Mesmo completando quase quatro décadas em jejum, o Saint-Étienne permanece como o maior campeão da Ligue 1. Os Verts somam dez taças no Campeonato Francês, todas erguidas num intervalo de 24 anos. E não há como falar sobre a trajetória vitoriosa do clube sem mencionar Robert Herbin. Levado à equipe em 1957, logo após a primeira conquista, o ídolo estaria presente nos outros nove títulos. Dentro de campo, firmou-se como um dos melhores volantes da França e liderou o Saint-Étienne a cinco taças na liga. Penduraria as chuteiras para assumir o papel de técnico e faturaria o campeonato mais quatro vezes. É esse o tamanho da lenda que faleceu nesta segunda, aos 81 anos, em decorrência de insuficiência cardíaca e pulmonar.

Embora toda a sua carreira como jogador tenha sido vivida em Saint-Étienne, Herbin nasceu em Paris, em 1939. O garoto conviveu com as mazelas da Segunda Guerra Mundial na capital antes de se mudar com a família para Nice, aos oito anos de idade. Filho de um trombonista, seria apaixonado por música clássica, mas o futebol o fisgou logo cedo. Iniciou sua carreira no pequeno Cavigal, que o alçou à seleção francesa de juniores quando tinha 18 anos. Depois de uma boa participação no Campeonato Europeu da categoria, recebeu o convite para se juntar ao Saint-Étienne e fez as malas. Não havia muitas dúvidas quanto a se juntar ao time que acabara de conquistar o Campeonato Francês.

Mesmo tão jovem, Herbin se encaixou de imediato no Saint-Étienne. Atuar ao lado de feras como Rachid Mekhloufi e Claude Abbes não era problema ao novato, que passou a acumular aparições na equipe principal. Os Verts não repetiram o desempenho na Ligue 1, apenas na sétima colocação em 1957/58, e caíram para o Rangers na fase inicial da Copa dos Campeões. Ainda assim, com vários jovens à disposição, ficava claro como a equipe seguia com uma boa margem de crescimento. Herbin seria central neste papel.

Entrando como zagueiro nos primeiros anos, Herbin combinava ótimas virtudes para se colocar como um dos principais jogadores de sua posição na França. O defensor possuía grande leitura de jogo e inteligência tática, mas também capacidade física para preencher uma grande faixa em campo e força no jogo aéreo. Porém, Herbin não se continha a seu papel na proteção e, com o tempo, passou a atuar mais adiantado. Logo se percebeu como suas aproximações do ataque também eram valiosas ao Saint-Étienne. Pegava muito bem na bola e costumava contribuir com gols aos Verts.

Por mais que o Saint-Étienne acumulasse campanhas medianas no Campeonato Francês durante o final da década de 1950, Herbin chegou à seleção em 1960. E não seria para uma ocasião qualquer: o meio-campista integrou a equipe que disputava em casa a primeira edição da Eurocopa. Foi titular na semifinal contra a Iugoslávia, mas não evitou a eliminação dos Bleus na competição continental. De qualquer maneira, aos 21 anos, seu potencial ficava evidente para o futuro da França.

E quem desfrutou bem mais da qualidade de seu defensor foi o Saint-Étienne, firmando-se como uma potência nacional a partir dos anos 1960. Os Verts ainda conviveram com seus percalços, é verdade. O primeiro título de Herbin veio na Copa da França de 1962. A equipe bateu o poderoso Stade de Reims por 4 a 3, numa emocionante final. Coube a Herbin anotar justamente o gol que sacramentou a vitória contra o time de Raymond Kopa. Contudo, a comemoração no Geoffroy Guichard não foi completa, já que o Sainté terminou rebaixado no Campeonato Francês de 1961/62.

O retorno do Saint-Étienne seria imediato. Numa época na qual quatro clubes subiam e quatro desciam na França, os Verts conquistaram a promoção e também o título na segundona – em campanha que envolveu ainda Nantes e Sochaux. Além do mais, não foi o descenso que provocou um desmanche no Geoffroy Guichard. O clube manteve sua base principal e parecia se preparar a algo maior. Utilizado com maior frequência no meio-campo, Herbin anotou 15 gols e foi o artilheiro da equipe em seu retorno à elite.

