Décimo maior artilheiro da história do Flamengo, com 144 gols em 218 jogos, e um dos símbolos do time rubro-negro tricampeão carioca nos anos 1950, o atacante Índio faleceu neste domingo, aos 89 anos – por ironia, quando se comemorou o Dia do Índio. O centroavante ágil, valente e ótimo cabeceador também disputou a Copa de 1954 com a seleção brasileira e teve papel importante para a classificação do Brasil nas Eliminatórias para o Mundial seguinte.

Paraibano de Cabedelo, Aluísio Francisco da Luz nasceu em 1º de março de 1931 e veio para o Rio de Janeiro com apenas cinco anos, pouco depois de perder o pai, para morar em Madureira com o irmão mais velho, oficial da Marinha. O interesse pelo futebol foi despertado por volta dos dez anos, nos bate-bolas da escola, e logo transportado para as peladas nos subúrbios da então capital do país. A carreira de jogador, porém, surgiu por iniciativa própria.

Depois de passar por clubes amadores das Zonas Norte e Oeste da cidade, um dia o garoto botou as chuteiras debaixo do braço e seguiu para uma peneira no Aliados, equipe de Bangu que revelava garotos para as categorias de base do clube de mesmo nome do bairro. Ganhou a chance de treinar por meia hora como ponta-esquerda e agradou. No dia seguinte já estava inscrito para disputar o campeonato de juvenis pelo Bangu, onde ficaria até o fim de 1948.

A chegada à Gávea

Enquanto atuava pelas equipes de base do Bangu, Índio mudou-se para a ilha do Governador, onde seguiu jogando peladas pelos fortes times amadores do bairro. Em uma dessas ocasiões, num domingo, o jogo seria assistido por Togo Renan Soares, o Kanela, maior treinador da história do basquete brasileiro e que também tinha tido passagem pelo comando do futebol do Flamengo. Na segunda-feira, Índio era levado para seu primeiro treino na Gávea.

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O atacante disputaria as temporadas de 1949 e 1950 pelos juvenis rubro-negros, fazendo uma única partida pela equipe principal. Sua estreia viria em 20 de novembro de 1949, num amistoso contra o Tamoio, de São Gonçalo, no campo do adversário, que terminou empatado em 3 a 3. Índio deixou o dele. Naquele dia, porém, não teve a chance de atuar ao lado de seu grande ídolo, aquele a quem assistia com admiração nos treinos: Zizinho.

“A gente [os juvenis] não chegava perto dele, não. Ficava de longe só olhando. Eu ia para o campo nos treinamentos e ficava observando muito o Zizinho, não é? Como ele jogava… Passei até a imitar ele depois”, relembrou o atacante, em depoimento de 2011 ao projeto ‘Futebol, Memória e Patrimônio’, parceria da Fundação Getúlio Vargas com o Museu do Futebol. Porém, logo o Velho Mestre deixaria a Gávea rumo ao Bangu, numa controvertida transferência.

O Flamengo vivia uma longa e tortuosa fase de transição naquele fim dos anos 1940. A temporada 1950, a da saída de Zizinho, foi traumática: o time terminou o Campeonato Carioca apenas em sétimo lugar, fazendo uma das piores campanhas de sua história. Mas no início do ano seguinte, novos e melhores ventos começaram a soprar pelos lados da Gávea com a eleição do médico Gilberto Cardoso à presidência e a volta do técnico Flávio Costa.

Flávio, que deixara o clube em 1946 para comandar o Vasco, teve como uma das primeiras medidas no retorno ao Flamengo promover Índio dos juvenis. Sua estreia para valer no time de cima viria no Torneio Rio-São Paulo, em 18 de março de 1951, entrando no lugar do atacante Durval durante a vitória rubro-negra sobre o São Paulo por 4 a 2. O primeiro gol sairia três jogos depois, numa goleada de 6 a 3 sobre o Internacional em amistoso no Maracanã.

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E a afirmação do jovem atacante viria na primeira excursão do Flamengo à Europa, em maio e junho daquele ano, na qual o Rubro-Negro disputou dez partidas em Suécia, Dinamarca, França e Portugal, vencendo todas. Índio foi titular em todos os jogos e marcou seis gols, voltando ao Brasil já estabelecido como peça importante no elenco, que ganharia reforços como o do meia Rubens, cuja técnica refinada logo o transformaria em ídolo da massa.

