Há jogadores que acabam marcados por um gol. Um tento fundamental se transforma em epíteto eterno. Rubén José Suñé sempre será lembrado por aquele lance decisivo contra o River Plate. O gol que, em 1976, garantiu a conquista do Torneio Nacional em cima dos rivais. Por décadas, aquele permaneceu como o único Superclássico a definir um título oficial. O grande momento de El Chapa, no entanto, também marcava o ápice de um meio-campista que dedicou sua carreira praticamente inteira à camisa azul y oro. Suñé se consagrou como um dos pilares do time bicampeão da Libertadores. Superou as 500 partidas pelos xeneizes e enfileirou taças, muitas delas usando a braçadeira de capitão. Um gigante da Bombonera, que partiu nesta semana. Na noite da última quinta-feira, Suñé faleceu aos 72 anos. Permanecerá imortalizado em sua estátua no museu do clube e na memória grata dos torcedores boquenses.

A ligação de Suñé com o Boca Juniors começa antes mesmo de sua carreira profissional decolar. Nascido em Buenos Aires, El Chapa ingressou nas categorias de base xeneizes durante a infância. Aquilo já era um sonho imenso, ao garoto que cresceu amando as cores do clube. “Desde pequeno, tive o sonho e o desejo, além de uma vidência interior, de que ia jogar no time principal do Boca Juniors. Não sei por que, mas eu estava seguro. Todos falavam de mim quando era criança, era o melhor do bairro e mesmo dos clubes em que ia, desde as inferiores”, contou ao Clarín, em 2005. Sua estreia na equipe profissional aconteceu em 1966, prestes a completar 20 anos. Personalidade não faltava ao prodígio, apresentando enorme capacidade na lateral. Tomou a posição de titular em poucos meses e se transformou em uma das referências na Bombonera.

Logo Suñé começou a estabelecer as marcas de sua carreira profissional. Chapa, na realidade, era um apelido por sua “cara de pau”. O primeiro gol do garoto veio em uma cobrança de pênalti. E logo ele se tornaria o batedor oficial do Boca Juniors. Também precisou de pouco tempo para colecionar suas primeiras taças. Em 1969, os xeneizes conquistaram o Torneio Nacional dentro do próprio Monumental, segurando o empate contra o River Plate na rodada final, e a Copa Argentina, em cima do Atlanta. O título em Núñez, aliás, é lembrado pela atitude pouco hospitaleira da diretoria millonaria: enquanto os visitantes recebiam os aplausos das arquibancadas, os dirigentes resolveram ligar o sistema de irrigação do estádio para espantá-los. Nem a água parou os boquenses. E o time voltaria a erguer a taça no Nacional um ano depois, com triunfo sobre o Rosario Central.

Naquele momento, Suñé realizou também suas primeiras aparições na Libertadores. Os xeneizes foram superados pelo River Plate no triangular da segunda fase em 1970 e, um ano depois, sequer passaram da primeira etapa. A campanha ainda acabou marcada pela batalha campal do Boca no encontro com o Sporting Cristal. O clube se retirou da competição, enquanto Suñé, que chegou levar uma voadora, recebeu uma suspensão internacional que custou suas seguidas chances com a seleção argentina. Como se não bastasse, El Chapa entrou em rota de colisão com os dirigentes e teria sua estadia pela Bombonera encurtada em 1972, insatisfeito com as negociações de seu salário.

Em 1973, Suñé acertou sua transferência ao Huracán. Juntava-se ao melhor time do país, mas perdeu força após a saída de César Luis Menotti à seleção. Também defendeu o Unión de Santa Fe, que ganhava projeção no futebol nacional. E justamente sua passagem pelo interior permitiu seu retorno à capital. Foi levado de volta ao Boca Juniors em 1976, pelo técnico Juan Carlos Lorenzo, que o comandara nos santafesinos. O velho lateral já se adaptava como um meio-campista de pegada e projeção naquele momento da carreira, às vésperas de completar 30 anos de idade. Nesta posição, ajudou a transformar a história dos xeneizes em seu retorno.

Suñé demorou poucos meses até erguer a primeira taça neste retorno. Conduziu o Boca Juniors à conquista do Torneio Metropolitano. Mas nada se compararia ao Nacional de 1976, um dos títulos mais comemorados pelos xeneizes, e que eternizou o nome do meio-campista. Mais de 70 mil pessoas entupiram o Cilindro de Avellaneda naquela noite histórica. Os xeneizes tentavam o bicampeonato, algo alcançado justamente pelos millonarios no ano anterior. Em uma partida amarrada, com poucas chances de gol, a astúcia de El Chapa garantiu o triunfo.

