Ter habilidade pode significar muito no futebol. Mas, por si, não é garantia de sucesso. Da mesma forma como não é o único caminho para quem deseja marcar seu nome na história do esporte. A equação de uma grande carreira pode reunir outras virtudes. Trabalho, comprometimento, esforço. Ou mesmo outros tipos de qualidade técnica que não se limitem a fazer firulas com a bola. Tantas quanto posicionamento impecável, tempo de bola, frieza, precisão nas finalizações, presença de área. Trunfos que fizeram de Miroslav Klose um centroavante memorável. Especialmente, pelo poder de decisão que apresentava nos momentos decisivos, sem ser propriamente um craque ou empilhar gols a cada aparição. Assim, tornou-se o maior artilheiro das Copas do Mundo. Assim, tornou-se um dos jogadores mais emblemáticos da vitoriosa seleção alemã. Gigante, que anuncia oficialmente sua aposentadoria aos 38 anos, para contribuir ao Nationalelf como auxiliar técnico.

VEJA TAMBÉM: Klose chegou a 300 gols, uma marca que ressalta como ele se agigantou na seleção

Dizer que Klose não tinha sua dose de habilidade, aliás, é um erro. Quando queria, o camisa 11 sabia aplicar os seus dribles. Mas eles não eram tão primordiais assim no repertório de um centroavante extremamente objetivo e letal. O alemão precisava de poucos toques na bola para fazer o seu serviço. Um ou dois já eram suficientes para colocar a bola nas redes, mesmo que fosse fazendo o pivô aos companheiros. O porte físico ajudava, embora Klose estivesse distante de ser um verdadeiro ‘Panzer’, o tanque de guerra eternizado na seleção alemã por Uwe Seeler e Gerd Müller. O artilheiro mais parecia uma evolução do Panzer. Tinha, sim, altura e amplitude para dominar o espaço dentro da área. Mas também combinava a mobilidade de quem trabalhava muito para os companheiros e, em seu auge físico, buscava o jogo. Apesar de sua excelência na arte de balançar as redes, o veterano representava mais.

Maior artilheiro das Copas, Klose passa a taça para os filhos (AP Photo/Natacha Pisarenko)

Klose parecia nascido para o esporte. O garoto polonês vivia em uma casa de atletas. Seu pai, Josef, atuou por clubes locais e também no futebol francês. Já sua mãe foi goleira da seleção polonesa de handebol. Quando ambos encerraram a carreira, mudaram-se para a Alemanha, onde tinham laços étnicos. E por lá o menino de oito anos começou a desenvolver sua aptidão ao futebol. Talento e também capacidade física de quem, anos depois, celebrizaria suas comemorações dando saltos mortais.

VEJA TAMBÉM: O trio que simboliza uma geração que merecia demais a Copa

Formado no pequeno Blaubach-Diedelkopf, Klose começou a sua carreira profissional pelo Homburg. No entanto, sua primeira grande fase veio com a camisa do Kaiserslautern. Pelos Diabos Vermelhos, tornou-se um dos centroavantes mais efetivos da Bundesliga. A ponto de se destacar na tabela de artilheiros em 2001/02, época na qual já despontava na seleção alemã. O jogador de 22 anos chegou a ser sondado para defender a Polônia, mas reiterou o seu desejo de vestir a camisa do Nationalelf. Em março de 2001, ganhou a primeira oportunidade, em um jogo pelas Eliminatórias contra a Albânia. E logo anotou o gol que garantiu a vitória por 2 a 1.

A carreira de Klose por seus clubes foi de altos e baixos. A ascensão com o Kaiserslautern o levou ao Werder Bremen, onde viveu seus melhores momentos na Alemanha. Conquistou uma Copa da Alemanha pelos alviverdes e chegou a ser artilheiro da Bundesliga com média de quase um tento por jogo. Após o Mundial de 2006, desembarcou no Bayern de Munique. No entanto, apesar das taças levantadas, o centroavante atravessou apenas duas temporadas razoáveis em quatro anos na Allianz Arena. Nunca se firmou como protagonista ou como o artilheiro imprescindível do Nationalelf. Até passar seus últimos dias de glória na Lazio. Ídolo genuíno, anotou 64 gols pelos biancocelesti. Viveu cinco anos de adoração, com direito à conquista da Copa da Itália sobre a Roma em 2012/13.

