O número 14 sobre as costas e a braçadeira de capitão marcaram a vida de Stephen Tataw. O lateral direito não fez carreira no futebol europeu e nem conquistou tantos títulos. Porém, sua história ficaria gravada por liderar Camarões no maior momento da história da seleção local. O defensor capitaneou os Leões Indomáveis em duas Copas do Mundo, incluindo a surpreendente campanha que botou os africanos nas quartas de final em 1990 – um feito inédito ao continente até então. Firme na marcação e muito combativo, o jogador é sinônimo de sua geração. E assim continuará lembrado. Aos 57 anos, Tataw faleceu nesta sexta, sem que a causa de sua morte fosse especificada.

Por clubes, a carreira de Tataw se resumiu basicamente ao futebol de Camarões. Jogou em grandes times do país, em especial o Tonerre Yaoundé, mas nada que correspondesse à fama que construiu com a seleção. Chegou a passar por testes no Queens Park Rangers e no Brighton após disputar a Copa de 1990, mas sem permanecer e ainda recusaria algumas outras propostas europeias. Só no fim de sua trajetória que sairia rumo ao futebol japonês, defendendo o pouco expressivo Tosu Futures na segunda divisão. Mas nada que negasse sua representatividade.

Disciplinado e muito empenhado, Tataw tinha uma força mental grande. E um episódio emblemático neste sentido aconteceu em 1992, quando atuava pelo Olympic Mvolyé. Dias antes da decisão da Copa de Camarões, o defensor foi espancado por quatro homens armados – em ataque que teria o intuito de tirá-lo da final. Não foi aquilo que o impediu de jogar, porém. O lateral entrou em campo e sofreu o pênalti que resultou no único gol da partida, rendendo o título à sua equipe. Capitão do clube, ainda teve o gosto de erguer a taça.

A seleção de Camarões, esta sim, serviu para engrandecer Tataw. O lateral chegou à equipe nacional em 1986 e conquistou a Copa Africana de Nações em 1988, mas viveu seu principal momento em 1990. Mesmo com outros jogadores mais experientes, o defensor de 27 anos usou a braçadeira de capitão. Seria símbolo de um time aguerrido e que também jogava duro contra os adversários. Na estreia contra a Argentina, o camisa 14 seria designado para acompanhar Diego Maradona um pouco mais de perto. Anulou o craque e se tornou um dos protagonistas na histórica abertura da Copa do Mundo, com a vitória dos Leões Indomáveis por 1 a 0.

Logo após o triunfo, Tataw declarou que Camarões poderia ser a surpresa do Mundial. E assim se confirmou com a vitória sobre a Romênia, que garantiu a classificação antecipada às oitavas de final. Os camaroneses ampliaram sua história ao baterem a Colômbia por 2 a 1. Até que o conto de fadas se encerrasse contra a Inglaterra, nas quartas, mas não sem honras: os Leões Indomáveis foram melhores que os Three Lions, apesar da derrota sentida por 3 a 2 na prorrogação. Já era uma campanha inesquecível, de qualquer forma.

“Depois da partida contra a Argentina, nos vimos como campeões do mundo. Os resultados mostraram nossa força. Se você olhar para as partidas, concordará que nosso jogo melhorou à medida em que avançamos na competição. O duelo contra a Inglaterra nas quartas de final, que culminou na nossa eliminação, foi nosso melhor. Estávamos ganhando até cinco minutos do fim. Então, teve um pênalti… Eu pensava que poderíamos ter chegado à final. O fato de que os outros times nos temiam era uma indicação de que poderíamos ter chegado muito longe. Beckenbauer falou que preferia enfrentar a Inglaterra na semifinal. Tínhamos vantagem psicológica sobre a Alemanha, poderíamos ganhar com tranquilidade e talvez trouxéssemos a taça para casa”, recontou Tataw, em 2005, ao site Camfoot.

Tataw teria a chance de disputar a Copa do Mundo outra vez quatro anos depois, em 1994. A preparação conturbada e as disputas internas, entretanto, minaram o caminho de Camarões. O bom desempenho não se repetiria nos Estados Unidos, com a eliminação precoce logo na fase de grupos. Ainda assim, o lateral disputou os três compromissos e encerrou sua trajetória na equipe nacional. Deixou seu exemplo.

Seu herdeiro com a braçadeira, Rigobert Song, deu uma declaração emocionada ao saber da morte, ao site da federação camaronesa: “Eu tinha um relacionamento próximo com Stephen. Eu me sinto muito grato. Ele foi um capitão emblemático. Tive a oportunidade de conhecê-lo na Copa de 1994, quando eu era jovem. Ele tocou minha vida. Era modesto e muito presente em campo. Quando me tornei capitão, acho que tinha o mesmo espírito. Tataw deu motivos para os torcedores quererem ver os jogos da seleção. Era reservado, mas muito eficiente. É uma grande perda. Quando ele me chamou uma vez de ‘capitão’, eu respondi que ele era o capitão verdadeiro. O homem propõe e Deus dispõe. Que ele descanse em paz”.

Tataw ainda trabalhou com a direção do futebol camaronês após se aposentar e estava previamente escalado para participar do sorteio da fase de grupos da Copa Africana de Nações, que acontecerá no país. Com o adiamento do torneio por causa da pandemia, o evento não ocorreu. Uma pena que a homenagem ao grande capitão não tenha acontecido em vida. Mas certamente será um nome bastante lembrado pelos Leões Indomáveis durante a competição.