A França se firmou entre as potências do futebol mundial a partir dos anos 1980. Que os Bleus já tivessem alcançado uma semifinal de Copa em 1958, com uma brilhante geração, a afirmação viria sob a tutela de Michel Hidalgo. O treinador elevou o nível dos franceses, que costumavam revelar ótimos jogadores, mas não exibiam tamanho poderio com a seleção. O treinador liderou Michel Platini, Jean Tigana e outras lendas a uma nova semifinal de Mundial em 1982. A campanha memorável na Espanha seria uma prévia do capítulo inédito escrito dentro de casa, na Euro 1984, com o título que consagrou todo um país. Hidalgo foi o maestro que, com músicos virtuosos, transformou os Bleus em orquestra e tocou uma das mais marcantes sinfonias já ouvidas na Europa. Seu time jogava por música.

Se pode ser considerado um dos maiores treinadores da história do futebol francês, a trajetória de Hidalgo não se resume “apenas” a este marco. Como jogador, o ponta habilidoso acumulou taças com equipes célebres de Stade de Reims e Monaco. Esteve presente na primeira final de Champions da história e, mesmo derrotado, anotou seu gol. Também foi representante dos futebolistas e presidiu o sindicato da categoria, deixando um legado importante à liberdade dos profissionais no país. E, depois de treinar a seleção por oito anos, ainda virou dirigente. O poderoso Olympique de Marseille que ascendeu no fim da década de 1980 também seria uma obra com sua participação, no cargo de diretor de futebol.

As façanhas de Hidalgo são extensas, ainda que nenhuma delas brilhe como a Euro 1984. E, neste momento particular, a França se despede de um dos grandes mentores de seu futebol. Aos 87 anos, o veterano lutava contra uma doença de longa data. Pôde comemorar seu aniversário no domingo, antes de falecer nesta quinta-feira, em Marselha. Segundo seus familiares, o óbito não teve relação com o coronavírus. Ainda assim, a pandemia atrapalha uma despedida à altura nos estádios franceses, a quem merece todas as honras pela história que construiu.

Hidalgo nasceu no extremo norte da França e cresceu dentro de uma família proletária. Seu pai era um imigrante espanhol que trabalhava na indústria metalúrgica, enquanto a mãe havia saído de Paris. Quando veio ao mundo, em março de 1933, Michel não estava sozinho: os pais também ganharam Serge, seu gêmeo idêntico. E, embora o irmão não tenha herdado todo o talento, as brincadeiras com bola nos subúrbios de Caen foram importantes para que ambos aprimorassem suas habilidades. Acabariam se tornando profissionais no futebol.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a família Hidalgo deixou brevemente sua casa, por conta da Batalha da Normandia. Voltariam ao final dos conflitos e logo os adolescentes iniciariam juntos sua trajetória nos gramados. Passaram primeiro pelo Espérance, antes de se juntarem ao US Normande, clube ligado à própria indústria metalúrgica de Caen. Faziam estrago nas categorias de base, até conquistarem o título regional com os juvenis. Em 1952, Michel saiu da cidade para defender o Le Havre. Serge ficaria mais dois anos em sua equipe, até assinar com o Rennes em 1954. Teria uma curta estadia nos rubro-negros, com poucas aparições, mas um título na segundona, antes de rodar por equipes amadoras.

A técnica de Michel o levaria muito mais longe. E não faltava malícia ao ponta direita, de dribles incisivos, além de muitos gols. Hidalgo permaneceu no Le Havre por duas temporadas, com boas aparições pelo Campeonato Francês. O novato se saiu tão bem que, apesar do rebaixamento de sua equipe em 1954, começou a temporada seguinte em um dos clubes mais poderosos do país: seria contratado pelo fortíssimo Stade de Reims, treinado por Albert Batteux – um dos melhores técnicos da história francesa.

Hidalgo não precisou de tempo para se tornar titular, mesmo cumprindo o serviço militar obrigatório na época. Compôs uma linha de ataque famosa ao lado de Raymond Kopa, Léon Glowacki, René Bilard e Jean Templin. Logo em sua primeira campanha, ergueria o troféu de campeão francês, com 11 gols em 23 aparições na Ligue 1 1954/55. Também deixaria ótima impressão em 1955/56, mesmo que o título não se repetisse. O Stade de Reims arrebentou mesmo na edição inaugural da Copa dos Campeões: após eliminar Aarhus, Vörös Lobogó e Hibernian nas fases anteriores, os alvirrubros encararam o Real Madrid na decisão.

