Nome histórico de uma sólida defesa formada pelo Fluminense na virada dos anos 50 para os 60 e integrante da seleção brasileira que levantou o bicampeonato mundial no Chile em 1962, o ex-lateral-direito Jair Marinho faleceu na manhã de sábado em Niterói, aos 83 anos. O defensor de estilo vigoroso e duro na marcação, e que marcou época com a camisa tricolor, a qual vestiu em 258 partidas, não resistiu a um AVC sofrido no último dia 20.

Jair Marinho de Oliveira nasceu no dia 17 de julho de 1936 em Santo Antônio de Pádua, noroeste do estado do Rio de Janeiro. Ainda garoto, mudou-se para Niterói, começando a carreira de jogador no Fonseca, clube do bairro de mesmo nome onde ele próprio residia. Curiosamente, continuaria morando na cidade mesmo depois de se transferir para o Tricolor, fazendo todo dia a travessia de barca pela Baía de Guanabara.

O antigo estado do Rio de Janeiro – que representava a totalidade do atual, menos a capital – era então um celeiro de craques para os clubes cariocas e para o próprio futebol brasileiro, revelando jogadores como Zizinho, Didi, Garrincha, Jair Rosa Pinto, Pinheiro, Eli do Amparo, Orlando Peçanha, Amarildo, Paulo Henrique, Humberto Tozzi e Friaça, para citar apenas os que disputaram Copas do Mundo pela seleção brasileira até os anos 60.

Após fazer testes no Bangu e no Flamengo, mas não ficar em nenhum dos dois, Jair Marinho chegou a Laranjeiras ainda amador, aos 17 anos, levado pelo ex-atacante Adolfo Milman, o Russo. Nos primeiros anos, seria campeão carioca juvenil em 1955 e de aspirantes em 1957. Promovido ao elenco principal, logo precisou acrescentar o sobrenome para se diferenciar de seus dois homônimos do time: o médio Jair Santana e o ponta-de-lança Jair Francisco.

Sua estreia entre os titulares em competição oficial aconteceu em abril de 1958, no jogo contra o Santos na Vila Belmiro, o último da equipe pelo Torneio Rio-São Paulo daquele ano, quando, já sem chances de repetir o título levantado no ano anterior, o técnico Silvio Pirillo resolveu dar uma oportunidade ao jovem e vigoroso defensor na vaga de Cacá, o dono da lateral-direita tricolor na época, a quem o Fluminense havia contratado do America em 1955.

No meio daquela temporada de 1958, Cacá acabou vendido ao Botafogo, abrindo caminho para a permanência de Jair Marinho – lateral de baixa estatura (1,68 metro), mas muito robusto (73 kg) – na equipe titular. Também começava ali sua parceria nas laterais com outro novato tricolor, o niteroiense Altair. Os dois marcariam época nas Laranjeiras e seriam amigos próximos até o fim da vida – Altair faleceu em agosto do ano passado, aos 81 anos.

No ano seguinte, o Fluminense de Zezé Moreira levantaria o título carioca encerrando um jejum de oito anos com uma campanha impecável: 22 jogos, 17 vitórias, quatro empates e apenas uma derrota (1 a 0 para o Bangu no primeiro turno). A conquista foi confirmada na penúltima rodada após uma vitória de 2 a 0 sobre o Madureira no Maracanã. Jair Marinho foi titular em todos os jogos, impressionando pela regularidade.

O grande destaque daquela campanha foi a solidez defensiva: o time sofreu apenas nove gols, sendo três no último jogo (3 a 3 com o Botafogo), quando o título já estava mais do que assegurado. Era difícil passar por Castilho, Jair Marinho, Pinheiro, Clóvis e Altair, auxiliados pela combatividade de Edmílson, Paulinho e Telê no meio campo. Na frente, Maurinho, Waldo e Escurinho garantiam os gols e as vitórias.

