Ser convidado para treinar Barcelona e Real Madrid em momentos distintos da carreira é algo que, por si, já deveria atestar a excelência de um técnico. Radomir Antic extrapolou a honraria de viver a rivalidade em seus dois lados e foi o único comandante na história do futebol espanhol a dirigir o trio de ferro do país. E, emblematicamente, as maiores glórias do treinador aconteceram onde são mais raras, mas também mais saborosas: em 1995/96, o Atlético de Madrid contou com um time que marcou época sob as ordens do sérvio. Conquistou La Liga e a Copa do Rei de uma só vez, exibindo ainda um futebol letal e de vários destaques individuais. Pela maneira como encheu os olhos naqueles meses, Antic se perpetuou como uma figura influente na Espanha.

De zagueiro com uma carreira notória a treinador bem-sucedido, Antic conquistou um respeito amplo no futebol. Ainda teve o gosto de trabalhar em outros clubes tradicionais, sobretudo na Espanha, e de dirigir a seleção da Sérvia em uma Copa do Mundo. Ao se afastar do campo, permaneceu no esporte como comentarista no rádio e nos jornais. Já nesta segunda-feira, a notícia de seu falecimento gerou comoção entre aqueles que admiravam seu trabalho. Aos 71 anos, Antic vinha lutando contra um câncer e não resistiu à doença. Uniu nomes das três forças espanholas e de tantos outros cantos, nas homenagens durante o adeus.

Nascido na antiga Iugoslávia, Antic começou sua relação com o futebol logo cedo e iniciou sua carreira no Sloboda Uzice. Zagueiro bom no jogo aéreo e de razoável qualidade técnica, o sérvio acabaria pinçado pelo Partizan Belgrado em 1968, aos 20 anos. Foram oito temporadas no clube da capital, o que lhe garantiu certa reputação na liga local e uma aparição pela seleção, durante amistoso contra a Hungria em 1973. Como reserva no clube, conquistaria o Campeonato Iugoslavo pela primeira vez em 1975/76, sua última temporada com os alvinegros. Logo depois, se transferiria ao Fenerbahçe.

Antic jogou em Istambul por duas temporadas, auxiliando na conquista do Campeonato Turco em seu segundo ano. Já em 1978, assinou com o Zaragoza. Começaria ali a sua relação com a Espanha, em duas campanhas nas quais os blanquillos se contentaram em escapar do rebaixamento. Já o final da carreira como zagueiro aconteceu na Inglaterra, vestindo a camisa do Luton Town. Antic passou quatro anos Kenilworth Road, contribuindo ao acesso dos Hatters à primeira divisão. Inclusive, anotou um gol simbólico contra o Manchester City no confronto direto da rodada final de 1982/83, que evitou o rebaixamento do Luton no Campeonato Inglês.

Enquanto seguia na ativa com o Luton Town, Antic concluiu seus estudos para virar técnico em Belgrado. Era um apaixonado pelos esportes, que também mantinha amizade com treinadores de basquete, se entusiasmava com xadrez e não perdia um jogo de seus compatriotas no tênis. Após a aposentadoria em 1984, o iugoslavo retornou ao seu país e iniciou a carreira com a prancheta no próprio Partizan. O ex-zagueiro treinou os juvenis e atuou como assistente na equipe principal. Já em 1988, surgiu a primeira oportunidade como treinador principal. O renomado Vujadin Boskov havia sido o comandante responsável por contratar Antic ao Zaragoza em 1978 e, consultado pela diretoria dos blanquillos, também recomendou seu pupilo para assumir a casamata em La Romareda. O clube espanhol não se arrependeria da aposta.

As experiências de Antic em diferentes países influenciaram bastante as suas ideias como treinador. Comandante do Luton Town, David Pleat ajudou a moldar parte do estilo do iugoslavo, sobretudo em relação à formação tática. Antic geralmente optava pelo 4-4-2, com linhas defensivas mais rígidas para ajudar na proteção. Em compensação, a mentalidade de um futebol ofensivo e pautado nas qualidades individuais, tão corrente nos Bálcãs, era outra marca evidente em seus trabalhos. Assim, unia uma marcação bem organizada e transições com liberdade na movimentação. Entre os contra-ataques letais e muita força nas bolas paradas, encontrou sua fórmula do sucesso.

