Algumas das maiores epopeias relacionadas ao Grêmio aconteceram em 1983. Boa parte dos gremistas sabem de cor os episódios espetaculares que conduziram à conquista da Libertadores e do Mundial. Um nome inescapável neste livro mágico tricolor é o de Caio. O atacante não é necessariamente o primeiro craque mencionado, como Renato ou De León. Mesmo assim, seria importantíssimo às façanhas do clube em seu ano mais vitorioso. Decisivo, sobretudo pelo gol que abriu o caminho ao título continental na decisão contra o Peñarol, fazendo o Olímpico explodir. Um ídolo ao qual a torcida será sempre grata e preservará com carinho a sua memória. Nesta terça, aos 63 anos, Caio faleceu. Ao longo dos últimos anos, o veterano vinha enfrentando uma trombose, que culminou na amputação de suas pernas.

Nascido no Rio de Janeiro, em 16 de março de 1965, Caio cresceu no bairro de Madureira e começou jogando em um clube local, até ser descoberto por olheiros do Botafogo. Fez toda a sua formação nas categorias de base alvinegras e por lá se profissionalizou, estreando no time principal quando tinha 19 anos. Contudo, o então ponta direita não encontrou muito espaço em General Severiano e passaria emprestado ao Madureira, antes de ser negociado com o Moto Club. No Maranhão, o jovem viu o seu futebol deslanchar. Virou ídolo da torcida e encantava por suas jogadaças na ponta, antes de ser deslocado como centroavante. Conquistou o Campeonato Maranhense e passou a se destacar nas competições nacionais, também defendendo outras equipes. Assim, acabaria assinando com a Portuguesa em 1979. No Canindé, chegou a ser vice-artilheiro do Paulistão e foi uma das referências ofensivas dos verderrubros em parte de seus quatro anos no clube.

A transferência ao Grêmio aconteceu justamente naquele 1983 mágico, quando Caio não teve o seu contrato renovado com a Lusa. Os tricolores aproveitaram a brecha e trouxeram o centroavante para reforçar o elenco rumo à disputa da Copa Libertadores. Havia uma lacuna no setor desde a saída de Baltazar, herói do Brasileirão em 1981 e que também participou do vice nacional no ano seguinte. Desta maneira, a diretoria acertou com dois novos nomes à posição. César chegou primeiro e vinha badalado do Benfica. Entretanto, não rendeu tão bem de início, o que garantiu a transação de Caio. O carioca, ainda assim, lidava com a desconfiança da imprensa. Diziam que ele não tinha bola para ser titular e que faltava capacidade física. O rapaz esguio de apenas 1,76 m, afinal, estava longe do padrão esperado a um centroavante de área. Mas ele não demorou a provar sua utilidade. Tomaria a posição a partir de abril e, em ótima forma, ia marcando seu nome. O novato anotou dois gols em três jogos pela fase de grupos da Libertadores, um deles contra o Flamengo, contribuindo para a classificação ao triangular semifinal.

No grupo contra Estudiantes e América de Cali, Caio se firmou como um dos melhores jogadores do Grêmio. Sua grande noite aconteceu logo na abertura da segunda fase, em duelo contra os pincharratas em Porto Alegre. Mesmo como centroavante, o carioca se destacava por sua mobilidade e por sua qualidade técnica. Desta maneira, participava bastante da criação – especialmente quando Tarciso estava em campo, alternando o posicionamento com o Flecha Negra. A vitória por 2 a 1 contou com a participação de Caio em ambos os tentos. Fez o pivô para Osvaldo soltar a bomba no primeiro e protagonizou uma jogadaça no segundo. Ao receber de Casemiro, feito um ponta esquerda, aplicou um lençol no marcador. Quando o segundo veio babando, tentando um carrinho criminoso, o atacante conseguiu escapar. Ainda daria uma finta no terceiro, que ficou no chão, antes de cruzar. Tarciso assumiu o posto de homem de área e desviou para as redes. Até a imprensa argentina se rendeu. “As ações se desenvolviam sem muito brilho, com o empate parecendo definitivo e que somente Caio, com seu futebol envolvente, decidido, conseguiu desequilibrar”, elogiou o Clarín.