O título carioca foi seguido por mais um do Torneio Rio-São Paulo, selado com vitória sobre o Palmeiras por 1 a 0 no Maracanã, no último jogo. Jair Marinho seguiu intocável na lateral, atuando em todas as nove partidas, incluindo a arrasadora goleada de 7 a 2 sobre o São Paulo, a vitória de virada sobre o Vasco por 3 a 2 e o triunfo sobre o Corinthians em pleno Pacaembu por 2 a 1. O Flu somou seis vitórias, dois empates e só uma derrota, para o Flamengo.

No restante da temporada, o Flu chegaria perto de novas conquistas, mas ficaria de mãos vazias. Na Taça Brasil – da qual participara como campeão carioca – passou pelo Fonseca, Cruzeiro e Grêmio, antes de ser eliminado na semifinal pelo Palmeiras. Já no Campeonato Carioca, chegaria à última rodada um ponto à frente do America, mas perderia o jogo decisivo para os rubros de virada por 2 a 1, desperdiçando a chance do bicampeonato.

O ano de 1961 marcaria as primeiras oportunidades de Jair Marinho na Seleção. Convocado como reserva de De Sordi para os dois jogos com o Paraguai válidos pela Taça Oswaldo Cruz, acabaria substituindo o lateral são-paulino no intervalo do segundo jogo, vencido pelo Brasil por 3 a 2 em Assunção. Logo seria alçado a titular nos dois confrontos contra o Chile em Santiago pela Taça Bernardo O’Higgins, em maio daquele ano.

Com o estreante Gerson vestindo a 10 de Pelé, o Brasil venceria ambos os jogos: 2 a 1 e 1 a 0. No segundo, depois de tanto assistir a Garrincha apanhar dos adversários, Jair Marinho resolveu bancar o justiceiro e acertou Leonel Sánchez. Acabou expulso pelo árbitro chileno Carlos Robles. Mesmo assim seu cartaz não diminuiu: ao fim daquela temporada, voltou a ser eleito o melhor lateral-direito do Campeonato Carioca, repetindo o que ocorrera em 1959.

Pré-convocado junto com Castilho e Altair para a fase de preparação da Seleção com vistas ao Mundial do Chile, acabaria incluído (assim como os companheiros de clube) na lista final. Com o veterano Djalma Santos ainda absoluto na posição, ele não atuaria na Copa – naquele ano, só vestiria a camisa canarinho num amistoso contra Gales no Maracanã –, mas escreveria seu nome na história do futebol brasileiro como um dos 22 que trouxeram o bi mundial.

No fim daquele ano, mesmo com o Fluminense terminando apenas em terceiro no Carioca, Jair Marinho voltaria a ser eleito o destaque da posição no campeonato. Marcador implacável, duro e vigoroso, envolvia-se em grandes duelos contra os ponteiros ofensivos do futebol carioca da época, como o rubro-negro Babá e o americano Nilo. E embora seu estilo dividisse opiniões, ele próprio veria sua carreira mudar de rumo após sofrer uma grave lesão.

Em 7 de março de 1963, num jogo contra o Botafogo pelo Rio-São Paulo, Jair Marinho levou uma entrada de Amarildo que provocou fratura exposta da tíbia direita, deixando-o inativo por vários meses. Semanas depois, a Seleção Brasileira seria convocada para uma excursão à Europa, na primeira lista desde o bicampeonato mundial no Chile. A lesão impediria que fosse chamado, colocando um ponto final em sua história no escrete.

Também no clube sua ausência implicou em perda definitiva de espaço: o Fluminense promoveu das categorias inferiores em caráter de emergência o jovem Carlos Alberto Torres, de apenas 18 anos, e o novato deu conta do recado, destacando-se a ponto de ser convocado para a Seleção já no ano seguinte. Além de se garantir na defesa, ele se mostrava mais adaptado à nova tendência da época, apoiando com mais desenvoltura que seu antecessor.