Logo em sua primeira temporada à frente do Zaragoza, Antic levou a equipe à quinta colocação no Campeonato Espanhol. Após flertar com o rebaixamento nas primeiras rodadas, o time protagonizou uma grande arrancada e terminou com a classificação à Copa da Uefa. Liderados no meio-campo por Juan Señor, veterano da seleção, os blanquillos viram alguns jovens valores florescerem no período – a exemplo de Miguel Pardeza, Juan Vizcaíno e Francisco Villarroya, além do goleiro José Luis Chilavert. E não foi a nona colocação na temporada seguinte, ainda assim uma campanha respeitável, que abalou o reconhecimento a Antic na Espanha.

Pelo contrário, a maior prova do moral que o técnico sustentava no país veio em março de 1991. O Real Madrid não fazia uma temporada satisfatória em 1990/91 e havia trocado de comando duas vezes. Após as saídas de John Toshack e Alfredo Di Stéfano, Antic recebeu o convite dos merengues para as 11 últimas rodadas de La Liga, logo após a eliminação ante o Spartak Moscou nas quartas da Champions. O interino perdeu seus dois primeiros jogos e a equipe chegou a ocupar décima colocação. Em compensação, com uma invencibilidade de nove partidas e oito vitórias neste período, os madridistas arrancaram ao terceiro lugar. As vitórias sobre Atleti (algoz na Copa do Rei) e Barça (já campeão) referendaram a permanência do técnico.

O período de Radomir Antic no Estádio Santiago Bernabéu não seria dos mais simples. O Barcelona treinado por Johan Cruyff começava a formar seu Dream Team e, com aquele título em 1990/91, rompeu o pentacampeonato consecutivo dos merengues. Enquanto isso, surgiam questionamentos sobre a histórica Quinta del Buitre, que protagonizou a era dominante do Real Madrid. O treinador conquistaria a confiança dos veteranos em seu elenco, entre o constante diálogo e a franqueza nas palavras. Recuperaria o moral de nomes lendários, como Emilio Butragueño, Míchel e Manolo Sanchís. Seria ele também o responsável por transformar Fernando Hierro em meio-campista. Luis Enrique, trazido do Sporting de Gijón, foi outra de suas apostas.

Em sua segunda temporada no Bernabéu, Antic parecia oferecer outro clima ao clube. O Real Madrid começou La Liga 1991/92 com tudo, ao conquistar 12 vitórias nas 13 primeiras rodadas, empatando apenas o clássico contra o Barcelona. A equipe também sobrava na Copa da Uefa e avançou nas três primeiras fases, se garantindo nas quartas de final. O problema começou entre dezembro e janeiro, quando o ritmo caiu e os merengues passaram a acumular tropeços. Ainda assim, o time estava vivo em todas as competições e liderava o Espanhol. Nada que evitasse a intempestiva decisão do presidente Ramón Mendoza em demitir seu treinador.

A gota d’água para Antic aconteceu no Mestalla, onde o Real Madrid cedeu a virada por 2 a 1 ao Valencia nos últimos minutos. O treinador ainda ficaria por mais um jogo, encerrando o primeiro turno de La Liga com vitória sobre o Tenerife, quando a presidência anunciou sua saída. A solução já estava em casa: meses antes, Leo Beenhakker havia retornado ao clube no cargo de diretor esportivo. Comandante em três dos cinco títulos nacionais faturados pela Quinta del Buitre, o holandês assumiu os merengues. A temporada, de qualquer forma, não seria feliz. Na última rodada, o Real perdeu para o Tenerife e deixou a liderança escapar, permitindo o bicampeonato do Barcelona. Os madridistas ainda caíram nas semifinais da Copa da Uefa ante o Torino e perderam a final da Copa do Rei em casa para o Atleti.

Antic ficaria marcado como um dos treinadores mais injustiçados da história do Real Madrid, em lista razoavelmente extensa. Nas três temporadas seguintes, o iugoslavo dirigiu o Real Oviedo, então um costumeiro figurante na primeira divisão do Campeonato Espanhol. Durante a primeira campanha, ao chegar no meio da campanha, o treinador se deu por satisfeito ao evitar o rebaixamento. Depois disso, emendaria dois honrosos desempenhos que valeram a nona colocação aos Azules. O zagueiro Antonio Rivas e o atacante Carlos Muñoz eram os esteios naqueles times, que também contavam com ampla presença de jogadores dos Bálcãs, incluindo Slavisa Jokanovic e Roberto Prosinecki.