O “Doutor Rúbis”, como a torcida o apelidaria, seria o aguardado substituto de Zizinho e estrearia no clássico diante do Vasco pelo primeiro turno do campeonato de 1951. O Flamengo tinha uma escrita a ser quebrada: há seis anos não derrotava os cruzmaltinos, que haviam vencido quase todos os confrontos no período. Mas naquele 16 de setembro a história começaria a mudar, graças, em parte, ao novo reforço, mas também a Índio.

Quando Maneca abriu a contagem para o Vasco, logo aos dez minutos, parecia que o tabu permaneceria. Só que, aos 20, Esquerdinha desceu pela ponta e cruzou, Barbosa saiu em falso e o centroavante gaúcho Adãozinho empatou para os rubro-negros. Na etapa final, enfim, a virada se concretizaria: Rubens lançou Índio, que arrancou sozinho no meio da defesa vascaína e tocou na saída do arqueiro para colocar um ponto final no longo jejum.

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O Flamengo terminaria aquele campeonato (vencido pelo Fluminense) na quarta colocação. Índio atuaria em 13 dos 20 jogos da equipe, anotando sete gols. Mas em 1952, ele veria seu espaço no time ser reduzido com a contratação do ponta-de-lança paraguaio Jorge Benítez, do Boca Juniors, para formar o centro do quinteto ofensivo rubro-negro com Rubens e Adãozinho. Porém, ao fim daquele ano, o comando do time sofreria mudanças.

Mesmo conquistando o título com seis pontos de vantagem sobre os vice-campeões Fluminense e Flamengo, o Vasco dispensou o técnico Gentil Cardoso e negociou o retorno de Flávio Costa, que tinha contrato com o clube da Gávea até o último dia de 1952. Como o campeonato daquele ano se estendeu até o fim de janeiro de 1953, os rubro-negros precisaram recrutar o ex-jogador Jayme de Almeida, velho ídolo e capitão, para dirigir o time interinamente.

A ascensão no início do tri carioca

Jayme comandaria o Flamengo nas quatro últimas partidas e traria Índio de volta ao time titular. O atacante retribuiu a aposta com gols. Anotou o tento rubro-negro na derrota por 2 a 1 para o America. Depois, fez três na goleada de 6 a 3 sobre o Botafogo. Outra tripleta viria nos 5 a 2 sobre o Bonsucesso. E na derradeira partida, ele marcaria o gol que iniciaria a virada do Flamengo por 3 a 1 sobre o Fluminense, começando muito bem um ano que marcaria sua carreira.

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Índio seguiria balançando as redes em amistosos e torneios no Rio, em outros estados e até no exterior. No fim de março, ainda sob o comando de Jayme de Almeida, o Flamengo levantaria o Torneio Quadrangular de Buenos Aires após empatar com o San Lorenzo (2 a 2) e com o Boca Juniors na Bombonera (1 a 1, gol de Índio), antes de derrotar o Botafogo por 3 a 0 no último jogo. Enquanto isso, o clube acertava com seu novo treinador.

Campeão sul-americano com a seleção de seu país no início daquele ano, o paraguaio Manuel Agustín Fleitas Solich revolucionaria o futebol do Flamengo – e, por tabela, o brasileiro. E Índio também se beneficiaria de sua chegada. Ao dispensar Adãozinho (centroavante manhoso, seis anos mais velho que o garoto paraibano e que havia sido reserva de Ademir de Menezes na Copa de 1950), Solich indicava ter planos para o novo dono da posição.

Índio era um atacante versátil. Podia atuar como centroavante “à húngara” – saindo da área para tabelar ou abrindo espaço na defesa adversária para a entrada de outros homens de frente – ou então como ponta-de-lança de estilo rompedor. Era também muito raçudo, lutava até o último minuto, o que o fez cair nas graças da torcida. Também era bastante rápido e ainda um exímio cabeceador. E além de tudo, era um jogador muito inteligente.

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Em suma, era um atacante de perfil ideal para o estilo de futebol veloz, solidário, valente e de muita movimentação pregado pelo treinador, que logo tratou de criar uma jogada mortal no ataque rubro-negro: a inversão de papeis entre Índio e o ponta-direita Joel. O centroavante caía por aquele flanco do campo, puxando a marcação e permitindo o avanço do extrema na diagonal. Bom chutador, Joel marcou muitos gols graças a essa combinação.

