O menino fechava os olhos e sonhava. Viajava naquele sonho acordado de tantos meninos – o sonho pintado com o verde da grama, embalado pelo som das torcidas, alimentado pela magia dos craques. No sonho, o menino virava mais um, como seus ídolos: escudo sobre o peito, onde pulsa mais forte a paixão. E qual é o menino que não sonha em defender o seu clube, em jogar no Maraca, em marcar um golaço, em vencer o rival? Milton Cunha Mendonça, o Mendonça, sonhou tudo isso. Transformou tudo isso em verdade, para, com a camisa do Botafogo, alimentar o sonho de outros meninos.

Alvinegro fanático, prata da casa, o meia se eternizou como o ídolo de uma geração. Era quem permitia aos botafoguenses o gosto de sonhar, em anos nos quais o time não ia muito além disso. Mendonça não conquistou títulos com o clube, a única parte não cumprida de seu sonho de menino. Da base aos profissionais, ficou por lá durante 14 dos 21 anos do jejum só rompido em 1989. Mas não dependeu de taças para encarnar como poucos o espírito do que é ser Botafogo. É daqueles que não dependem do brilho dos troféus para ter luz própria. Estrela que deixará saudades, ao falecer nesta sexta-feira, aos 63 anos, em complicações causadas após cair de uma escada na estação de trem Guilherme da Silveira, há cerca de dois meses.

Por essas linhas tortas que ninguém consegue explicar, Guilherme da Silveira estava presente na vida de Mendonça antes mesmo que ela fosse vivida. Foi no Estádio Proletário Guilherme da Silveira Filho, o popular Moça Bonita, que outro Mendonça contou sua história no futebol. Seu pai atendia pela mesma alcunha nos tempos de jogador, defensor do forte Bangu vice-campeão carioca. O velho Mendonça, porém, teve que abandonar a carreira jovem. Em 1951, aos 24 anos, uma dividida com Didi – então um ascendente talento do Fluminense – provocou uma fratura na perna do defensor e abreviou sua trajetória no futebol. Cinco anos depois nasceria Miltinho, o novo Mendonça, herdeiro dessa paixão pela bola.

Mendonça não demorou a se apaixonar pelo Botafogo, o mesmo clube que Didi ajudou a elevar de patamar. Quando garoto, seus espelhos eram Jairzinho e Paulo César Caju. Pois o sonho que os craques incutiram em sua cabeça permitiram que se tornasse um jogador diferente de seu pai. O adolescente atuava mais à frente, armando jogadas, mas também chegando à área para concluir. Tinha a malícia do drible, a ferocidade do chute, a inventividade do passe. Era um prodígio tão grande que, após começar na base do Bangu, pôde se mudar a General Severiano quando tinha 12 anos. O sonho crescia com a camisa alvinegra, mais perto de seus ídolos.

A chegada de Mendonça ao Botafogo aconteceu em 1968, exatamente o ano do último título antes da seca no Carioca. O garoto ganhou suas primeiras chances no profissional em 1975, momento em que o jejum incomodava bastante. E, na escassez cada vez maior de craques, seria ele o encarregado de assumir tal responsabilidade. A camisa alvinegra lhe caía muito bem, especialmente pelo quê de encantamento que sua técnica provocava. Mas não era isso que preenchia a lacuna de taças importantes, sempre faltando algo a mais para os botafoguenses saná-la.

Mendonça foi como um profeta do Botafogo durante a longa travessia no deserto. Sua habilidade era a luz que guiava os alvinegros na caminhada. Suas grandes atuações eram a esperança de dias melhores. Aquele menino que desde cedo sonhara com a Estrela Solitária, afinal, sabia melhor do que ninguém o que a espera significava. Era mais um botafoguense em campo, o mais identificado. A terra prometida, contudo, não seria alcançada tão cedo – nem por Mendonça e nem pelo Botafogo.

E Mendonça não vivia só de reconhecimento. Quando não estava bem, precisava lidar com as vaias. Certa feita, em 1980, perdeu a cabeça. Saiu fazendo gestos obscenos às arquibancadas e correu aos vestiários, descontrolado. Foi como contou à Placar, na época: “No vestiário, entrei chorando, atirei a camisa com violência no chão, pisei em cima e comecei a gritar: ‘Não jogo mais nessa merda de clube! Não jogo mais pra essa torcida!’. Sou caladão, de um jeito meio indolente, mas por dentro estou sempre em convulsão. Horas depois, entendi: era a reação natural de uma torcida que não vence desde 68. Só que se esquecem que eu também estou nessa – 12 anos sem título. Pensa que não sofro? Sofro mais que a maioria dos torcedores e conselheiros que se dizem botafoguenses. Porque eu, mesmo profissionalmente, sou Botafogo sem interesse – porque amo”.

Ao longo de 342 partidas e 118 gols, o sonho de Mendonça quando pequeno também virou realidade, é claro. E nunca tão real quanto naquele 19 de abril de 1981. Era dia de Maracanã lotado, de clássico contra o Flamengo, de jogo decisivo. Os rivais se enfrentavam pelas quartas de final do Campeonato Brasil, torneio do qual os rubro-negros eram os campeões vigentes. E se não buscaram o bicampeonato justo em seu ano mais imponente, a culpa é praticamente toda de Mendonça. Com dores musculares, o meia corria o risco de sequer entrar em campo. Não só entrou, como acabou com a partida.

Zico abriu o placar para os flamenguistas e Mendonça empatou, enquanto Jérson foi o responsável pela virada. Mas o melhor mesmo se daria já ao final, quando Mendonça pôde sacramentar a classificação por 3 a 1. Aplicou um drible em Júnior que é até sacrilégio tentar descrever. O lance que valeu a imortalidade ao botafoguense, mesmo sem títulos. “Só não desmaiei porque a minha condição física é muito boa. Mas é emoção para qualquer um desmaiar”, declarou o meia, ao Jornal dos Sports, logo após o clássico.

O Botafogo não superou o São Paulo nas semifinais do Brasileirão, num jogo de arbitragem contestada. Mendonça terminou a competição como vice-artilheiro, com 15 gols, apenas um a menos que Nunes. A estadia do botafoguense doente no clube se encerrou em 1982, quando ele aceitou uma proposta da Portuguesa. Boa parte da sequência de sua trajetória se desenrolaria nos clubes paulistas, com menção principal a Palmeiras e Santos, pelos quais superou as 100 partidas – também em anos de seca. A reta final da carreira seria mais itinerante, ainda que o meia tenha oferecido sua magia a algumas torcidas. Aposentou-se em 1996.

O retorno de Mendonça ao Botafogo como jogador nunca aconteceu. Mesmo depois do título carioca em 1989, encerrando o jejum, o armador não teria a chance de erguer um troféu. Sua maior conquista seria mesmo o reconhecimento de tanta gente que o considera o maior ídolo naquele período tortuoso. Ao longo da vida, o meia representou o Botafogo – também no amor incondicional e no sofrimento silencioso. Não é a falta de taças que o diminuiu, muito pelo contrário.

O melhor obituário possível sobre Mendonça, que você realmente deve ler, é este aqui, de Thales Machado, n’O Globo. Abaixo, também algumas edições antigas de Placar com reportagens sobre o ídolo botafoguense: