Compartilhar a idolatria de rivais ferrenhos não costuma ser tão simples. A identificação com uma camisa, tantas vezes, dificulta o início com a outra – mesmo quando a transferência não é direta. Rui Jordão, porém, conseguiu conquistar a adoração de Benfica e Sporting ao longo de sua carreira. Multicampeão no Estádio da Luz, onde o angolano surgiu como “novo Eusébio”, chegaria ao José Alvalade após uma passagem pela Espanha e se consagraria como um dos maiores artilheiros do clube. Símbolo da seleção portuguesa nos 1970 e 1980, marcou-se como um dos atacantes mais talentosos da história do futebol lusitano. E, depois de pendurar as chuteiras, adicionou novas cores à sua vida, se dedicando às artes. Um personagem querido e com uma biografia peculiar, que recebeu seu adeus nesta sexta. Aos 67 anos, Jordão faleceu, vítima de problemas cardíacos. Ganha os tributos e as saudades.

Rui Jordão nasceu em Angola, em 1952, nos tempos coloniais. Surgiu como um talento no atletismo, antes de se aventurar no futebol, e começou sua carreira no Sporting de Benguela, uma das filiais leoninas na África. Logo despertou o interesse também dos rivais em Lisboa. Veloz, dono de muita qualidade técnica e com um faro de gol apurado, o garoto parecia o futuro ao futebol português. Enquanto o Eusébio chegava aos 30 anos, o Gazela de Benguela despontava como o herdeiro perfeito ao Pantera Negra. E até mesmo o início de sua trajetória seria parecido ao do ídolo, fechando com o Benfica depois de vestir o alviverde em sua terra natal. O prodígio passou inicialmente pela base encarnada, antes de estrear pelo time principal aos 19 anos, em 1971.

A pouca idade não foi empecilho para Jordão fazer barulho com o Benfica logo em seus primeiros anos. Em tempos dominantes dos encarnados no Campeonato Português, o atacante contribuiu ao bicampeonato nacional. Eusébio comandava uma linha de frente que se renovava, com nomes como Artur Jorge e Nené. O Gazela de Benguela anotou sete gols naquela campanha, honrando o seu lugar ao lado do Pantera Negra. Além disso, o angolano foi herói na caminhada até as semifinais da Champions. Fez dois tentos na goleada por 5 a 1 sobre o Feyenoord, que eliminou os holandeses da competição.

Rui Jordão também integrou a seleção portuguesa rapidamente. Em 1972, ganhou as primeiras convocações e deixou sua marca já na estreia. Anotou o primeiro gol em março, num duelo contra o Chipre pelas Eliminatórias da Copa. Ainda esteve presente na Taça Independência de 1972, garantindo a classificação de Portugal à decisão. Seria dele o tento fatal na vitória por 1 a 0 sobre a União Soviética, que valeu a vaga na final. Os lusitanos terminariam com o vice, simbolicamente derrotados pelo Brasil na competição que celebrava os 150 anos da Independência.

A presença de Jordão na seleção não seria constante durante aqueles primeiros anos. Em compensação, seus gols embalaram a torcida do Benfica na primeira metade da década de 1970.  Foram mais três títulos do Campeonato Português com o clube, além da artilharia da competição em 1975/76 – registrada meses depois de sofrer uma seríssima lesão no joelho. O Gazela de Benguela foi o grande responsável pela conquista naquela temporada, ao balançar as redes 30 vezes em apenas 28 aparições pela liga. Acabaria deixando o Estádio da Luz logo depois, ao aceitar uma proposta do Zaragoza, que ofereceu um salário quatro vezes maior.

Jordão teve números razoáveis em La Liga, com 14 gols em 33 partidas na temporada 1976/77, mas os problemas de relacionamento com o colega Saturnino Arrúa e o rebaixamento de sua equipe aceleraram o retorno a Portugal. Não assinou com o Benfica, e sim com o Sporting. Precisou provar sua fidelidade às novas cores dentro de campo e assim o fez, novamente empilhando gols. Em termos de idolatria, a importância do Gazela de Benguela seria até maior no José Alvalade do que no Estádio da Luz. Estreou com dois gols em amistoso contra o Vasco.