Naquele momento, ninguém mais pararia o Saint-Étienne. O time alcançou o raro feito de emendar os títulos na segunda e na primeira divisão, conquistando o Campeonato Francês pela segunda vez em 1963/64. Principal mentor do clube na década de 1950, Jean Snella estava de volta ao comando técnico e formou uma equipe com grande potencial ofensivo, que manteve média superior a dois gols por jogo. Herbin contribuiu com dez tentos, compondo a faixa central ao lado de Rachid Mekhloufi e René Domingo, enquanto André Guy era o maior responsável por balançar as redes na frente.

O Saint-Étienne voltaria a oscilar nas temporadas seguintes, sem passar da quinta colocação nas duas campanhas após o título. Herbin, em compensação, vivia o seu melhor momento individual. O meio-campista teve um desempenho incrível em 1965/66, anotando 26 gols no Campeonato Francês. Liderou o melhor ataque da competição jogando ainda mais avançado, como ponta de lança, no apoio à trinca ofensiva. Vice-artilheiro da Ligue 1, chegou com moral à Copa de 1966 e manteve a titularidade nos Bleus. Todavia, o camisa 16 se lesionou durante a fase de grupos e não pôde evitar a eliminação francesa, embora tenha enfrentado México e Inglaterra.

Por causa da contusão, Herbin jogaria menos no Campeonato Francês de 1966/67. Voltaria a ser utilizado na zaga. Nada que diminuísse seu papel dentro do elenco de Jean Snella, outra vez campeão nacional. Com quatro pontos de vantagem sobre o vice Nantes, os Verts estabeleceriam a partir de então uma das maiores dinastias do Francesão. E a equipe seguiria em ritmo alucinante, mesmo com a mudança no comando técnico. O novo treinador era ninguém menos que Albert Batteux, responsável por formar o célebre time do Stade de Reims na década de 1950 e por dirigir a seleção francesa na Copa do Mundo de 1958. No Estádio Geoffroy-Guichard, suas glórias aumentariam.

A transição no Saint-Étienne mal seria sentida. Snella aceitou uma proposta para trabalhar na Suíça e foi ele quem ligou a Batteux, seu amigo, com quem compartilhava os mesmos ideais de futebol ofensivo. O antecessor passou todos os detalhes de seu trabalho ao sucessor, que seguiu extraindo o máximo do elenco. Neste momento, a equipe sofria uma reformulação. Herbin era um dos raros jogadores a beirar os 30 anos, ao lado de Mekhloufi e do atacante Frédéric N’Doumbé. A diretoria injetava sangue novo ao longo daquele período, com a ascensão excelentes jovens. Georges Carnus e Bernard Bosquier vieram de fora, enquanto a base forneceu Aimé Jacquet, Jean-Michel Larqué, Georges Bereta e Hervé Revelli. Já a grande contratação feita por Batteux foi o malinês Salif Keïta, símbolo do futebol africano nos anos 1960 e 1970.

O bicampeonato do Saint-Étienne no Francesão foi incontestável. O time de Albert Batteux terminou a campanha com 11 pontos de vantagem sobre o Nice, com apenas cinco derrotas ao longo da jornada. Foram 78 gols marcados, 19 a mais que qualquer outro concorrente. E, apesar da queda diante do Benfica na Champions, os Verts também faturaram a dobradinha nacional com o título na Copa da França, conquistada sobre o Bordeaux. Herbin seguia no coração da defesa, compondo a linha de zaga ao lado do iugoslavo Vladimir Durkovic – trazido também naquela temporada, do Borussia Mönchengladbach.

