O filme repetido atormentava os torcedores alvinegros – e deliciava os rivais. As eliminações do Corinthians na Copa Libertadores não eram simples derrotas. Eram enormes tragédias, no sentido mais lúdico do termo. Os dramas sempre possuíam os seus vilões, com o emblema adversário no peito ou não. Tinham seu clímax em momentos de total descontrole, dentro de campo ou não. E sempre, sempre, reafirmavam a invariável sina dos corintianos na competição continental. Vencer a Libertadores não era apenas um sonho no Parque São Jorge: era um desejo de se libertar do pesadelo. E pedia mental forte, tarimba, um quê de malícia. Aquilo tudo que a torcida encontrou, além da enorme qualidade técnica, no rodado camisa 11. Emerson Sheik, aquele que, se não foi o melhor da competição, protagonizou a equipe de Tite nos momentos decisivos. Marcou gols e teve a frieza para incutir outro espírito no elenco, muito mais leve para chegar ao topo das Américas.

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A identificação de Emerson com o Corinthians é enorme. Será a fase mais marcante de uma carreira que, porém, não se limita à camisa alvinegra. O rapaz nascido em Nova Iguaçu também possui uma das trajetórias mais singulares do futebol brasileiro ao longo dos últimos anos. Afinal, o herói muitas vezes se mistura ao anti-herói. Humano, sobretudo, com seus erros e suas controvérsias bastante claras, que sabe encarar isso sem hipocrisia e também possui qualidades. Que rodou o mundo, antes mesmo de ser reconhecido no país onde nasceu. Mas com uma boleiragem que arrebentou defesas.

O salto principal da carreira de Sheik aconteceu no São Paulo. Quando tinha 18 anos, já não acreditava que iria vingar no futebol. Com a ajuda de sua mãe, um artifício mudou suas perspectivas: uma nova certidão de nascimento, que alterou seu nome e sua idade. Márcio Passos Albuquerque, nascido em 1978, transformou-se em Márcio Emerson Passos, de 1981. “Na verdade, a minha ida ao São Paulo já foi com o documento falsificado. Sabe, aquelas pessoas que aparecem na sua vida com intuito de ajudar? Mas que fique claro: nós sabíamos. Não estou dando uma de santo, não”, declarou o atacante, ao Esporte Espetacular, em 2013. Algo reiterado por sua mãe: “Ele chegou um dia com os olhos cheios de lágrima e disse que tinha perdido a oportunidade. Aí, eu fui e fiz a segunda certidão. Não me arrependo. Eu me arrependeria se tivesse deixado o meu filho na rua”.

Destaque nas categorias de base do São Paulo, Emerson logo chegaria às seleções menores. A diferença física em relação a jogadores três anos mais novos o ajudava, é claro. Mas o agora Emerson também apresentava qualidade técnica e um gosto especial pelos jogos grandes, o que realmente o diferenciava. A habilidade se mesclava com a indisciplina. E mesmo que ganhasse chances no time principal, por vezes escalado como lateral, o caso Sandro Hiroshi minou o espaço do prodígio no Morumbi. Desconfiavam que ele também havia adulterado documentos, o que os tricolores não tinham certeza, mas se comprovaria anos depois. Assim, o clube preferiu negociá-lo. Em tempos nos quais o dinheiro atraía jogadores brasileiros em todos os cantos do mundo, o Japão tornou-se destino.

Emerson foi um fenômeno na Ásia. Começou empilhando gols por Consadole Sapporo e Kawasaki Frontale, disputando a segundona da J-League. O verdadeiro salto aconteceu em 2002, quando assinou contrato com o Urawa Red Diamonds. Tornou-se um dos atacantes mais letais do país, sempre apontado à seleção do campeonato e também faturando a artilharia em 2004. Sucesso que repercutia além das fronteiras e atraiu interesses no Catar. O Al-Sadd fez uma proposta irrecusável ao atacante. Emerson viraria “Sheik” (apelido recebido, entretanto, apenas no Flamengo), com gols e prêmios – mas também novas polêmicas.