Uma nova chance em alto nível não tardaria a Radomir Antic. Bem cotado por superar as expectativas à frente do Oviedo, o iugoslavo assinou um pré-contrato com o Valencia em 1995, mas mudou de ideia ao receber o convite para assumir o Atlético de Madrid. O momento nem era muito favorável aos colchoneros, que vinham em queda franca e, em 1994/95, encerraram La Liga apenas um ponto acima da zona dos playoffs contra o rebaixamento. Todavia, também havia um elenco de potencial no Vicente Calderón, que incluía nomes como José Luis Caminero, Kiko, Diego Simeone e ganharia mais reforços.

O mercado do Atlético para a temporada 1995/96 seria bastante movimentado. Antic contava com uma base ao seu time e adicionaria novas peças. Para o gol, José Francisco Molina substituiria o veterano Abel Resino e logo cairia nas graças da torcida. Para a beirada do campo, chegou Milinko Pantic, um meia de carreira obscura que gerou indagações, mas veio com o aval do treinador que trabalhara com a antiga revelação do Partizan Belgrado. Já ao ataque, sem acertar com o promissor Fernando Morientes, o Atleti recorreu a Lyuboslav Penev, que parecia ter deixado para trás seus melhores anos no Valencia, sobretudo após se recuperar de um tumor nos testículos. Seriam três atletas-chave aos rojiblancos.

O Atlético de Madrid superou, e muito, os prognósticos a partir da chegada de Antic. A equipe não demorou a se encaixar e a exibir um futebol tão eficiente quanto fatal. Invictos nas 12 primeiras rodadas de La Liga, com nove vitórias e três empates, os colchoneros se estabeleceram na primeira colocação. O Real Madrid até quebraria a sequência no dérbi do primeiro turno, o que não seria suficiente para os merengues competirem, longe de seu melhor momento. Nem o Barcelona, atravessando um período de transição, teria forças. Com um estilo de jogo voraz, o Atleti liderou o campeonato praticamente inteiro e, mesmo caindo um pouco de rendimento no segundo turno, levou a taça. Os campeões somaram quatro pontos a mais que o vice, o Valencia. Além do mais, anotaram 75 gols e sofreram apenas 32.

Paralelamente, o Atlético também ampliou sua glória ao faturar a Copa do Rei. A campanha dos colchoneros teve um grande momento na ida das semifinais, quando viraram para cima do Valencia e anotaram 5 a 3 dentro do Mestalla, com seus cinco gols apenas no segundo tempo. Já na decisão, o troféu seria garantido contra o Barcelona na prorrogação. Pantic determinou a vitória por 1 a 0. Antic comemorou em La Romareda, onde vivera momentos tão intensos em suas passagens pelo Zaragoza.

Um dos trunfos daquele time do Atlético de Madrid era sua equipe titular bastante sólida. Raras vezes a defesa tinha desfalques, com Molina no gol, além do quarteto formado por Geli, Solozábal, Santi Denia e Toni Muñoz. No meio, também um quarteto de intocáveis, com a sustentação garantida por Simeone e Vizcaíno, enquanto Pantic servia de arma nas bolas paradas e o craque Caminero ditava o ritmo da orquestra. Todos contribuíam bastante à construção ofensiva, inclusive com gols. Já na frente, Kiko se aproximava com qualidade e Penev dava a principal garantia de tentos aos colchoneros. Era uma daquelas escalações para recitar de cor e que simbolizava a grandeza do que construíra Antic.

Infelizmente, o período fantástico de Antic à frente do Atlético de Madrid durou pouco. A equipe não manteve a aceleração na temporada seguinte e, quando almejava tirar Ronaldo do PSV, terminou com o argentino Juan Esnáider no comando de seu ataque. Os colchoneros fecharam La Liga na quinta colocação. Já na Champions, mesmo após vencer o futuro campeão Borussia Dortmund na fase de grupos, o Atleti não resistiria ao fortíssimo Ajax na prorrogação das quartas de final. Gradativamente, os rojiblancos entraram em declínio.

Antic também teve sua responsabilidade pela queda acentuada do Atlético. O treinador entrou em rota de colisão com vários jogadores importantes – entre eles Penev, Simeone e Solozábal, que logo deixariam o Vicente Calderón. Para a temporada 1997/98, o Atleti já possuía um time razoavelmente renovado, no qual se destacaram Christian Vieri e Juninho Paulista. Nada que evitasse a modesta sétima colocação no Espanhol, com a semifinal na Copa da Uefa servindo de mero consolo. Ao final da temporada, Antic sairia para a contratação de Arrigo Sacchi.

