O Atlético de Madrid contou com algumas de suas formações mais memoráveis ao longo dos anos 1960. Não era simples competir com o Real Madrid naquela época. Ainda assim, os colchoneros ergueram taças importantes, incluindo a Recopa Europeia e La Liga. Um nome frequente nas escalações rojiblancas neste período era o de Miguel Jones, seja qual fosse a posição escolhida. Polivalente, Jones foi um dos grandes nomes daquele Atleti, sobretudo quando atuava no ataque. E, nesta quarta, se torna mais um ídolo que o clube perde em meio à pandemia. Aos 81 anos, o veterano já vinha enfrentando um câncer e, segundo o jornal El País, não resistiu a uma pneumonia provocada pelo coronavírus.

Miguel Jones nasceu na então chamada Guiné Espanhola, a atual Guiné Equatorial, e se mudou à Espanha quando tinha cinco anos de idade. Em uma família com boas condições financeiras, cresceu em Bilbao, onde recebeu uma forte educação religiosa e cogitou se tornar sacerdote. Já no final da adolescência, Jones iniciou a faculdade de ciências econômicas. E foi justamente quando jogava bola na equipe estudantil que seus rumos mudaram.

Miguel Jones foi descoberto por Ferdinand Daucik, treinador três vezes campeão de La Liga, que na época comandava o Athletic Bilbao. Quando estava presente para ver uma partida de seu filho Yanko, também estudante, o tchecoslovaco se encantou com o talento de Jones e tentou levá-lo a San Mamés. Todavia, em tempos de regras internas bem mais rígidas, a diretoria do Athletic não aceitou sua admissão. O fato de ter crescido em Bilbao não foi levado em consideração e ele acabou rechaçado por não ter nascido no País Basco. O adolescente até disputou um amistoso com os leones, mas ficou nisso.

“Não joguei no Athletic porque não era basco. Dizem que me recusaram porque era negro, mas isso é besteira que a imprensa fala. Naquele mesmo ano, não assinaram com Pereda e Isasi, e ambos não eram negros. Que não inventem outras coisas, a razão é que não tínhamos nascido em Biscaia”, explicou Miguel Jones, em entrevista ao As anos depois, refutando a teoria de que o racismo preponderou na recusa. Poderia ter sido o primeiro negro da história do Athletic Bilbao.

Miguel Jones ganhou sua primeira chance aos 19 anos, levado pelo Barakaldo, clube basco que disputava a segunda divisão do Campeonato Espanhol. A passagem pelo time foi rápida, encerrada após o rebaixamento à terceirona. Em 1957, o atacante assinou com o Indautxu, outra equipe local que militava na segundona. E o novato chamaria atenção durante sua estadia por lá, liderando boas campanhas dos bascos. Anotou nove gols em sua primeira temporada, antes de acumular 15 gols na campanha seguinte e se tornar o artilheiro do elenco. Indicava que estava pronto a ser testado na primeira divisão.

Foi neste momento que aconteceu o reencontro com Ferdinand Daucik. Na época, o treinador comandava o Atlético de Madrid e mais uma vez confiou no potencial de Miguel Jones, contratando o jovem para reforçar o elenco à temporada 1959/60. Daucik pouco ficou no comando dos colchoneros, demitido após seis rodadas de La Liga. Para seu lugar, o clube trouxe José Villalonga. O novo técnico seria essencial ao desenvolvimento da carreira do jovem.

Miguel Jones disputou apenas uma partida por La Liga em 1959/60. O jovem de 21 anos só ganhou espaço na Copa do Rei, então disputada ao final da temporada. Centroavante titular dos colchoneros, o brasileiro Vavá ganhou férias antecipadas e o novato teve sua chance. Causou um impacto tremendo no torneio. Nas quartas de final, contra o Valencia, Jones anotou o gol da vitória dentro do Mestalla. Depois, nas semifinais, balançou as redes quatro vezes no embate contra o Elche. Já na decisão, o Atleti encarou o Real Madrid pentacampeão europeu. Alfredo Di Stéfano e Ferenc Puskás estrelavam o esquadrão merengue, apoiado por 100 mil no Bernabéu. Os rojiblanco, entretanto, conquistaram o título com a vitória por 3 a 1. Jones assinalou o segundo gol de sua equipe, que decretou a virada.

