A seleção brasileira feminina se despediu de maneira melancólica do Torneio das Nações, quadrangular amistoso realizado ao longo dos últimos dias. A equipe não tinha mais chances de título, após perder para a Austrália na estreia e vencer o Japão na segunda rodada. Enfrentaria os Estados Unidos nesta quinta-feira, um adversário ainda de olho na taça. E contra as atuais campeãs do mundo, as brasileiras não tiveram vez. Saíram em vantagem com um lance de sorte, mas tomaram a virada e a goleada por 4 a 1, que deu o título às americanas no saldo de gols, superando as australianas. Sintoma preocupante sobre aquilo que (não) acontece na equipe nacional e que precisa de atitudes mais enérgicas.

As dificuldades da seleção feminina são exibidas ao longo das últimas competições internacionais, com desempenhos oscilantes. Ainda assim, mais do que uma questão de renovação, há um problema de conjunto que atravanca o Brasil. Basta ver o que aconteceu contra os Estados Unidos, face mais exposta das dificuldades no Torneio da Nações. O gol brasileiro, no início do primeiro tempo, saiu um tanto quanto ao acaso, marcado por uma defensora americana contra as próprias redes. Depois, houve uma facilidade enorme para o US Team abrir a sua goleada. Enquanto o sistema defensivo brasileiro permanecia estático, as adversárias empilharam gols com jogadas trabalhada. A goleira Lelê ainda evitou uma diferença maior no marcador.

É preciso ponderar que o Brasil tinha desfalques importantes, incluindo as atacantes Cristiane e Andressa Alves, assim como as defensoras Fabi e Rafaelle. Nada que atenue algumas críticas pertinentes. A frágil defesa não conseguiu conter adversárias de mais presença física e entrosamento, como a Austrália e os Estados Unidos. Consequentemente, a Seleção sofreu oito gols no total, em apenas três partidas. Mesmo com o posicionamento recuado em muitos momentos, faltava solidez.

E o pior é que o Brasil nem ofereceu tanto no ataque. O meio-campo não funcionou nas transições e explica também como a defesa acabava sofrendo um pouco mais. Marta muitas vezes tentava dar uma lucidez que a equipe não conseguia atingir coletivamente. Vinha para buscar o jogo, para tentar clarear o caminho, para aguardar um lampejo. De certa maneira, até lembrava o que fez Lionel Messi em algumas partidas da Argentina nos últimos meses, diante dos problemas na organização. Sem consistência, as esperanças se esvaíam.

O Brasil conquistou a Copa América Feminina em abril, mas em nível competitivo bem baixo, se comparado ao restante do planeta. Quando poderia realmente ter um teste sobre o seu jogo, contra adversárias representativas, o resultado foi decepcionante. Algo que preocupa, pensando que a Copa do Mundo já bate na porta. Resta pouco menos de um ano para o início do torneio e os problemas recorrentes da seleção precisam de um trabalho intenso para que o cenário mude. Trabalho este que não se percebe.

No último ano, a derrocada do Brasil no Torneio das Nações foi a chave para a demissão de Emily Lima. A Seleção empatou com o Japão, perdeu para os EUA por 4 a 3 e encerrou a participação goleada por 6 a 1 pela Austrália. Havia o discurso de um trabalho de renovação e de implementação de novas bases na equipe, mas independentemente dos resultados, a CBF caminhou para trás com sua decisão enérgica. Recontratou Vadão, de problemas claros durante as Olimpíadas de 2016, em um time dependente das individualidades. Não quer dizer que o veterano se reciclou, e os reflexos nos últimos dias são óbvios.

Questionar Vadão se torna algo até fácil. Um treinador que talvez não tivesse espaço em times da Série B do Brasileirão, mas que conduz a equipe mais importante do futebol feminino no país, e ao redor da qual se concentram os (parcos) esforços da modalidade por aqui. Tão parcos que as perspectivas são pequenas. O comandante não se indica alguém com plena confiança das atletas, até pelo motim ocorrido durante o processo de demissão de Emily Lima. Como futuro, parece ter um grande passado pela frente. E isso atravanca diretamente o desenvolvimento de atletas, num momento em que a Seleção deveria sugerir uma renovação.

Resultado pode não ser tudo. Mas o nível do jogo exibido pelo time de Vadão não serve para sustentá-lo. Entre a permissividade na defesa, a falta de criatividade no meio-campo e as alternativas que não se veem, a equipe sofre. Parece não haver motivação para transformar, até por aquilo que permanece como entrave desde a passagem anterior do treinador. E entre apostar em outro nome ou continuar com o que parece estagnado, a escolha deveria ser clara. Resta saber se a CBF abrirá os olhos e prestará um pouco mais de atenção na seleção feminina, ou se a usará para “relacionamentos”, como já aconteceu em outras oportunidades. Pior para as meninas, que acabam mais limitadas pela falta de organização em campo e fora dele.