O italiano não durou em Madri e, na reta decisiva de 1998/99, Antic retornou ao oscilante Atlético. Neste momento, seus maiores feitos acabaram restritos às copas, com mais uma semifinal na Copa da Uefa e o vice na Copa do Rei para o Valencia. O 13° lugar em La Liga, além de não corresponder ao nível de investimento da diretoria, prenunciava que o pior estava por vir. Claudio Ranieri assumiu o Atleti em 1999/00 e, quando o rebaixamento já era uma ameaça real, Antic voltou de novo para tentar salvar a lavoura. Desta vez nem ele conseguiu, sem vencer nenhum jogo nos 11 que dirigiu a equipe em La Liga.

Antic saiu antes do fim do campeonato, após o descenso ser consumado por antecedência. Molina, Santi Denia e Kiko eram os remanescentes em campo dos títulos de 1995/96, enquanto o caro elenco ainda tinha à sua disposição Carlos Gamarra, Jimmy Floyd Hasselbaink, Juan Carlos Valerón, Santiago Solari, José Antonio Chamot, José Mari, Celso Ayala e Joan Capdevilla. Aquela seria a terceira e última passagem do iugoslavo pelo Vicente Calderón. E outro golpe em sua reputação aconteceria em 2000/01, à frente do Oviedo durante todo Campeonato Espanhol, sem evitar um novo rebaixamento.

Em 2002/03, Antic ganhou a chance de trabalhar no Barcelona. As turbulências no Camp Nou eram enormes, após a segunda passagem de Louis van Gaal, e os blaugranas ocupavam o 15° lugar no Espanhol. O elenco sofria uma renovação, entre futuros craques ainda imaturos e um punhado de apostas frustradas. No papel, o time à disposição estava longe de ser ruim, mas não rendia conforme o esperado e o temor do descenso estava presente na Catalunha. Mesmo como interino, o treinador elevou o moral do clube.

A ascensão meteórica no Campeonato Espanhol seria suficiente para classificar o Barcelona à Copa da Uefa, com a sexta colocação. Além disso, a equipe alcançou as quartas de final da Champions, eliminada pela Juventus. Com Antic, os blaugranas tiveram um rendimento razoável, embora nada suficiente para garanti-lo à temporada seguinte. Ao menos, ficaram certas contribuições: Andrés Iniesta ganhou suas primeiras chances por La Liga, Xavi passou a atuar mais solto na armação, Victor Valdés virou titular na meta. Frank Rijkaard, substituto no cargo, tiraria proveito disso.

O último trabalho de Antic no futebol espanhol aconteceu em 2004, ao ser contratado pelo Celta no meio da temporada. Ficaria por apenas nove rodadas e, desenganados, os galegos terminariam rebaixados. Já em 2008, o técnico retornou ao seu país, para comandar a seleção da Sérvia. A equipe se superou nas Eliminatórias à Copa de 2010 e conquistou a classificação automática no Grupo 7, ao superar a França na corrida pela liderança, em chave que também contava com Áustria, Lituânia, Romênia e Ilhas Faroe. A passagem pelo Mundial da África do Sul seria razoável, apesar da queda na primeira fase. Os sérvios foram capazes de derrotar a Alemanha, mas se despediram cedo por conta das derrotas a Gana e Austrália.

Suspenso pela Fifa por criticar duramente a arbitragem após a eliminação contra a Austrália, Antic seria banido por quatro jogos e, durante o cumprimento da pena, terminou demitido da seleção pelo fraco início nas eliminatórias à Euro 2012. O veterano ainda trabalharia por breves períodos na China, antes de se afastar da casamata. Voltou a morar na Espanha e, durante os últimos anos, atuou como comentarista na Cadena SER e na Cope, duas das maiores rádios do país, além de escrever colunas ao jornal El Mundo. Foi seu último meio de transmitir o conhecimento acumulado no futebol.

Radomir Antic deixa esposa, dois filhos e quatro netos. Deixa também uma série de fãs do seu trabalho e torcedores que reconhecem a importância do que protagonizou nos gramados, principalmente na Espanha. Os tributos em La Liga, em especial no Atlético de Madrid, são notáveis desde este momento e deverão se repetir quando os jogos forem retomados no país. Simeone, que bebeu diretamente da fonte de inspiração, é talvez o maior defensor de seu legado.