Com Batteux, Herbin também passou a usar a braçadeira de capitão do Saint-Étienne. Mekhloufi era a principal liderança da equipe, mas bateu de frente com o treinador e acabou fazendo suas malas. Assim, o comandante elegeu o defensor “por ser um símbolo, não necessariamente o jogador mais habilidoso”. E, apesar do adeus do argelino, os Verts continuaram intocáveis no topo da tabela do Campeonato Francês. O tri veio de maneira um pouco mais apertada em 1968/69, a dois pontos do Bordeaux. Já o tetra se consumou com a tranquilidade de mais 11 pontos de sobra, com somente três derrotas na campanha e 88 gols marcados. Na Champions, a classificação sobre o Bayern de Munique durante a primeira fase criou esperanças, mas o Legia Varsóvia seria algoz nas oitavas. O consolo ficou a mais uma Copa da França em 1970, celebrada com goleada por 5 a 0 sobre o Nantes na decisão.

Aos 31 anos, Herbin já não tinha mais o que provar. Após despedir-se da seleção nas eliminatórias da Euro 1968, o capitão se dedicava completamente ao Saint-Étienne e mantinha uma reputação imensa no Campeonato Francês. Já era visto como um potencial treinador para o futuro, dada sua própria relação com Batteux e o entendimento tático evidente também em campo. A troca de posto, ainda assim, aconteceu mais rápido do que se pensava. Os Verts caíram de produção e ficaram a quatro pontos de conquistar o penta em 1970/71. Já na temporada 1971/72, alcançaram apenas a sexta colocação. Batteux tinha seus atritos com o presidente Roger Rocher, que avaliava o sistema de trabalho aplicado pelo treinador como “muito brando”. Batteux mantinha liberdades aos atletas e, assim, perdeu o emprego. Seu substituto? Robert Herbin.

Herbin tinha 33 anos, 17 deles vividos dentro do Saint-Étienne, quando recebeu o convite para se tornar treinador. O ídolo pendurou as chuteiras após 513 partidas e 101 gols vestindo a camisa alviverde. E, por mais que já conhecesse o ambiente, também iniciaria uma mudança de rumos, com importantes reforços ao Geoffroy-Guichard. Novatos como Gérard Janvion, Dominique Bathenay, Christian López, Jacques Santini e Dominique Rocheteau ganhavam espaço, numa equipe que mantinha alguns símbolos do tetra e também se valeu de reforços estrangeiros – mais notavelmente, o zagueiro argentino Oswaldo Piazza e o goleiro iugoslavo Ivan Curkovic. A recuperação ocorreria rapidamente e, em sua segunda temporada à beira do campo, Herbin liderou os Verts a mais um título nacional. Foram oito pontos de vantagem para celebrar o Francesão 1973/74.

Herbin tinha um estilo particular como técnico. Ganhou o apelido de “Esfinge Ruiva” por seguir extremamente calmo e impassível à beira do campo. Não era dos treinadores a se exaltarem durante as partidas e evitava os holofotes ao seu redor. Em compensação, mantinha sua proximidade dos jogadores e dava boas entrevistas à imprensa, com respostas bem ponderadas. A simplicidade era uma de suas marcas, o que construiu fortes laços dentro do Saint-Étienne ao longo daqueles anos. Já em campo, via-se um time disciplinado e com imenso preparo físico, fruto dos extenuantes treinamentos propostos por Herbin. A solidariedade era a palavra de ordem a uma equipe que, mesmo sem ser tão ofensiva quanto em outros tempos, seguia jogando para frente. E que se tornou mais competitiva além das fronteiras.

A temporada de 1974/75 seria especial a Robert Herbin. O treinador conduziu o Saint-Étienne a mais um título do Campeonato Francês, outra vez com folga na tabela. Os Verts, ao mesmo tempo, apresentavam seu potencial nos torneios da Uefa e alcançavam as semifinais da Champions. Eliminaram Sporting, Hajduk Split e Ruch Chorzów, antes de sucumbirem ao favorito Bayern. E o veterano até se deu o gosto de reaparecer em campo naquela temporada, disputando a rodada final do Francesão contra o Troyes – que o permitiu também anotar um gol, encerrando de vez sua trajetória nos gramados.