Em sua primeira passagem pelo Catar, em 2006, Márcio Passos Albuquerque foi desvendado. Em uma visita ao Brasil, o atacante foi detido pela polícia federal no Aeroporto Internacional Tom Jobim. Descobriram sua certidão de nascimento falsa. O jogador chegou a ser condenado a três anos e nove meses de prisão, embora a pena tenha sido convertida em multa e serviços comunitários. Naquele momento, a adulteração pouco representava ao seu sucesso. De tão bem no Al-Sadd, Sheik ganhou uma oportunidade no Rennes em 2007, mas não conseguiu se firmar em sua única passagem pelo futebol europeu. Voltou ao Catar e anotou mais gols, que o levaram à seleção catariana em 2008. Disputou três partidas, inclusive uma pelas Eliminatórias da Copa de 2010. Porém, as regras da Fifa o proibiam de mudar sua representação internacional, após já ter defendido o Brasil no sub-20 – e ainda em episódio que envolviam seus documentos adulterados. Assim, seria banido pela entidade.

A própria relação de Emerson no Catar se deterioraria, também. Entrou em litígio com o dono do clube e preferiu pagar a multa rescisória do próprio bolso. Conforme declarou à revista Placar, “investiu em si mesmo” US$5,8 milhões. Queria voltar ao Brasil. O Flamengo comprou a ideia. Aos 30 anos, enfim, ele teria sua grande chance no país. Declarando seu amor pelos rubro-negros, o atacante veio com fama internacional desconhecida por muitos torcedores, mas que logo começou a se justificar em campo. Sheik seria importante na conquista do Campeonato Carioca de 2009 e começou arrebentando no Brasileirão daquele ano. Que o time não viesse tão bem, dependeu dos sete gols anotados pelo veterano no início da campanha. Só que uma proposta do Al-Ain, dos Emirados Árabes, levou o medalhão de volta ao Oriente Médio. De longe, veria Adriano e Petkovic liderarem o time na conquista da Série A, encerrando o jejum de 17 anos na competição.

A terceira passagem pela Ásia duraria pouco e, em meados de 2010, Emerson já estava de volta ao Brasil. Sem se fazer de rogado, de volta ao Rio de Janeiro, mas vestindo as cores do Fluminense. Mais uma vez impulsionou o campeão nacional: arrebentou em meados do primeiro turno, com sete gols em oito partidas. Lesionou-se e retornou apenas na reta final da campanha, já suficiente para dar uma assistência contra o Palmeiras na penúltima rodada e anotar o gol do título no duelo final, ante o Guarani. Era outro fim de jejum, este de 26 anos nas Laranjeiras. Idolatria garantida, certo? Não quando o veterano resolveu cantar uma música dos rivais, às vésperas de um confronto importante pela Libertadores. A diretoria não quis nem saber e dispensou o artilheiro. Linhas tortas que o levaram ao Corinthians em 2011.

Sheik virou uma espécie de talismã no Brasileirão. Três edições desde seu retorno ao Brasil, três participações em equipes campeãs. Desta vez, pôde ser efetivo no Corinthians que ergueu a taça em 2011. Participando de 28 jogos, acumulou seis gols e cinco assistências, vital principalmente no último mês de disputa. Apenas um prenúncio do que viria na Libertadores de 2012, o torneio que realmente levou Emerson ao panteão de ídolos alvinegros. O atacante era decisivo desde a fase de grupos. Nada comparado ao que aconteceu na reta final. Foi ele, sobretudo, quem bateu no peito e chamou a responsabilidade para si nos últimos compromissos da caminhada corintiana.