Caio passaria em branco na derrota para o América de Cali dentro do Pascual Guerrero, mas se recuperou no reencontro com os colombianos. Nova vitória por 2 a 1 dentro do Olímpico, desta vez com um gol de cabeça do centroavante, aproveitando um cruzamento de Renato para abrir o placar. “Fez tudo o que se espera de um centroavante: gol e muita movimentação na frente, desnorteando a zaga”, avaliou o Correio do Povo. Já o Zero Hora deu nota 9 ao centroavante, menor apenas que o 10 atribuído a Renato. Então, veio a famosa Batalha de La Plata. E se o goleador não teve grande influência no empate por 3 a 3, no qual o Estudiantes arrancou o resultado mesmo após quatro expulsões, ele seria a maior vítima da covardia dos pincharratas. Durante o jogo quente, na saída do intervalo, a porta do vestiário gremista se fechou antes que Caio entrasse. O carioca foi cercado por três jogadores adversários e agredido impiedosamente. Um chute no tornozelo sequer permitiu que voltasse a campo, sob a suspeita de fratura.

Para sorte do Grêmio, Caio retornou a tempo de disputar a final contra o Peñarol. Fazia um bom primeiro tempo em Montevidéu, dando trabalho ao goleiro aurinegro, embora novamente tenha sofrido as consequências da violência. Desta vez, as pancadas aconteceram em campo e ele não voltou ao segundo tempo. Titular no jogo decisivo, dentro do Olímpico, deixaria sua marca eterna aos dez minutos de bola rolando. Lançado na ponta esquerda, Osvaldo cruzou rasteiro. Oportunista, o matador aproveitou o espaço na defesa e se infiltrou na pequena área. Com a meta aberta, se esforçou para acertar a bola, que vinha forte, e mandou para dentro de carrinho. O sonho gremista começava a se tornar mais real. Todavia, o lance agravaria os problemas de Caio no joelho, bem como uma entrada de Marcelo Saralegui. Ficaria em campo até o início do segundo tempo, quando deu lugar a César, o autor do gol do título ao completar o lendário cruzamento de Renato. Igualmente heróis na campanha histórica.

Meses depois, Caio também participou do Mundial. Seria reserva contra o Hamburgo, entrando no segundo tempo, no lugar de Paulo César Caju. Teve algumas chances de balançar as redes, mas seu gol não se concretizou, ora errando a pontaria, ora parando no goleiro Uli Stein. O mais importante é que de seus pés saiu o cruzamento que Tarciso desviou levemente e Renato emendou às redes, valendo a vitória por 2 a 1 na prorrogação. O planeta era tricolor e a história do atacante se eternizava no Olímpico.

Caio permaneceu no Grêmio até dezembro de 1984. Por conta de uma lesão na virilha, sofrida durante uma partida pela Libertadores daquele ano, suas aparições na equipe se tornaram esporádicas. E, desiludido com o problema físico, após meses afastado dos gramados, chegou a anunciar a aposentadoria. Recusou propostas de outros clubes e retornou ao Maranhão, investindo em farmácias. Porém, o veterano logo começou a participar de peladas em São Luís. Sentindo confiança na própria forma, aceitou uma oferta para retornar ao Moto Club. Faturou mais um estadual pelo Papão do Norte, até entrar em litígio com dirigentes por causa dos salários atrasados. Resolveu assinar com o rival Sampaio Corrêa e por lá conquistou outros dois títulos maranhenses, até pendurar as chuteiras. É uma lenda também no futebol local.

Depois de encerrar a carreira, Caio trabalhou em outros negócios, abrindo inclusive escolinhas de futebol. Só que seus empreendimentos não prosperaram e, enfrentando dificuldades financeiras, ele se tornaria taxista em São Luís. Nos últimos anos, o ex-atacante ainda passou a sofrer com os problemas de circulação nas pernas. Ajudado por antigos companheiros do Grêmio, mudou-se a Porto Alegre para cuidar de sua enfermidade. As complicações, no entanto, se seguiram. Já de volta a São Luís, ele precisou amputar as pernas. No ano passado, os gremistas fizeram uma campanha para comprar próteses ao veterano, que esteve presente na Arena em dezembro, durante as celebrações pelos 35 anos do título mundial. Uma justa última homenagem ao herói, apenas dois meses antes de seu falecimento. Fica a saudade de familiares e amigos, assim como os aplausos dos torcedores. O centroavante versátil foi uma arma e tanto naquele ano glorioso.