A partir de então, Miguel Jones se transformou em alternativa a Villalonga na escalação de seu ataque. A concorrência pela titularidade era tremenda, em linha de frente que ainda possuía à disposição Vavá, Joaquín Peiró, Enrique Collar, Adelardo e Mendonça. Jones participava como centroavante ou ponta, aproveitando todo o seu vigor físico para destruir as defesas adversárias. Assim, seria mais frequente no time durante a temporada de 1960/61, quando o Atlético conquistou mais um título na Copa do Rei, ao superar novamente o Real Madrid em pleno Bernabéu.

A melhor temporada de Miguel Jones no Metropolitano aconteceu em 1961/62, quando Vavá retornou ao Brasil e abriu espaço no ataque. Jones foi o artilheiro do time, contribuindo com 13 gols em 19 aparições por La Liga. E se a efetividade do jovem não levou os colchoneros além da terceira colocação no campeonato, a torcida pôde comemorar em outra frente, com seu primeiro título internacional na Recopa Europeia. Jones fez gols em todas as fases da competição a partir das oitavas de final. Balançou as redes de Leicester, Werder Bremen e Carl Zeiss Jena, antes de contribuir à vitória sobre a Fiorentina na finalíssima. Também seria convocado à seleção espanhola nesta época, mas sem entrar em campo.

Treinador do Atlético naquele momento, Tinte passou a aproveitar mais a capacidade física de Miguel Jones em outros setores e exibiu o máximo de sua polivalência. O atacante era escalado em diferentes faixas do campo, inclusive como zagueiro, oferecendo a mesma entrega. Todavia, a explosão inicial do jovem não se manteria na sequência de sua carreira. Titular absoluto em 1962/63, começou a conviver com a reserva e as lesões depois disso, tornando-se um nome esporádico nas escalações rojiblancas.

Miguel Jones, ainda assim, deu motivos à idolatria da torcida no Metropolitano. Era uma referência, em tempos de raros jogadores negros na Espanha. Em 1964/65, o atacante esteve presente em mais uma conquista da Copa do Rei. Já em 1965/66, faria parte do time que rompeu o pentacampeonato do Real Madrid em La Liga e encerrou o jejum colchonero no torneio que perdurou por 15 anos. Sob as ordens de Domingo Balmanya, o Atleti contava com o protagonismo de Luis Aragonés, que se tornaria também o melhor amigo de Jones. Dos mais antigos, nomes como Collar, Adelardo e Mendonça permaneciam na equipe.

Jones esteve em campo somente nove vezes naquela edição do Campeonato Espanhol, mas assinalou cinco gols. O atacante possibilitou vitórias importantes, mas nenhuma delas mais notável que no encontro com o Las Palmas. Em duelo válido pela penúltima rodada, Jones fez os dois tentos no triunfo por 2 a 0. Foi o último jogo do clube por La Liga no Metropolitano, antes da mudança ao Vicente Calderón. Aquele triunfo, combinado com a derrota do Real Madrid para o Barcelona, botou o Atlético na primeira colocação. A equipe comemoraria o título uma semana depois, ao bater o Espanyol, com Jones em campo.

Seria a penúltima temporada de Miguel Jones no Atlético de Madrid. Após mais um ano na capital, o atacante cogitou se aposentar, mas acertou sua transferência ao Osasuna em 1967/68. Aos 29 anos, participou de dez partidas pela segunda divisão e não evitou o rebaixamento dos rojillos. Por conta dos problemas físicos, penduraria as chuteiras precocemente. A partir de então, retornaria a Bilbao, onde viveu o restante de sua vida. Seria diretor do Indautxu durante 15 anos, além de receber homenagens constantes do Atleti. Deixou uma memória e uma história que não serão esquecidas pelos colchoneros.