Dentro do Parc des Princes, o Reims chegou a abrir dois gols de vantagem em dez minutos, antes de ceder o empate ao Real Madrid na sequência do primeiro tempo. Hidalgo retomou a dianteira aos franceses na segunda etapa, graças a uma cabeçada. Todavia, Marquitos e Héctor Rial buscariam a virada por 4 a 3, que selou o título merengue. O ponta permaneceria mais uma temporada na região de Champanhe, antes de ser contratado pelo Monaco em 1957. Na época, a equipe do principado começava a ganhar projeção e teria no camisa 7 uma de suas principais figuras durante a ascensão.

O Monaco se tornou o principal oponente do Stade de Reims no início dos anos 1960. Michel Hidalgo era uma das referências dos monegascos. Jogando um pouco mais recuado no meio-campo, o camisa 7 contribuiria decisivamente para que os alvirrubros colecionassem taças. A primeira celebração veio em 1960, com a Copa da França. Na temporada seguinte, o Monaco faturou o Campeonato Francês pela primeira vez em sua história. Já o ano inesquecível aconteceu em 1963, com a dobradinha nacional. Mais do que destaque individual, Hidalgo também se punha como uma liderança e usou a braçadeira de capitão.

Uma pena que aquele Monaco não se marcaria tanto além das fronteiras, com campanhas modestas na Champions. Da mesma forma, apesar do currículo recheado com os clubes, Hidalgo só disputou um amistoso pela seleção francesa. Ignorado por Batteux até 1960, sua primeira chance viria em 1962, durante um duelo contra a Itália. Não passaria de 45 minutos. Sua contribuição ficou mesmo aos monegascos, na ativa até 1966.

Ainda em 1964, Hidalgo assumiu a presidência da União Nacional dos Futebolistas Profissionais, substituindo Just Fontaine. Durante sua gestão, os jogadores romperam sua “escravidão” e os contratos passaram a ser negociados por um tempo determinado, sem que ficassem presos ao passe. Depois de uma longa luta da categoria, a vitória alcançada em 1969 foi significativa para a organização do esporte no país e serviu de exemplo a outros cantos do mundo. Além disso, também durante a passagem de Hidalgo pelo sindicato, os clubes ganharam permissão para usar patrocínios em suas camisas. Em 1965, o meia ainda participaria da fundação da FifPRO, a entidade internacional que representa os futebolistas.

Neste momento, Hidalgo já flertava com a carreira de treinador. Chegou a assumir o segundo quadro do Monaco, antes de encerrar sua passagem pela UNFP em 1969. Trabalhou como diretor técnico da federação regional, até ganhar o convite para integrar a comissão técnica da seleção francesa. Dirigidos pelo romeno Stefan Kovacs, que acabara de levar o Ajax a dois títulos na Champions, os Bleus apresentavam uma boa fornada de talentos, mas fracassavam em suas tentativas de se classificar à Copa ou a Euro. Hidalgo assumiu o cargo principal em 1976, quando completavam-se dez anos longe das competições internacionais, desde a aparição no Mundial da Inglaterra. Seria ele o responsável por encerrar o hiato.

A França não passou de fase na Copa do Mundo de 1978, mas estava de volta à vitrine. Seria um momento especialmente conturbado a Hidalgo, que sofreu uma tentativa de sequestro na véspera da viagem à Argentina. A ação política, que visava se contrapor à presença da seleção francesa em um país em plena ditadura militar, falhou quando um dos sequestradores derrubou a sua arma (descarregada) e o treinador a pegou, antes de fugir ao lado da esposa. Independentemente do episódio, não seria um Mundial simples aos Bleus, eliminados na duríssima chave que contava com Itália e Argentina.

Os franceses também terminariam fora da Euro 1980, superados por um ponto pela então campeã Tchecoslováquia nas Eliminatórias. Entretanto, ficava claro como uma geração promissora brotava no país, com vários jogadores promovidos e desenvolvidos no nível principal. Hidalgo seria capaz de tirar o melhor de seus comandados e, a partir do amadurecimento daquele elenco, levou os Bleus a momentos marcantes. A lapidação daquele grupo tem claríssima influência do técnico.