Com a ascensão do garoto, Jair Marinho migraria para o futebol paulista no fim de junho de 1964, vendido à Portuguesa por Cr$ 25 milhões. Na época, a Lusa vinha recrutando muitos jogadores do Rio, como os ex-flamenguistas Dida e Henrique Frade, os ex-botafoguenses Pampolini e Neivaldo, e até atletas que se destacaram em clubes menores, como o goleiro Orlando (ex-São Cristóvão), o meia Nair e o ponta-direita Almir (ambos ex-Madureira).

A aposta trouxe resultados: dirigida pelo técnico bicampeão mundial Aymoré Moreira, a equipe rubro-verde brigou cabeça a cabeça com o Santos de Pelé pelo título paulista daquele ano, perdido apenas no confronto direto da última rodada, no dia 13 de dezembro. A vitória do Peixe por 3 a 2 na Vila Belmiro foi decidida com gol de Pepe a dez minutos do fim. A Lusa terminou ainda com a defesa menos vazada do torneio.

No ano seguinte, porém, ele entraria em atrito com o presidente da Portuguesa, José Bizarro da Nave: o cartola o acusava de forçar a saída para o Corinthians, algo que o jogador negava. Sem ambiente no clube e treinando à parte do resto do elenco, Jair Marinho acabaria mesmo cedido ao Alvinegro em agosto daquele ano, numa troca pelo lateral-direito Augusto e pelo volante Amaro (ex-America do Rio e Juventus da Itália).

O lateral-direito estrearia pelo Corinthians numa partida emblemática contra o Guarani em 5 de setembro de 1965, pelo Paulistão. A vitória por 3 a 2 marcaria o primeiro gol de Rivelino num jogo oficial de competição pelo clube. No Parque São Jorge, ele participaria ainda da conquista do Rio-São Paulo de 1966, aquele que terminou dividido com Botafogo, Vasco e Santos por falta de datas, e da boa campanha no Torneio Roberto Gomes Pedrosa de 1967.

No fim de agosto de 1967, um grave acidente de automóvel sofrido quando voltava de Atibaia interrompeu sua trajetória no clube. Após se recuperar, seria emprestado ao Vasco no início de outubro, ficando em São Januário até o fim daquela temporada. Num péssimo ano para os cruzmaltinos, a passagem de Jair Marinho seria tão breve quanto malsucedida: foram apenas três jogos pelo Campeonato Carioca, com três derrotas e uma expulsão.

Sofrendo de problemas com o peso, peregrinaria por vários clubes, já no ocaso da carreira. Em 1968, teria uma experiência internacional defendendo o Alianza Lima. Após um tempo inativo, retornaria ao futebol carioca no início de 1970 como um dos reforços do Campo Grande, mas já em maio aceitaria a rescisão amigável do contrato. Voltaria então a Niterói, administrando a casa lotérica concedida como prêmio tardio pela conquista da Copa de 1962.

Ainda tentaria o recomeço no Canto do Rio – que também buscava voltar ao futebol profissional, do qual se afastara em 1964. O projeto não iria adiante, mas teria início ali a relação do ex-lateral com o clube, pelo qual seria homenageado em setembro de 2019 emprestando seu nome ao centro de treinamentos dos alvicelestes em São Gonçalo. Durante muitos anos, também ensinou futebol nas escolinhas do Praia Clube São Francisco, também em Niterói.

Neste final de semana, ante a triste notícia sobre Jair Marinho, diferentes clubes e a CBF manifestaram o seu pesar pelo veterano. O principal tributo veio do Fluminense, que usou uma fita preta em sinal de luto durante a rodada do Campeonato Carioca e guardou um minuto de silêncio no Maracanã. Familiares do antigo ídolo também estiveram presentes nas arquibancadas. Sinal de respeito a quem construiu uma história enorme com a camisa tricolor.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.