Marilene Dabus merece sempre ser mencionada por seu pioneirismo no jornalismo esportivo brasileiro. Ainda no fim da década de 1960, ela começou a desbravar a profissão e a enfrentar preconceitos para abrir portas a outras mulheres, numa área até então restrita aos homens. A mineira radicada no Rio de Janeiro se tornou a primeira repórter feminina no futebol do país, além de atuar posteriormente como colunista e comentarista. O apelido de “A Moça do Flamengo” acompanhou Marilene por décadas. No entanto, a exaltação à sua trajetória supera a mera relação com o clube do coração, do qual depois se tornou funcionária, e deve ser lembrada como uma referência às mulheres no futebol – sobretudo no dia de seu adeus. Aos 80 anos, Marilene faleceu nesta sexta, vítima de um câncer nas cordas vocais.

O conhecimento abriu portas a Marilene Dabus. Nascida na cidade mineira de Caxambu, em 14 de janeiro de 1940, a jovem começou a frequentar o Maracanã em 1952. Sobrinha de Caxambu, atacante campeão pelo Flamengo em 1939, ela começou a torcer inicialmente pelo Vasco. Entretanto, o tricampeonato carioca a partir de 1953 a levou a mudar suas cores e a adotar o Fla com toda a adoração. Marilene era figurinha carimbada nas cadeiras especiais do Maraca, além de também comparecer aos estádios nos subúrbios. Se não tinha companhia aos jogos, costumava encher seu carro de crianças carentes e as levava para as arquibancadas.

“O primeiro brinquedo que tive foi uma bola. Comecei a treinar com meu irmão, um ano mais novo, e aos 12 anos íamos juntos ao Maracanã torcer por um tio, o Caxambu. Aos 15 eu lia todas as colunas de esporte, ouvia os comentaristas, via os programas na TV e, quando em casa se discutia futebol, eu dava meus palpites. Eles achavam muita graça, mas depois se surpreendiam com os meus acertos”, contou, à Revista Manchete.

Por mais que já frequentasse as colunas sociais dos jornais, filha de uma família abastada que morava em Ipanema, Marilene começou a ganhar uma fama bem maior em 1968, quando participou do programa “Vença o Vencedor”, na TV Tupi, comandado pelo apresentador Blota Júnior. A atração misturava perguntas sobre conhecimentos gerais e outras sobre seu assunto escolhido: o Flamengo, é claro. Neste momento, tornou-se a “Moça do Flamengo”. Ela impressionava pela forma como conhecia o clube e superou etapas, se aproximando do prêmio máximo oferecido.

“Meu maior sonho é escrever uma coluna especializada sobre futebol ou debater em mesa-redonda na TV, com cobras no assunto”, confessava na época, ao Jornal do Brasil. “Hoje tenho absoluta certeza de que adoro futebol e descobri minha vocação: quero ser comentarista. Os homens? Bem, a reação deles é sempre de espanto: muitos ainda preferem elogiar o nosso cabelo, a maquiagem ou o vestido. Mas os cobras respeitam a minha opinião e os homens adoram conversar comigo sobre o assunto”.

A jornalista Danuza Leão, então casada com o dono do jornal carioca Última Hora, sugeriu ao esposo que contratasse Marilene. O célebre Samuel Wainer acatou a ideia e deu uma oportunidade para que a “Moça do Flamengo” trabalhasse em sua redação a partir de 1969. A repórter começou a frequentar o dia a dia dos clubes e da seleção brasileira, mostrando sua aptidão ao novo ofício. Dava notícias em primeira mão, logo marcando o seu nome nas páginas do periódico. Deslanchou depois de uma entrevista exclusiva com Pelé.