Fato é que Klose não registrou por nenhum clube a quantidade ou a média de gols que conseguiu com a camisa da seleção alemã. Se o centroavante se transformou em lenda, é justamente por tudo aquilo que fez com o Nationalelf, especialmente na Copa do Mundo. Em 2002, se apresentou ao planeta como o jovem oportunista que ajudou uma equipe limitada a alcançar a final. Deu um passo além em 2006, como máquina de gols do time que encantou, mas parou diante da Itália nas semifinais. A Bola de Ouro pela artilharia serviu de consolação. Manteve-se imprescindível em 2010, destroçando principalmente a Argentina nas quartas de final, mas de novo morreu na praia. Faltava um título que ratificasse a sua importância. E ele veio no Brasil, em 2014, após superar Gerd Müller como maior artilheiro da seleção alemã durante a preparação ao torneio.

Claramente, Klose não desfrutava de sua melhor forma física em seu quarto Mundial. Aos 36 anos, porém, sabia ser útil à seleção de diferentes maneiras. Seu primeiro gol foi o mais emblemático possível: após sair do banco, precisou de apenas dois minutos em campo para buscar o empate por 2 a 2 no difícil duelo contra Gana. O gol que, por tabela, também valeu a artilharia histórica das Copas, naquele momento empatado com Ronaldo. O veterano se permitiu extravasar com o velho mortal, gravando sua marca num tento que se tornaria eterno. Na sequência do torneio, permaneceu como reserva. Mas recuperou seu lugar entre os titulares na reta decisiva, a partir das quartas de final, contra a França.

Miroslav Klose: o maior artilheiro da história das Copas (Foto: AP)

Desde então, Klose marcou somente mais um gol no Mundial. Justamente o segundo na semifinal contra o Brasil, o que o fez superar Ronaldo e iniciou o apagão do time de Felipão. Porém, limitar ao tento sua importância naquele momento é pouco. O camisa 11 se fez vital, para abrir espaços nas defesas e fazer o ataque alemão funcionar. Mesmo em tarde apagada na decisão, contra a Argentina, não deixou de lutar por um instante sequer. Ao final, seu suor se transformou em lágrimas, em emocionados abraços com os companheiros de tantos anos. A frustração das três Copas anteriores, enfim, culminava na glória em pleno Maracanã.

VEJA TAMBÉM: Todos os detalhes do recorde de Klose, maior artilheiro das Copas

Após a taça que tanto faltava para abrilhantar a sua carreira, Klose viveu mais duas temporadas na Lazio. Em 2014/15, ajudou o time a se classificar à Champions. Nos últimos meses, porém, os problemas físicos pesaram e pouco conseguiu fazer pelos biancocelesti. Era hora de se despedir. Ainda houve expectativa se a carreira do artilheiro continuaria em outro lugar, com outra camisa. Muito se especulou sobre o seu retorno ao Kaiserslautern, na segunda divisão alemã. Nada concreto. Por fim, a aposentadoria se confirma nesta terça.

Sem dúvidas, Klose terá muitas experiências a transmitir como auxiliar de Joachim Löw. Poucos conhecem tão bem o ambiente da seleção alemã ou o atalho rumo ao gol. Poucos sabem o caminho para triunfar como ele, o homem que mais conquistou vitórias em Copas do Mundo. Poucos podem possuir uma influência tão grande sobre o grupo de jovens, muitos seus ex-companheiros, que encabeçam a renovação do Nationalelf. Do lado de fora, o eterno camisa 11 também será um grande acréscimo dentro deste processo.

Klose, em si, pode não ter sido um jogador lendário. Mas nenhum outro encarnou como ele uma das maiores lendas da seleção alemã: a do artilheiro que se transforma em monstro nas Copas do Mundo. O camisa 11 soube potencializar suas capacidades a partir de grandes times da Alemanha, assumindo a missão de comandar o ataque sem sentir o peso da responsabilidade. Não é pouco. Fez isso com muito empenho, eficiência e sua dose particular de talento. Assim, tornou não só o Nationalelf maior, como também se tornou um gigante. Matador que, agora, se restringe às memórias.