Hidalgo tinha um ideal de futebol ofensivo, dando liberdade de movimentação aos seus atletas e potencializando a qualidade técnica – de certa maneira, bebendo da fonte que experimentara com Batteux no Stade de Reims. O jogo refinado se viu em 1982 e 1984, sobretudo pelo quadrado mágico formado no meio-campo – com Michel Platini, Jean Tigana, Alain Giresse e Luis Fernández, quatro jogadores de criatividade e ótimos passes. Outros nomes históricos, como Maxime Bossis, Marius Trésor, Manuel Amoros e Dominique Rocheteau também atingiram outro patamar na seleção francesa sob as mãos do comandante. Era o chamado “futebol champanhe”.

“Para treinar a seleção francesa, é preciso ser apaixonado pelos Bleus, ter a preocupação com um jogo ofensivo, de belas jogadas, para mostrar ao mundo inteiro. Nós representamos um país”, dizia Hidalgo. “Nunca falava com meus jogadores sobre os resultados. Nunca! Sempre dizia para eles pensarem no jogo, que os resultados vinham por si. Como jogador, treinador ou torcedor, sempre tive essa ideia. E não quero passar por um poeta ou um estudioso”. O comandante era descrito pelos jogadores como alguém que olhava o lado humano do vestiário, sem precisar bancar o paizão. Gentil, mas também sincero. Assim ganhava confiança.

A campanha da França no Mundial de 1982 demorou um pouco a engrenar, mas a segunda colocação na primeira fase ajudou os franceses a caírem em um triangular mais acessível na etapa seguinte e eles deslancharam, sobretudo pela exibição de gala na goleada sobre a Irlanda do Norte. Já na semifinal, veio o célebre duelo contra a Alemanha Ocidental, que avançou nos pênaltis após o 3 a 3 em 120 minutos épicos. A França, ainda assim, tem direito de reclamar da entrada criminosa de Harald Schumacher em Patrick Battiston, que sequer rendeu o cartão amarelo ao goleiro adversário. Mesmo após a derrota para a Polônia na decisão do terceiro lugar, ficava claro que os Bleus poderiam mais.

E puderam, na Euro 1984, a competição que reconheceu o momento iluminado do futebol local. Coletivamente, a França gastou a bola, com cinco vitórias em cinco partidas. Exibiu um futebol convincente, construiu placares elásticos quando possível e também soube arrancar seus triunfos heroicos. Além do mais, Platini viveu a melhor campanha individual de um jogador na história da Eurocopa. Seus nove gols falam por si, entre lances magistrais e uma liderança arrebatadora. Hidalgo aproveitou ao máximo o elenco excepcional que possuía. Então, preferiu sair de cena e passar o bastão.

Logo após a Euro, Henri Michel passou da posição de assistente a treinador principal. Ouro nos Jogos Olímpicos de 1984, levou os Bleus a mais uma semifinal de Copa, em 1986. Hidalgo, por sua vez, chegou a ser convidado para atuar como Ministro dos Esportes e não aceitou. Seria diretor técnico da federação, antes de se tornar diretor de futebol do Olympique de Marseille a partir de 1986.

O dinheiro de Bernard Tapie jorrava no Vélodrome e Hidalgo tinha vários cheques em branco para contratar craques. Assim, iniciou a montagem do esquadrão que foi tetracampeão nacional, além de levar o inédito título da Champions à França em 1993. Também foi responsável pelo projeto do centro de treinamentos do clube. Sempre presente no trato público, Hidalgo ganhou o status de ídolo dos marselheses. Contudo, o veterano não participaria de todas as glórias do Olympique. Em 1991, deixaria o cargo. Posteriormente, entre os muitos problemas encarados pelo OM, teria seu nome envolvido em um escândalo fiscal nas contas da agremiação e seria condenado a pagar uma multa.

A partir da década de 1990, Michel Hidalgo deixou o futebol profissional, mas não se afastou completamente do esporte. Trabalhou por anos como comentarista e também como conselheiro da federação. Passou ainda rapidamente pela seleção da República Democrática do Congo, em empreitada que não superou alguns meses. Seu principal legado, de qualquer forma, já estava construído. E as homenagens seriam constantes, ainda em vida, até a notícia do falecimento nesta quinta.

Ao longo das últimas horas, as lembranças sobre Hidalgo foram inúmeras – não apenas de clubes e ex-jogadores, mas também de todos os que reconhecem as suas enormes contribuições ao futebol francês. Difícil encontrar alguém que, em quatro cargos diferentes, conseguiu ser tão relevante – e tão vencedor, em diferentes aspectos. As marcas são profundas.