Antes do duelo, o árbitro se reuniu com os capitães e transmitiu a recomendação recente da Fifa, de que as faltas poderiam ser batidas sem a autorização do apito. A medida foi bem recebida pelo capitão do River, Roberto Perfumo, que desejava uma partida mais corrida. O mesmo fez Suñé. E, mais do que isso, o dono da braçadeira do Boca Juniors se aproveitou da brecha. Aos 27 minutos do segundo tempo, os xeneizes ganharam uma cobrança de falta na entrada da área. Enquanto Ubaldo Fillol armava a barreira, El Chapa resolveu arriscar. Mandou a bola perfeita, na gaveta, e o goleiro desatento só a viu entrando. O lance ainda hoje gera controvérsias, mas nenhum jogador millonario reclamou no momento. Garantiu a vitória por 1 a 0 e o festejadíssimo título dos boquenses.

“O River era um time lírico, que jogava um bom futebol, mas ficava distraído nas bolas paradas. Dois deles estavam virados e Fillol começou a armar a barreira. E ali aconteceu. Tempos depois me cruzei com Pato e ele me disse: ‘Se eu estivesse bem posicionado, também seria gol. Entrou no ângulo. Era indefensável, Rubén’. E tem razão. Na minha carreira, devo ter feito quatro ou cinco gols de falta. Mas nesta noite, surpreendi a todos, até meus companheiros. Assim que vi a bola entrando, saí correndo. Ninguém poderia me frear. Queria voar, abraçar a todos. E terminei próximo da tribuna mais cheia de torcedores do Boca. Só parei por causa do alambrado e do fosso”, contou Suñé, anos depois, ao La Nación. O mais curioso é que os registros em vídeo deste gol foram perdidos. Existem várias teorias sobre o desaparecimento do filme do tento, transmitido pela televisão local ao vivo.

O Boca Juniors retornou à Copa Libertadores com ótimas credenciais em 1977. Suñé pôde escrever uma história bastante diferente na competição continental, inaugurando a série de conquistas dos xeneizes. A equipe faturou o título naquele primeiro ano, batendo o Cruzeiro no jogo-desempate dentro do Estádio Centenario. Curiosamente, El Chapa não cobrou um pênalti na disputa que determinou o campeão, mas pôde erguer o troféu. Um ano depois, voltaria a repetir o gesto, com o bicampeonato boquense. Os argentinos venceram com mais tranquilidade na ocasião, goleando o Deportivo Cali por 4 a 0 na Bombonera. Entre um feito e outro, os portenhos também levaram o Mundial Interclubes de 1977. Ele ainda disputaria a final da Libertadores em 1979, esta vencida pelo Olimpia.

A despedida de Suñé do Boca Juniors aconteceu em 1980. O meio-campista encerrou sua história com a camisa azul y oro somando oito títulos, maior campeão pelo clube no Século XX. Ainda teve uma breve passagem pelo San Lorenzo, atrapalhado pelas lesões, em temporada que marcou o inédito rebaixamento do Ciclón. Sua história, de qualquer maneira, estaria eternamente atrelada à Bombonera.

O Boca Juniors ainda seria importante a Suñé na sequência de sua vida. O veterano teve dificuldades para lidar com a aposentadoria no futebol e entrou em depressão – mesmo que contasse com o apoio financeiro de seu pai, comerciante. Chegou a tentar o suicídio, se atirando do sétimo andar de um edifício. Passou quatro meses internado para se recuperar das lesões, milagrosamente salvo, bem como outros nove meses em uma clínica psiquiátrica. Foi quando os xeneizes estenderam sua mão, convidando o velho capitão para treinar o time reserva, após sua alta. Passou mais de duas décadas comandando a base, além de permanecer como uma espécie de embaixador do clube.

“Quando vejo a bola rolar, o sangue me ferve como se tivesse 15 anos e inclusive me meto a jogar com os garotos que dirijo, sempre que posso participar das brincadeiras. Não no campo inteiro, porque passam por cima de mim como se eu fosse uma cerca caída. Mas ainda levo um menino em algum canto do coração”, afirmou ao Clarín, em 2005. O menino permaneceu em seu peito em 2017, quando o Boca homenageou Suñé com uma estátua na Bombonera, para comemorar os 40 anos daquele gol contra o River Plate. E esse menino, mesmo adormecido nesta semana, repartiu seus sentimentos entre milhares de torcedores xeneizes que idolatraram El Chapa.

Como complemento à leitura, vale conferir o texto do amigo Caio Brandão no Futebol Portenho, publicado no aniversário de 70 anos de Suñé.