“Menina zona sul, cílios postiços, cabelos Jambert, minissaia e salto alto”, como ela mesmo se definia, Marilene Dabus enfrentou certa resistência de jogadores e dirigentes que a viam à beira do campo – além de ser alvo de cantadas. Nada que a fizesse desistir. Pelo contrário, com personalidade forte, respondia à altura. A revista Placar, em outubro de 1971, listava a mineira como uma das primeiras repórteres de campo do Brasil, ao lado da paranaense Malu Maranhão. Em São Paulo, na mesma época, a iniciativa pioneira era da Rádio Mulher – com uma equipe de narradora, comentarista e repórter, que trabalhava na transmissão das partidas.

Segundo Ruy Castro, em coluna recente na Folha sobre Marilene Dabus, não são poucas as façanhas profissionais da repórter: fez a primeira entrevista com Zico, ainda nos juniores; informou em primeira mão a demissão de João Saldanha às portas da Copa de 1970; denunciou a corrupção de um presidente do Flamengo, ganhando o processo travado com o cartola. Em 1971, a jornalista foi anunciada como grande contratação do Jornal dos Sports e assinava grandes entrevistas, além de uma coluna sobre o Flamengo, até assumir a coluna social. Também fazia o papel de entrevistadora no semanário O Pasquim. Trabalhou na Rádio Globo, na TV Tupi e na TV Continental. Seguiu nas redações dos jornais até 1972, passando a atuar mais na televisão a partir de então.

Marilene Dabus ainda se aproximou do Flamengo de outras maneiras depois disso. Ela participou da própria política rubro-negra, atuando diretamente na campanha de Márcio Braga à presidência. No fim dos anos 1970, a mineira passaria ao outro lado e assumiu o departamento de comunicação na Gávea. Durante a década de 1980, quando o Fla colecionava títulos e ampliava sua torcida ao redor do Brasil, Marilene também teve sua importância, contribuindo no trato com o público. Uma de suas iniciativas, por exemplo, foi leiloar a camisa 10 de Zico na final do Brasileirão de 1983 para angariar doações aos afetados pelas secas no Nordeste. Já o Baile do Vermelho e Preto, sua ideia para os Carnavais, passou a garantir uma renda importante ao clube e permitiu a renovação de vários contratos de jogadores.

Marilene seguiu atrelada ao Flamengo em diferentes funções nas décadas seguintes, inclusive como assessora da presidência e como conselheira administrativa – sendo, em 1998, a única mulher entre 99 homens na posição. Ela foi, inclusive, a responsável por sugerir o nome de “Ninho do Urubu” ao centro de treinamentos do clube. Já em fevereiro de 2009, a assessora de imprensa ganhou sua justíssima homenagem do Fla. A sala de imprensa no CT recebeu o nome de “Marilene Dabus”. Aos 70 anos, a “Moça do Flamengo” exibia o seu orgulho e sua satisfação com a lembrança. Foi a melhor maneira de se honrar sua trajetória ainda em vida.

Consciente das portas que abriu, Marilene também percebia como a caminhada permanecia longa às mulheres no jornalismo esportivo, como em entrevista ao Jornal do Brasil em 2007: “Acho que as mulheres ainda não ocuparam o espaço que abri. Existe muito preconceito nas editorias. Elas trabalham mais com esporte amador, não com futebol. No meu tempo, sofri bastante. Alguns jornalistas me depreciavam, dizendo que eu conseguiria minhas matérias por outros méritos. Mas desde a revolução feminista, era inevitável que a gente fosse ocupando espaço em todas as searas. Não só no meio do futebol”.

Já no final de 2019, às vésperas de completar 80 anos, Marilene ganhou o seu livro de memórias, escrito pelo jornalista Marcos Eduardo Neves e com o selo do Museu da Pelada. Não poderia ter outro título: A Moça do Flamengo. No entanto, a mineira lutava contra o câncer naquele momento e sequer pôde comparecer ao lançamento, realizado no salão nobre da Gávea. Felizmente, apesar do luto, sua história está preservada e pode ser reverenciada. A importância de Marilene se nota todos os dias por quem acompanha a cobertura esportiva em diferentes meios da imprensa brasileira. Suas herdeiras abrem cada vez mais portas.