A sede de vitórias do Saint-Étienne parecia não se encerrar. Em 1975/76, os Verts celebraram o tricampeonato francês, superando uma disputa um pouco mais parelha com o Nice. E o sonho de consagrar o esquadrão escapou por pouco na decisão da Champions. Copenhague, Rangers, Dynamo Kiev e PSV foram as vítimas na caminhada até o Hampden Park. O Bayern de Munique, mais uma vez, estaria no caminho de Herbin. Os franceses fizeram uma grande partida contra o esquadrão alemão-ocidental, mas não evitaram o tricampeonato de Franz Beckenbauer e companhia. Foram duas bolas na trave do Sainté quando o placar ainda estava zerado, antes que Franz Roth desse o triunfo por 1 a 0 aos bávaros. Apesar das lágrimas, os perdedores foram aplaudidos pelos 30 mil franceses presentes em Glasgow e até desfilaram em carro aberto na volta para casa.

Herbin não conseguiu repetir o tetra de seus tempos como jogador, quinto colocado no Francês de 1976/77, mas manteve a sequência vitoriosa ao conquistar a Copa da França. E mesmo a queda de desempenho na temporada seguinte não impediu que quatro de seus jogadores fossem titulares da seleção francesa na Copa do Mundo de 1978. A retomada do Saint-Étienne ocorreria a partir desses convocáveis, bem como de contratações badaladas como Michel Platini, Patrick Battiston e Johnny Rep. Foram duas terceiras colocações consecutivas até mais um título do Campeonato Francês em 1980/81 – o nono de Robert Herbin, seu quarto como treinador.

Com Platini centralizando a armação e contribuindo com muitos gols, além da valiosa experiência de Rep, o Saint-Étienne superou o Nantes por dois pontos no topo da tabela. A equipe também chegou à decisão da Copa da França, derrotada pelo Bastia, e eliminou o Hamburgo na Copa da Uefa, até ser parada pelo Ipswich Town nas quartas de final. A goleada por 5 a 0 sobre o ótimo time dos alemães-ocidentais no Volksparkstadion está entre as grandes exibições de um clube francês nas copas europeias. Entretanto, a fortuna não se manteria.

Vice no Campeonato Francês e na Copa da França em 1981/82, o Saint-Étienne sofreu uma derrocada instantânea. Cinco jogadores do clube entraram em campo pela seleção francesa na Copa do Mundo de 1982 e, consequência da boa campanha, a Juventus levou Platini para a endinheirada Serie A. Como se não bastasse, os Verts entraram em uma profunda crise política. A imprensa local revelou um esquema ilegal aplicado pela diretoria, em que pagavam os jogadores por fora (sem impostos) para segurar os seus destaques. O próprio Herbin era um dos beneficiados. Por conta do escândalo, o presidente Roger Rocher deixou seu cargo após quase duas décadas. Herbin também ficaria pouco e, sem engrenar no Francês de 1982/83, despediu-se do clube no meio da campanha.

A carreira de Herbin seguiu por um caminho que pouco se esperava a um símbolo do Saint-Étienne. Naquela mesma temporada, ele assumiu o rival Lyon. Não evitou o rebaixamento dos Gones e, inclusive, se encontraria com os Verts na segundona a partir de 1984. O veterano também dirigiu Al-Nasser e Strasbourg, antes de retornar ao Geoffroy Guichard em 1987. Contudo, neste momento o Saint-Étienne estava distante das glórias passadas e terminar o Campeonato Francês na quarta colocação já seria um grande feito ao técnico. Sua última passagem pelo clube se encerrou em 1990, antes de ficar mais quatro anos à frente do Red Star Paris na segunda divisão. Nada que se comparasse aos anos áureos com os Verts.

Nas últimas décadas, Herbin voltou a morar na região de Saint-Étienne, onde podia receber o carinho dos torcedores alviverdes. A cabeleira ruiva, uma marca de seus tempos como jogador, seria preservada ainda por muitos anos. A lenda perderia apenas sua batalha ao tabagismo e ao álcool, em série de problemas que ocasionaram sua morte nesta segunda-feira – sem ligação direta com o coronavírus. As homenagens tomaram as redes sociais do Sainté durante as últimas horas, reconhecendo a grandeza do ídolo. Raríssimos puderam se considerar um sinônimo de vitórias como Robert Herbin.