No Campeonato Carioca de 1953, Índio entraria no time na quarta rodada, na vitória de 4 a 0 sobre o Bonsucesso, jogo em que Benítez anotou os quatro tentos, alguns deles aproveitando os buracos abertos pelo centroavante na defesa adversária. Daí em diante, o paraibano atuaria em todos os outros jogos, nos três turnos da campanha que levaria os rubro-negros a reconquistarem o título que não venciam desde 1944. Seria o começo do segundo tri.

Formando a linha de frente com Joel, Rubens, Benítez e Esquerdinha, Índio terminaria o certame como o vice-artilheiro da equipe, com 18 gols – atrás apenas do paraguaio, que seria o goleador do campeonato. Muitos desses 18 foram anotados em clássicos e alguns marcantes pela beleza (como o sutil toque de cobertura sobre o goleiro Osni nos 3 a 1 sobre o America, no primeiro turno) ou mais ainda pela grande importância que tiveram na campanha.

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Saiu de seus pés o gol que iniciou a reação no duríssimo jogo contra o Olaria na Rua Bariri, vencido por 3 a 1 em virada épica nos minutos finais. Saiu de sua cabeça, numa disputa com Bellini, o tento de empate nos 3 a 3 contra o Vasco pelo returno, após os rubro-negros estarem em desvantagem de dois gols. E saiu de uma testada mortal o gol que iniciou a virada diante do Fluminense, valendo a primeira colocação na etapa inicial do certame.

Índio também deixaria o seu no jogo que confirmaria a conquista rubro-negra, uma goleada de 4 a 1 sobre o Vasco no dia 10 de janeiro de 1954. Esquerdinha abriu o escore para o Flamengo e o garoto paraibano fez o segundo, recebendo passe de Benítez e aproveitando falha do zagueiro Haroldo para concluir na pequena área. O time vencia ali o terceiro turno com uma rodada de antecipação e levantava o campeonato sem necessidade de finais.

Do Fla para a Seleção

As qualidades de Índio chamariam a atenção do técnico Zezé Moreira, que o observara de perto como treinador do Fluminense naquele Carioca e que agora assumiria o mesmo cargo na seleção brasileira para as Eliminatórias da Copa do Mundo de 1954. O atacante rubro-negro não chegaria a participar dos jogos classificatórios contra Chile e Paraguai (o dono da posição era o corintiano Baltazar, o “Cabecinha de Ouro”), mas entraria em campo nos amistosos.

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Após garantir a vaga, a Seleção enfrentou duas vezes o forte time colombiano do Millonarios, que contava com os lendários argentinos Néstor Rossi e Adolfo Pedernera, e venceu ambos os jogos. O primeiro, no Pacaembu, terminou em goleada por 4 a 1. E Índio, que entrara durante a partida no lugar de Baltazar, marcou duas vezes vestindo a nova camisa “canarinho”, a qual o Brasil havia estreado no início daquele ano, e confirmou ali sua presença no Mundial.

Na Suíça, o Brasil estrearia goleando o México por 5 a 0 e, em seguida, empataria com a Iugoslávia em 1 a 1. Não brilhava, no entanto: era acusada de jogar um futebol “engessado”, rígido demais. Para piorar, cruzaria nas quartas de final em Berna com a melhor equipe do torneio, a Hungria. Foi quando, pretendendo dar mais mobilidade ao ataque brasileiro, Zezé Moreira sacou Baltazar (tido como muito “estático”) do time titular e escalou Índio.

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Não foi o bastante para evitar a vitória magiar por 4 a 2, mas o centroavante do Flamengo foi um dos poucos a se salvarem no escrete canarinho: com os europeus já em vantagem de dois gols logo no início do jogo, ele sofreria o pênalti de Buzansky que Djalma Santos converteria para recolocar o Brasil no jogo e perturbaria a defesa húngara com sua movimentação intensa. Mas o time de Zezé Moreira não pôde com a força do adversário.