O golaço contra o Santos, em si, poderia ser a memória viva a qualquer torcedor. A batida certeira, indefensável, que abriu o caminho à primeira vez do Corinthians na final continental. A expulsão na Vila Belmiro e ausência no jogo de volta contra o Peixe não comprometeram o time. Pelo contrário, Emerson voltou com mais gás ainda. Na Bombonera, Romarinho se tornou Romarinho depois de ser habilitado por um passe do camisa 11. Até que o Pacaembu assistisse à libertação corintiana, quando Sheik tratou de romper os grilhões. Jogou demais não apenas pelos dois gols, que definiram a vitória sobre o Boca Juniors. Jogou demais porque entrou na mente dos zagueiros rivais, com suas provocações e seu jeito atrevido. Entrou na mente dos alvinegros mais pessimistas dizendo que, sim, a América seria do clube. E não só ela. Também se sagrou campeão mundial no final de 2012.

Se Emerson tinha feitos suficientes para encerrar a carreira no Corinthians, a personalidade inquieta impediu que ele seguisse no clube por tanto tempo. Seu rendimento caiu e vieram novas controvérsias, incluindo os desdobramentos de um processo por contrabando de veículos e lavagem de dinheiro. No primeiro semestre de 2014, seguiu ao Botafogo. E os últimos anos da trajetória do atacante misturaram lampejos, gols e declarações  incisivas. Fez boas partidas no Botafogo, mas também peitou a CBF e a diretoria. Teve seu contrato rompido antes do fim, sem evitar o rebaixamento do clube. Em sua segunda passagem pelo Corinthians, participou da Libertadores e do início do Brasileirão, permanecendo por poucos meses, até retornar ao Flamengo, onde teve momentos de destaque na Série A de 2015. Em 2017, transferiu-se à Ponte Preta e novamente viveu de espasmos. Até que as portas do Parque São Jorge se abrissem mais uma vez, para o último ano de sua carreira.

Emerson pouco contribuiu em campo ao longo de 2018. Às vésperas de completar 40 anos, seguia no clube mais por sua história do que pelo que rendia esportivamente. Mas era uma liderança. Era um ídolo, na agremiação com a qual mais se identificou entre tantas andanças. No time onde, apesar de todos os pesares de sua carreira, conseguiu fazer algo para ser lembrado para sempre. A Libertadores de 2012 é uma marca em seu peito. Uma tatuagem na memória de qualquer corintiano. Seus entraves particulares não se esvaem, sua postura ácida não agrada a todos, as oscilações no final da carreira foram claras. Mas, genial e genioso, Sheik também ofereceu um sabor diferente ao futebol brasileiro nesta década. E sua habilidade falou por si em tantos jogos decisivos.

O adeus veio nesta sexta-feira, na Arena Corinthians cheia, como um ídolo merece. Ao todo, 32 mil pessoas estiveram presentes, após 44 mil ingressos serem trocados por alimentos não perecíveis. Em amistoso que reuniu parte dos amigos que Sheik fez em seus anos de Parque São Jorge, incluindo alguns campeões em 2012, o atacante recebeu uma placa de agradecimento do clube e também pôde erguer a taça da Libertadores ao lado dos filhos. Emoção que o tomou especialmente no final da partida, dando uma volta olímpica e recebendo seus aplausos da Fiel. Após ser substituído, o veterano ainda falou com os olhos cheios de lágrima sobre Tite e Casagrande, o segundo por auxiliá-lo com conselhos sobre o fim da carreira.

Emerson nunca será unanimidade. E, por seu jeito de pensar, provavelmente nunca quis ser. Há quem possa apontar o dedo e questionar algumas de suas histórias, embora ele já tenha pagado à justiça. O que não se pode indagar é que, dentro de campo, o atacante fez demais. A isso, mesmo os críticos precisam se curvar. Decidir uma Libertadores da maneira como ele fez, e não só pela bola, é um privilégio para poucos. Um privilégio aos corintianos, que reconhecem o seu herói, independentemente dos anti-heroísmos. Sheik está na história, em rubro-negro e em tricolor, mas sobretudo em preto e branco.