Durante os primeiros anos, Jordão precisou lidar com outras contusões graves. Chegou a fraturar a perna e, quando retornou ao time, rompeu os ligamentos do tornozelo.  O impacto de sua contratação se sentiu principalmente no Campeonato Português de 1979/80, quando sua redenção levou o Sporting ao título nacional após seis anos. O atacante formou uma célebre parceria com Manuel Fernandes, outra lenda alviverde. Naquela ocasião, o Gazela foi o protagonista dos leoninos, ao anotar 31 gols na campanha. Abocanhou pela segunda vez a artilharia da liga e tornou-se o primeiro jogador a alcançá-la por dois clubes diferentes. Justamente, os dois rivais.

O segundo título de Rui Jordão com o Sporting no Campeonato Português não demorou a vir, em 1981/82. Foram 26 tentos naquela campanha, com direito a uma tripleta no clássico contra o Benfica e cinco gols no jogo do título diante do Rio Ave. A dupla imparável com Manuel Fernandes virou um trio mágico, graças à chegada de António Oliveira. Pouco depois, o Gazela de Benguela também viveu o seu ápice com a seleção. Novamente ele virou carrasco dos soviéticos, ao anotar o gol da vitória por 1 a 0 em Lisboa, no jogo que valeu a classificação inédita dos lusitanos à Eurocopa.

Titular na linha de frente ao lado de Fernando Gomes, Jordão passou em branco na fase de grupos da Euro 1984, mas ficou prestes a liderar um milagre nas semifinais. Anotou o gol de empate contra a França no tempo normal e deixou os portugueses em vantagem na prorrogação. Entretanto, aquela taça estava reservada ao momento espetacular de Michel Platini, que liderou a vitória dos Bleus por 3 a 2 no Estádio Vélodrome. O desempenho dos lusos, ainda assim, foi bastante honroso e marcava a geração mais talentosa do país desde os anos 1960.

A carreira de Rui Jordão entraria em declínio depois disso. Sofrendo com outras lesões, seus números caíram e o atacante deixou o Sporting em 1986. Com 184 gols vestindo a camisa leonina, é o quinto maior artilheiro da história do clube. Parecia resoluto a se aposentar e permaneceu um ano afastado dos gramados, quando aceitou o convite de Malcolm Allison (seu técnico no título de 1982) e reeditou a parceria com o amigo Manuel Fernandes no Vitória de Setúbal. Foram mais duas temporadas na equipe, até se aposentar em 1989. Naquele ano, ainda disputou o último de seus 43 jogos pela seleção portuguesa. Foram 15 gols e a lacuna de nunca ter disputado uma Copa, cortado às vésperas da tumultuada preparação ao Mundial de 1986.

A história de Rui Jordão depois da aposentadoria também é especial. O atacante preferiu se afastar do futebol. Ainda ia a alguns jogos e mantinha os amigos, mas preferia não falar sobre o assunto. Descrito como um homem sereno e humilde, passou a se dedicar aos estudos das artes. Fez licenciatura em “História da Arte”, cursou também “Pintura, Desenho e Modelagem” na Sociedade Nacional de Belas-Artes e complementaria sua formação com outras disciplinas teóricas sobre o tema. Como pintor, realizou exposições individuais e coletivas.

“A estética do futebol me marcou e ajudou a definir meu caráter. Em certos movimentos que fazia dentro do campo, é possível ver coreografias, traços que provavelmente também se manifestam naturalmente no pincel. Mas o que o futebol não tem é o silêncio que preciso para mostrar a verdade que, enquanto jogador, ocultei. Talvez falte mais silêncio ao futebol”, afirmou, numa rara entrevista, ao jornal Record, em 2000.

“[O futebol] é um mundo demasiado objetivo, material e ruidoso. Era impossível encontrar outras formas de expressão que não fossem dentro dos gramados. A bola é um objeto egoísta e centralizador. Foi por isso que desapareci do meio durante muitos anos. Só o silêncio seria capaz de permitir o reencontro com o meu outro eu. Não sei qual dos dois é mais verdadeiro, mas quando comecei a pintar descobri uma outra forma de comunicar com os outros”, complementou, na mesma entrevista.

Jordão passou as últimas semanas internado, com uma doença cardíaca, e a torcida do Sporting chegou a homenageá-lo durante seu último compromisso na Liga Europa, aplaudindo o antigo artilheiro no minuto 11. Já nesta sexta-feira, a notícia da morte do Gazela de Benguela gerou comoção não apenas entre os sportinguistas e os benfiquistas. O Porto, que tentou contratá-lo nos anos 1980, também se rendeu ao veterano, assim como diferentes agremiações do país e até mesmo o presidente da república. O respeito prevalece a quem fez tanto em diferentes frentes da vida. Ídolo de duas torcidas, Jordão também foi artista por duas vezes.