Após a Copa, Índio voltaria ao Flamengo para mais uma excelente temporada. Na campanha do bicampeonato carioca, ele ficaria de fora de apenas uma das 27 partidas dos rubro-negros e se sagraria o artilheiro da equipe, com 17 gols. A mira andou bem calibrada, em especial no início do torneio, quando balançou as redes oito vezes nas primeiras sete partidas – uma delas, a tarde de estreia do garoto Dida, uma vitória por 2 a 1 sobre o Vasco.

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E seria em outro 2 a 1 diante dos cruzmaltinos que a conquista seria confirmada, mais uma vez sem necessidade de finais, mais uma vez ao vencer o terceiro turno por antecipação e mais uma vez após a virada do ano, em 12 de fevereiro de 1955, uma semana antes do Carnaval, o que só faria emendar a festa rubro-negra. E mais uma vez, Índio deixaria o dele no jogo decisivo – o gol de empate que precedeu a virada, após Ademir ter colocado o Vasco em vantagem.

Os últimos momentos em vermelho e preto

Na campanha do tri, o atacante teria participação reduzida em relação às anteriores devido a uma lesão de ligamentos em um dos joelhos, ficando de fora do time por mais de dois meses. O mesmo problema também o tiraria mais tarde da melhor-de-três decisiva contra o America. Ainda assim, atuando em apenas 18 dos 30 jogos do time, anotaria expressivos 11 gols, num momento em que o ataque rubro-negro assistia à afirmação de novos nomes como Paulinho e Dida.

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Por vários motivos, o Flamengo não chegaria ao tetra em 1956. Perdeu alguns jogos fáceis por excesso de confiança. Em outros, foi prejudicado pela arbitragem. Mas sobretudo o elenco sentiu o desgaste provocado pela exaustiva campanha do tri: foram inúmeras as perdas por lesão de jogadores fundamentais para a equipe, como o zagueiro Jadir e o médio Dequinha. E mesmo Índio andou afastado por muitos jogos no primeiro turno da competição.

Pouco depois de retornar, porém, o atacante viveu fase espetacular. A começar pelos quatro gols marcados na absurda vitória por 12 a 2 sobre o São Cristóvão, em 27 de outubro, a maior goleada da história do Maracanã. No jogo seguinte, contra o Vasco, anotou um golaço que deu ao Fla uma dramática vitória por 1 a 0 aos 43 minutos da etapa final, chutando de virada, quase um voleio, reacendendo as esperanças da torcida naquela metade de returno.

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Dali até o fim do certame, ele ainda anotaria três contra a Portuguesa, dois contra o Bangu de seu ídolo Zizinho, outros dois contra o Olaria, marcaria o único gol na vitória no Fla-Flu do returno e deixaria outro nas redes do Canto do Rio, passando em branco apenas contra o America e o Botafogo. Seriam 14 gols em nove jogos – desempenho insuficiente, porém, para impedir o fim do sonho do tetra. E o título premiaria a regularidade do Vasco de Martim Francisco.

No entanto, o bom desempenho de Índio naquele Carioca o levaria de volta à Seleção no começo do ano seguinte, quando o novo técnico Oswaldo Brandão chamou o atacante ao Campeonato Sul-Americano de 1957, disputado no Peru entre março e abril. Reserva de um ataque que contava com os também rubro-negros Joel e Evaristo, mais Didi, Zizinho e Pepe, o paraibano entrou em quatro dos seis jogos do Brasil, marcando um gol nos 7 a 1 sobre o Equador.

As Eliminatórias de 1957

O título ficaria com os argentinos, mas Brandão seguiria à frente do escrete para as Eliminatórias da Copa do Mundo de 1958. Com a desistência da Venezuela, o Brasil teria somente o Peru como adversário no Grupo 1, em jogos marcados para Lima no dia 13 de abril e para o Maracanã, na volta, no dia 21. Com a despedida de Zizinho da Seleção, Índio herdaria seu lugar no time titular, voltando a formar dupla de área com Evaristo, seu colega de Flamengo.

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Os dois grandes destaques daquela seleção inca fariam carreira no futebol europeu. Um era o ponteiro Juan Seminario, que mais tarde defenderia Sporting, Zaragoza, Fiorentina e Barcelona. Outro era Victor Benítez, zagueiro e volante vigoroso que logo seguiria para o Boca Juniors e, de lá, para a Itália, onde passaria por Milan, Inter, Roma e outros clubes menores. Naqueles duelos de 1957, seria ele o encarregado de marcar Índio.

