicos alcançassem as semifinais, formando um trio mágico ao lado de Drazen Jerkovic e Milan Galic. A equipe despachou Uruguai e Colômbia na fase de grupos, em chave que tinha outra vez a União Soviética. Nas quartas de final, a revanche diante da Alemanha Ocidental terminou em festa balcânica. O time só cairia ante a Tchecoslováquia, do lendário Josef Masopust, a um passo da decisão. Ainda assim, o meia voltou a ser apontado entre os melhores de sua posição no torneio.

Duas semanas depois da final da Copa do Mundo, Sekularac teria a sua chance de enfrentar os brasileiros. O Estrela Vermelha participou do Torneio de Paris, competição amistosa que também contou com a presença do Santos. Embora Pelé continuasse machucado, o Peixe entrou em campo com Gilmar, Mauro, Zito e Mengálvio, todos campeões do mundo com a Seleção. Pois o meia comandou a vitória por 1 a 0 dos iugoslavos e, na ausência do Rei, ganhou o apelido de “Pelé Branco” por sua malemolência. Reza a lenda que, certa feita, o próprio Pelé brincou com o adversário e perguntou se ele não nascera no Brasil, por sua facilidade para os dribles. Curiosamente, entre os iugoslavos, “O Artista” também chegou a ser chamado de “O Brasileiro”, fruto de sua habilidade impressionante.

Nem tudo eram flores a Sekularac, entretanto. Seu estilo de jogo também atraía críticos. Reclamavam da falta de objetividade do meia, que por vezes enfeitava demais as jogadas e era individualista. Assim, o momento do Estrela Vermelha na década de 1960 também não ajudou. O clube passou a ficar à sombra do rival Partizan Belgrado, hegemônico no Campeonato Iugoslavo, antes de chegar à final da Copa dos Campeões. Pior, o astro cairia em desgraça após uma atitude destemperada, agredindo o árbitro em um jogo da liga local. Pegou um gancho de 18 meses, que atravancou a sua carreira no Marakana.

O canto do cisne de Sekularac na Iugoslávia aconteceu em 1964, quando o Estrela Vermelha conquistou a dobradinha nacional, faturando a liga e a copa. Mas o ídolo ficaria apenas mais alguns meses no Marakana. Em 1966, apto para deixar a liga local, transferiu-se ao Karlsruher. Não impressionou tanto assim no Campeonato Alemão e rodou o mundo depois disso, atuando também nos Estados Unidos, na França e no Canadá. A passagem mais expressiva aconteceu na Colômbia. Campeão nacional com o Independiente Santa Fe em 1971, também defendeu Millonarios, América de Cali e Atlético Bucaramanga.

Sekularac pendurou as chuteiras em 1975, no Serbian White Eagles, clube da comunidade sérvia em Toronto. Virou treinador da equipe e, depois, teve ainda uma carreira razoável à beira do campo. O veterano chegou a dirigir a seleção da Guatemala nas Eliminatórias da Copa de 1986. Passou também por clubes como o América do México, o Al Nassr e o Daewoo Royals. A fama de seus tempos de jogador ajudava a abrir portas pelo planeta. E, como não poderia ser diferente, o velho ídolo voltaria ao Estrela Vermelha como técnico no final da década de 1980, às vésperas da histórica conquista europeia dos Crveni.

Em tempos bastante instáveis aos técnicos do clube, o ídolo treinou o time entre 1989 e 1990. Pôde passar seus conhecimentos à geração dourada, conquistando o Campeonato Iugoslavo e a Copa da Iugoslávia em 1989/90. Foi uma campanha soberana, que contou com o esplendor da linha de frente composta por Dragan Stojkovic, Darko Pancev, Robert Prosinecki e Dejan Savicevic. Contudo, a eliminação precoce na Copa da Uefa (que culminou em sua suspensão pela Uefa, após tentar agredir o árbitro outra vez) e uma excursão desastrosa pela China fizeram a lenda renunciar. Ljupko Petrovic chegou em sua sucessão e conduziu os Crveni ao topo da Champions. A contribuição da velha estrela, ainda assim, é inegável ao sucesso em Bari contra o Olympique de Marseille.

Sekularac encerrou a carreira como treinador no final da década de 1990, no Obilic, controverso clube que ascendeu de maneira obscura após a Guerra da Iugoslávia e tinha ligação com líderes paramilitares. Ainda teria uma rápida passagem pelo Serbian White Eagles em 2006, quando o clube canadense retomou as atividades após quase duas décadas licenciado. Todavia, mais importante ao veterano era sustentar sua imagem como ídolo do Estrela Vermelha, sendo frequentemente aplaudido no Marakana. Foram 119 gols em 375 partidas com a camisa alvirrubra. Além disso, conquistou seis títulos do Campeonato Iugoslavo, incluindo aí o de 1989/90. “Eu devo muito ao Estrela Vermelha. O clube influenciou minha personalidade. Por lá, aprendi como me portar”, diria o craque, ao refletir sobre a sua trajetória.

Nos últimos dias, porém, foi o próprio Estrela Vermelha que declarou sua dívida eterna com Sekularac, por tudo o que o meia ofereceu à agremiação. Diante do falecimento, a instituição realizou uma série de tributos à antiga estrela. Comoção ampla que, por conta da pausa de inverno no Campeonato Sérvio, ainda não repercutiu nas arquibancadas do Marakana. Mas, em breve, deverá motivar uma linda homenagem em vermelho e branco ao “Rei do Drible”. É o mínimo, a quem ajudou o clube a se tornar tão grande. A fazer história.