O Grêmio é um clube acostumado a venerar os seus grandes goleiros. O mais lendário deles, afinal, segue reverenciado no próprio hino tricolor. “Lara, o goleiro imortal”, conforme versado por Lupicínio Rodrigues, inaugurou uma tradição muito bem honrada nas principais conquistas do time. Leão, Mazarópi e Danrlei formam uma santíssima trindade nos troféus que romperam fronteiras aos gremistas nas décadas de 1980 e 1990. A tarde mais épica da história, a Batalha dos Aflitos, teve quem como protagonista? Claro, um arqueiro. E em meio a esta mitologia, Marcelo Grohe fez por merecer o seu lugar. A dedicação inigualável já valeria a adoração dos torcedores. Mas o garoto que comeu grama desde a base e esperou quase duas décadas até sua consagração definitiva, enfim, se eternizou na Libertadores 2017. O craque dos milagres, o homem que fez o impossível para levar o Grêmio de volta ao topo das Américas. Que poderia, em certos aspectos, chegar ao trono deste panteão de goleiros. Mas que, num rompante, anuncia o seu adeus. A transferência de “Milagrohe” deixa a torcida gremista órfã de um ídolo.

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Grohe, afinal, encarna o gremismo por si. O garoto nascido em Campo Bom chegou às categorias de base em 2000, aos 13 anos. Vivia junto com o clube uma época de sonho, após tudo o que os tricolores conquistaram nas duas décadas anteriores. E até veria o título da Copa do Brasil em 2001, antes de iniciar a travessia do deserto gremista. “Com o Grêmio, onde o Grêmio estiver” desceu à Série B, quando ganhava suas primeiras chances como profissional. Do lado de fora, veria o inimaginável se concretizar nos Aflitos. E ajudaria a reconstrução naqueles anos, como mais um operário. Uma promessa que trabalhava e trabalhava, mas nunca via a sua hora chegar. Não recebia um voto de confiança, em tempos nos quais a paixão dos torcedores era maltratada pela seca de títulos.

Grohe viu muitos goleiros passarem pela meta do Grêmio. O próprio Galatto não foi além daquele heroísmo momentâneo. Saja não emplacou, mesmo vice-campeão da Libertadores. Victor chegou e tomou a posição, acumulando defesaças, embora a santificação só tenha acontecido após sua mudança a Minas Gerais. E quando o garoto da base, nem tão garoto assim, ganhou sua sequência como titular a partir de 2012, não tinha o renome que a diretoria esperava. Assim, meses depois, Dida desembarcou aos 40 anos para viver alguns lampejos em Porto Alegre. A história, de qualquer forma, parecia reservada ao rapaz persistente de Campo Bom. Àquele que, a partir de 2014, finalmente se tornaria o dono da posição.

A perseverança parece mesmo um traço atrelado à personalidade de Marcelo Grohe – sereno em suas palavras, abnegado, resiliente. Porém, esta postura se transforma sob as traves. Surge um goleiro explosivo e sempre atento. O camisa 1 que, mesmo depois de tanto tempo, pouco a pouco caiu nas graças dos gremistas. Seria assim no Brasileirão de 2014, quando ganhou a Bola de Prata, melhor de sua posição no torneio. Quando, em uma cabeçada de Fred, tornou irrefutável pela primeira vez o apelido de Milagrohe. O voo cego tinha como único destino a bola, distante, e mesmo assim repelida por sua luva, num movimento inacreditável. Acumulando centenas de minutos invictos na meta tricolor, na mesma época também recebeu suas primeiras convocações à Seleção.

O Brasileiro de 2015 sublinhou a grande fase de Marcelo Grohe. Pelo segundo ano consecutivo, ele conquistou a Bola de Prata. De qualquer forma, aguardava-se o fim do jejum. O título coletivo que botasse o goleiraço numa prateleira superior. O que finalmente aconteceu na Copa do Brasil de 2016, com novas façanhas do milagreiro. Seria suficiente para encher a boca e chamar aquele prata da casa de ídolo? Talvez. Mas não suficiente à grande história que o camisa 1 merecia eternizar no Grêmio. Dezessete anos depois de sua chegada, haveria de surgir algo maior. O momento que representaria a grandeza daquilo que construiu, do Olímpico à Arena.