Com o Estádio Nacional de Lima abarrotado de torcedores empurrando a seleção peruana, o Brasil sofreu com a pressão inicial dos donos da casa, que abriram a contagem em gol de Alberto Terry e foram em vantagem para o intervalo. Na volta, logo aos dois minutos, viria o empate: Bellini cobrou falta no meio-campo com um chutão para a frente. A defesa peruana falhou na rebatida e Índio esticou a perna para encobrir o goleiro Asca.

“Agitado, mas trabalhador. Não deu trégua aos adversários. O ‘goal’ foi um justo prêmio à sua determinação”, avaliou o Jornal dos Sports, dando nota 8 à atuação do centroavante rubro-negro. Seu tento deixou o Brasil dependendo apenas de uma vitória simples no Maracanã para carimbar o passaporte para a Suécia. E ela viria pelo placar mínimo, na histórica falta cobrada por Didi logo aos dez minutos de jogo – e que teve origem numa jogada de Índio.

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“Eles [os peruanos] chegaram no Maracanã e jogaram a mesma coisa que jogaram no campo deles. Encurralando a gente lá dentro, não é possível. Aí eu peguei uma bola: ‘Tem que ser agora!’. Parti para cima do Benítez e dei um jogo de corpo nele, não é? Dei um drible nele, mas ele me deu um pontapé, me derrubou, aí foi falta ali, na entrada da área. Eu até peguei a bola para bater, mas o Didi falou assim: ‘Deixa comigo, Pantera’”, relembrou Índio em 2011.

Após seu segundo e derradeiro ciclo na Seleção, Índio voltaria ao Flamengo, pelo qual disputaria cinco partidas válidas pelo Torneio Rio-São Paulo de 1957, balançando as redes duas vezes: uma na goleada de 4 a 1 sobre o Botafogo e outra na vitória de 3 a 2 sobre o Palmeiras. Seriam seus únicos jogos e gols pelo clube naquela temporada. E a partida contra o Alviverde seria também a última de suas 218 em vermelho e preto, com 144 gols marcados.

A passagem pelo Corinthians

Brandão deixou o comando da Seleção após as Eliminatórias, mas não ficou sem o futebol de Índio: retornando ao Corinthians, fez com que o clube pagasse Cr$ 1,5 milhão ao Flamengo pelo atacante no início de julho de 1957, para a irritação de Fleitas Solich. No lugar do paraibano, o “Feiticeiro” efetivaria o jovem centroavante Henrique Frade, outro que entraria para a história rubro-negra como um dos maiores goleadores do clube em todos os tempos.

No Parque São Jorge, Índio logo se ambientaria e participaria da longa série de partidas sem derrota do Corinthians no Paulistão de 1957, o que valeu ao clube a posse da Taça dos Invictos. O título estadual, no entanto, escaparia. O Alvinegro chegaria ao penúltimo jogo sem ter sofrido nenhum revés nos 35 jogos anteriores, somando a etapa de classificação e a fase final do torneio. Mas tropeçou diante do Santos (1 a 0) e viu o São Paulo encostar na liderança.

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Um confronto direto contra o Tricolor decidira o título na última rodada. Do lado do São Paulo estava Zizinho, o ídolo de Índio, a quem o clube do Morumbi contratara do Bangu naquela temporada, já com seus 36 anos de idade, para tentar reconquistar o caneco. A experiência e a categoria do Velho Mestre fariam a diferença: no Pacaembu, o São Paulo venceria por 3 a 1, impedindo o Timão de reter a taça que vencera pela última vez em 1954.

Naquele Corinthians que começava a viver o ainda não tão latente jejum de títulos estaduais que chegaria a 23 anos, Índio atuaria até meados de 1959, disputando 99 partidas e balançando as redes expressivas 52 vezes, boa média de mais de um gol a cada dois jogos. Um deles viria no tumultuado dérbi pelo Torneio Rio-São Paulo de 1958: pouco depois das expulsões de Valdemar Carabina e Goiano, Índio decretou a vitória alvinegra por 2 a 1 no último minuto.

