Não era beija-flor e nem helicóptero, mas até parecia pairar no ar. E, em uma bola que vinha desajeitada, surgiu a genialidade: uma chicotada no alto com o calcanhar, num rompante de pura criatividade. Classe, inteligência, técnica, faro de gol. Tudo isso reunido em um só lance. Se os gols de “escorpião” voltaram à moda, graças a Mkhitaryan e Giroud, Roberto Cabanãs foi capaz de assinar a pintura com tamanha originalidade ainda em 1983 – muito antes de Zico embasbacar a todos no Japão ou de Higuita eternizar sua loucura em Wembley. Um belo aperitivo do paraguaio, capaz de ser idolatrado em quatro países diferentes. Os gols acrobáticos eram marca registrada de um dos principais craques que pisaram nos gramados das Américas entre os anos 1970 e 1990, infelizmente menos reconhecido do que deveria. Faleceu com apenas 55 anos, na madrugada desta segunda-feira, vítima de um ataque cardíaco.

Roberto Cabañas surgiu muito cedo no futebol paraguaio. Ainda na adolescência, já encantava os torcedores do Cerro Porteño com seus gols e sua qualidade técnica. Para, aos 18 anos, mostrar que a história lhe reservava mesmo um grande espaço. O meia-atacante era reserva do time estrelado por Romerito, Gato Fernández e Carlos Kiese, mas logo fez parte da conquista da Copa América em 1979. Saiu do banco em um dos jogos da decisão contra o Chile, em campanha na qual a Albirroja já desbancara Brasil e Uruguai.

O garoto logo ganhou a adoração dos torcedores do Ciclón. E uma responsabilidade imensa, antes de completar 20 anos: foi levado por um dos melhores times do mundo, o New York Cosmos. Cabañas era uma aposta, mas logo se transformou em mais uma estrela no esquadrão montado nos Estados Unidos. Atuou ao lado de craques como Giorgio Chinaglia, Carlos Alberto Torres, Franz Beckenbauer, Johan Neeskens. Conquistou dois títulos da NASL. Empilhou gols, como o famoso escorpião, que lhe deu o prêmio de maior pintura da temporada de 1983, ano em que também foi eleito o melhor jogador da liga. Tornou-se uma lenda em Nova York, mesmo tão jovem.

Cabañas, no entanto, viveu os últimos dias de glória da NASL e do grande Cosmos. Não demorou para que deixasse os Estados Unidos, mantendo o seu auge em outra equipe histórica: o América de Cali, surfando no crescimento do futebol na Colômbia. Os Diablos formaram aquele que foi o seu time mais célebre, potência inegável do continente, cinco vezes campeão nacional. Cabañas era o craque de um elenco que também contava com Ricardo Gareca, Julio César Falcioni, Antony de Ávila, Willington Ortíz. Mas que acabou relegado ao quase nos livros da história do futebol.

Entre 1985 e 1987, por três vezes o América de Cali chegou à decisão da Copa Libertadores. Por três vezes terminou com o vice-campeonato. Perdeu para o surpreendente Argentinos Juniors em sua primeira final, antes de sucumbir ao timaço do River Plate na segunda. Já na terceira, em noites tão cardíacas quanto dolorosas diante do Peñarol, os colombianos caíram de joelhos pela terceira vez. Titular absoluto como meia armador, Cabañas marcou gols nos dois primeiros jogos, a vitória por 2 a 0 em Cali e a derrota por 2 a 1 em Montevidéu. Contudo, em tempos nos quais o placar agregado não servia de critério de desempate à Conmebol, os dois times foram forçados a um jogo extra no Estádio Nacional de Santiago. Expulso, o paraguaio viu dos vestiários Diego Aguirre anotar o gol decisivo, já aos 15 minutos do segundo tempo da prorrogação.

Aquele triênio, ao menos, não marcou a carreira brilhante de Cabañas apenas com tristezas internacionais. Em uma época na qual o Paraguai era mero figurante no cenário continental, o meia-atacante ajudou o seu país a voltar a uma Copa do Mundo depois de 28 anos. Nas Eliminatórias, inclusive, marcou gols fundamentais na duríssima repescagem. A Albirroja superou um mata-mata contra a Colômbia, antes de pegar o Chile também duas vezes para assegurar a vaga restante. E não fez uma honrosa campanha no México, avançando na fase de grupos e só caindo para a Inglaterra nas oitavas de final. Cabañas marcou os dois gols no empate por 2 a 2 com o ótimo time da Bélgica, que chegaria até as semifinais.

Incontestável nas Américas, Cabañas deixou o continente logo depois do tri-vice da Libertadores. Passou quatro temporadas na Europa, sem tanto impacto, sempre atuando na França. Primeiro vestiu a camisa do Brest, com o qual foi rebaixado logo na primeira temporada, mas conquistou o acesso na seguinte liderando a artilharia da Ligue 2. Depois, ainda defendeu o Lyon, ajudando os Gones a se classificarem à Copa da Uefa com a quinta colocação no Campeonato Francês 1990/91. De qualquer maneira, sua casa era mesmo o continente americano. Para o qual voltou em 1991, ao receber uma proposta irrecusável do Boca Juniors.

Na Bombonera, Cabañas viveu suas últimas glórias. O rodado meia-atacante de 30 anos vinha para liderar anos difíceis dos xeneizes. O clube não conquistava o Campeonato Argentino desde 1981, seu maior jejum na era profissional. E isso com lamentados vice-campeonatos recentes. O paraguaio até parecia seguir a sina, artilheiro do time, mas vice do Apertura de 1991 justamente atrás do River Plate. Mas sua volta por cima aconteceu meses depois, no Apertura de 1992. Sob a batuta de Cabañas e do ‘maestro’ Óscar Tabárez, o Boca voltou a se proclamar campeão nacional dando o troco justamente nos Millonarios, que acabaram na segunda colocação.

O River Plate, aliás, ajudou a impulsionar a idolatria de Cabañas em La Boca. E não apenas por causa dos gols ou das grandes atuações do craque. Também pela maneira como adorava provocar os eternos rivais. O paraguaio deu um pouco mais de cor ao Superclássico nos anos em que viveu em Buenos Aires. “Contra o River, você tem que saber jogar com tudo. Eu, por exemplo, dizia aos meus companheiros antes de sair ao campo para que estivessem tranquilos, que me passassem a bola e eu faria os rivais entrarem no meu jogo. Então, provocava e os deixava nervosos. E os resultados, evidentemente, foram bons. Comigo, ganhamos oito ou nove partidas seguidas”, dizia.

Cabañas saiu do Boca Juniors em 1994. Defendeu ainda Barcelona de Guayaquil, Libertad, Independiente Medellín e Real Cartagena, mas sem o mesmo brilho. E, ao pendurar as chuteiras, ainda trabalhou como treinador e comentarista. Sua história, de qualquer maneira, já estava eternizada em seus tempos como jogador. A personalidade servia para colocar em evidência o talento do craque, que combinava a qualidade técnica de um grande meia com a fome insaciável de gols de um legítimo atacante – e, por isso mesmo, atuou nas duas posições ao longo da carreira. Não à toa, foi campeão na maioria dos times pelos quais passou. E deixando lembranças repletas de vida aos seus torcedores.