A Libertadores é a campanha definitiva do Grêmio no Século XXI. O título que reiterou a identidade tricolor, que escancarou orgulhos, que sacramentou ídolos. Pois Grohe estava lá, com suas luvas, para permitir que todos os anseios se consumassem. A Libertadores não foi incorruptível ao goleiro. Ele também cometeu erros que preocuparam. Mas a lista de grandes defesas seria maior. Sobretudo, por aquele instante surreal que tomou Guayaquil, durante a semifinal contra o Barcelona. Ariel estava a centímetros do gol, conectado com aquele universo à sua frente, livre como um garoto que admira o céu aberto de uma noite estrelada. Nada parecia capaz de romper aquela visão. Nada imaginado, até que Milagrohe apresentasse o desconhecido naquele salto monumental.

Instintivamente, Grohe voou. Agiu não só com sua racionalidade, mas com seus sentimentos. Com o gremismo que carregou por tantos anos preso no âmago, determinado que nunca fizessem mal ao tricolor. Foi quando essa ligação se sublimou. Movimento de sorte? Fruto dos treinamentos exaustivos que se repetiram tantas vezes desde 2000? Prova do talento de quem nasceu para ser goleiro? Não importa. No momento em que Grohe se atirou no vazio, na verdade se lançava para a história, agarrando-se na certeza do que era capaz de fazer. Pulava rumo ao Olimpo gremista. A defesa se consumou e não há torcedor que não a tenha gravada na retina.

Logo após o lance, Grohe sentiu as dores de quem foi além de suas próprias possibilidades. Já os tricolores, mesmo que incrédulos, tinham o sinal irrefutável de que algo especial aconteceria. E os três jogos restantes da Libertadores, os dois últimos contra o Lanús, providenciaram a confirmação de que o infinito se reservava o goleiro. Na Argentina, voou novamente, agora para pegar uma cobrança de falta venenosa de Maxi Velázquez. Para levantar o troféu de campeão da América, tesouro inquestionável de sua idolatria. A partir de então, o que o goleiro fizesse, seria acréscimo à sua lenda em preto, branco e azul.

Grohe viveria outros grandes momentos. Até oscilou algumas vezes em 2018, mas muito mais numerosas seriam suas defesaças. Seguia como o grande consenso dos tricolores, aquele que não trocariam por nada. E que rendeu mais uma conquista continental, em fevereiro, pegando o pênalti que garantiu a Recopa contra o Independiente. Aos 31 anos, a impressão era de que o arqueiro seguiria para sempre em Porto Alegre. Mesmo sendo excelente em sua posição, não teria tanto mercado em grandes ligas europeias. Nada melhor, então, que ampliar seu currículo com mais taças no clube, quem sabe com o recorde de mais partidas. Era daqueles contos de fadas que só se encerrariam quando o corpo não mais permitisse. Homem fiel, raro, de uma só camisa. Até que tudo mudasse nesta quinta.

O Grêmio ainda não confirmou a notícia. E nem precisa. A informação circula em todos os portais, os companheiros e o próprio técnico já falam sobre o companheiro que se vai. A trajetória de Marcelo Grohe no Grêmio atingiu maioridade. Encerra-se ao menos momentaneamente, com a transferência do goleiro ao Al Ittihad, da Arábia Saudita. Segundo as palavras de Renato Portaluppi, o veterano preferiu aceitar a oferta, muito vantajosa financeiramente. Por sua idade, sabe que esta será uma rara oportunidade de conseguir um contrato suntuoso fora do país. Não é isso, todavia, que assegura a serenidade aos torcedores gremistas. Nas redes sociais do clube, todos reclamavam pela venda do herói. Ninguém compreende que, não mais que de repente, a história se interrompe. Pouco importa o dinheiro que o Grêmio ganhará. Importa menos ainda o dinheiro que sobrará para outras contratações, para outros jogadores. Vende-se as calças, mas não se perde um ídolo no auge da forma.

Nada impede que Marcelo Grohe volte dentro de alguns anos. Nada impede que Milagrohe amplie sua fascinação e seu número de conquistas. O ato de esperar, contudo, não se pede ao torcedor. Não se exige racionalidade. E a lamentação pelo buraco que fica dentro do peito é inescapável. O goleiro se aproximou do coração tricolor com o tempo, até se cravar com o brilho do maior dos troféus. Dói arrancar isso agora. A idolatria não se abala, claro. Mas o desespero dos gremistas é por aquilo palpável, reafirmado a cada jogo, que deixará de existir – sem saber como, nem quando, nem por que. Afinal, o grande mérito de Grohe nos últimos anos foi dar uma paradoxal certeza de que o impossível ocorreria sob aquelas traves. E ocorreu, inúmeras vezes. Ali estava mais um torcedor. Ali estava o maior dos gremistas. Desde 2000, aquele que viveu e foi o clube por 18 anos.