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Outro de seus gols mais expressivos seria marcado no exterior, mais precisamente na Espanha, onde o Corinthians derrotaria o Barcelona por 5 a 3 em pleno Camp Nou, num amistoso disputado em 24 de junho de 1959. Aquele tento – o terceiro do Alvinegro, que, com ele, passava à frente no placar – também acabaria tirando o atacante do clube paulistano. O Espanyol se interessou por ele e ofereceu um bom dinheiro, contratando-o para a temporada 1959/60.

A experiência europeia

Os Pericos contavam com poucos nomes de destaque no elenco. Um deles era o goleiro Vicente Train, que em breve chegaria à seleção da Espanha. Outro era um velho conhecido de Índio: o médio brasileiro Décio Recaman, ex-jogador do Bonsucesso. Na primeira campanha, o atacante – que se tornaria o primeiro negro a defender o clube em sua história – atuaria em 20 dos 30 jogos da equipe na liga, anotando nove gols e conquistando a torcida.

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Na temporada seguinte, com a saída de Vicente, o Espanyol deixaria de ter uma das defesas menos vazadas da liga e desceria duas posições na classificação final, do oitavo para o décimo lugar. Índio atuaria 17 vezes, marcando oito gols. Já na terceira, mesmo reforçado por veteranos como o húngaro Zoltán Czibor e o argentino Héctor Rial, o clube catalão terminaria em 13º lugar, tendo de disputar um playoff de descenso contra o Valladolid.

Na ida, no Sarriá, Índio anotaria de cabeça o gol da vitória dos Pericos. Mas na volta, o Valladolid venceria por 2 a 0, rebaixando os alviazuis. Na segundona, em 1962/63, o brasileiro atuou só seis vezes, marcando dois gols na campanha do retorno à elite. Em seguida, entraria em litígio com o clube, que desejava sua naturalização para abrir uma vaga de estrangeiro no elenco, e perderia toda a temporada 1963/64. Aos 33 anos, já pensava em parar, mas mudaria de ideia.

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Persuadido por um amigo treinador que conhecera na Espanha, Índio seguiu para o Sanjoanense, pequeno clube do norte de Portugal que até ali havia disputado praticamente todas as suas temporadas na segunda divisão nacional. Com Índio, o clube saltaria do 11º lugar na campanha anterior para a terceira colocação. Insuficiente, porém, para o acesso – que seria garantido na campanha seguinte, já sem o brasileiro, mas com o título da categoria. 

Na volta ao Rio, o fim da carreira

Era hora de voltar ao Brasil e ao Rio, mas a decisão de pendurar as chuteiras acabou novamente protelada por algum tempo, atendendo a mais um pedido de amigo: o veterano treinador Gentil Cardoso comandava um America que vivia talvez a pior fase de sua história, em crise técnica e financeira, sem ter vencido nenhum jogo oficial naqueles nove meses que já iam de temporada. E bateu à porta do experiente atacante. Mas seria uma passagem curta.

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Índio faria apenas dois jogos pelo America, ambos pelo Carioca de 1965. No primeiro, contra o Fluminense no Maracanã, em 10 de outubro, abriu o placar logo aos cinco minutos de jogo, mas o frágil time americano não resistiria e permitiria a vitória tricolor de virada por 5 a 3. Sua segunda e última partida – e a derradeira de sua trajetória – viria uma semana depois, curiosamente diante do Bangu, onde começara: empate em 1 a 1, também no Maracanã.

Mesmo após deixar os gramados, Índio não se distanciaria do esporte: trabalharia como professor de Educação Física em escolas da Zona Norte e da Baixada Fluminense, em escolinhas de futebol e também em projetos sociais, até se aposentar. Um de seus filhos, Frank, também chegou a ter rápida passagem pelo time profissional do Flamengo durante o Campeonato Brasileiro de 1986, atuando como lateral-direito e usando o mesmo apelido do pai.

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Em 2013, num evento na Gávea, Índio reencontraria velhos companheiros do tri, como Paulinho, Evaristo e Zagallo e ainda protagonizaria momento emocionante ao rever o amigo Esquerdinha, um dos veteranos daquele esquadrão, e que faleceria pouco tempo depois. Neste domingo, foi a vez de se despedir do maior goleador daquele tricampeonato histórico, o velho Índio arisco e raçudo, que faleceu de causas ainda desconhecidas.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal