Durante 13 anos, a zaga do Real Madrid teve seu xerife. Poucos adversários ousavam pentear a bola por ali, porque sabiam que a resposta dura não demoraria. Com seu bigode denso, Goyo Benito lembrava o policial mau dos filmes americanos. E “implacável” poderia servir de sobrenome ao beque, que não costumava perder viagem. Temido pelos rivais, o merengue também conquistou uma legião de fãs nas arquibancadas do Bernabéu. Reconheciam ali um jogador que sempre se entregava ao máximo e que fazia de tudo para honrar a camisa – mesmo que “tudo” incluísse bater e tomar pancadas. Benito somou 420 partidas oficiais pelo Real, 11 títulos e uma representatividade que não se mede, mas que se lembra em seu adeus, aos 73 anos. Fragilizado pelo Alzheimer, a antiga fortaleza madridista sucumbiu ao coronavírus.

Nascido na cidade de Toledo, Benito começou a jogar em clubes locais, até que o Real Madrid se tornasse o destino natural. Em 1963, aos 16 anos, o defensor rumou à capital e se juntou às categorias de base merengues. Quando chegou aos 20 anos, o clube optou por emprestá-lo ao Rayo Vallecano, onde ganhou tarimba entre os profissionais e disputou duas edições da segundona. Pronto ao primeiro nível, retornou ao Bernabéu em 1969. Seria jogador para encabeçar uma era ao madridismo.

Uma das claras virtudes de Goyo Benito estava em seu físico. O potencial atlético se exibia desde os tempos estudantis, quando chegou a ganhar medalhas no lançamento de dardo. E esse vigor também demarcaria o estilo do futebolista. Muito veloz, Benito aproveitava essa potência em suas antecipações. Além do mais, embora não fosse dos mais altos com seu 1,80 m, tinha uma presença de área que impressionava por sua impulsão. Uma parede de pedra bem na defesa merengue, que não se furtava a se chocar com quem desejasse atravessá-la.

Benito começou no Real Madrid como lateral esquerdo, mas logo ficou claro que sua firmeza era muito mais útil no coração da zaga. Miguel Muñoz, histórico treinador madridista, foi quem percebeu esta vocação e colocou o Leão de Toledo em seu habitat natural. Assim, ganharia o posto como titular desde a sua primeira temporada. Seriam 11 anos consecutivos como um nome absoluto nas escalações da equipe.

Benito estava distante de esbanjar qualidade técnica. A ele, o futebol era bem mais simples, um tanto quanto rudimentar. Seu gosto estava em jogar sem a bola, em caçá-la dentro de campo, nem que fosse preciso caçar também os atacantes adversários. Enveredando entre a valentia e a violência, o zagueiro se colocava como o pior marcador que um jogador habilidoso poderia esperar. As reações do beque eram imediatas, sobretudo com os carrinhos rasantes, sua marca registrada.

“Podem me chamar de ‘cavalo’ ou dizer que entro muito forte, mas minha intenção é sempre ir na bola”, dizia Benito, nem que para isso ficasse nos limites do regulamento. Cabe frisar, no entanto, que tal firmeza não significava necessariamente deslealdade. Pelo contrário, o zagueiro do Real Madrid não era de fazer inimigos além das quatro linhas. O que acontecia dentro de campo, ficava dentro de campo, por mais suor e sangue que custassem.

Biri Biri, do Sevilla, chegou suplicar: “Senhor Benito, por favor, não me pegue mais”. Outros pediam aos técnicos para que atuassem em uma faixa do campo diferente, só para não encararem o caubói pronto a um bom duelo. A primeira dividida era sempre um aviso ao oponente. “Essencialmente, eu me considerava um bom psicólogo. Às vezes, bastava olhar para o jogador que deveria marcar e já me dava conta que ele não ia arranhar a bola. Ganhar a primeira ação era fundamental, mas eu gostava de fazer uma consideração dialética. ‘Ei, estou impressionante hoje. Você não vai tocar a bola’, avisava”, declarou ao El País, em 1984.

Ou como confessaria José Eulogio Gárate, antigo ídolo do Atlético de Madrid: “Era como uma mola saltando e muito rápido nos carrinhos. O jogador perfeito para marcar a estrela rival. Quem jogava contra Benito estava ferrado. Se alguma vez eu escapasse, ele me parava com falta. Era muito duro e valente. Ninguém me marcou como ele. Contra outros defensores, eu jogava bem, mal ou regular. Contra ele, nem tocava a bola”. Certa feita, Gárate pediu ao técnico Luis Aragonés para sequer escalá-lo no dérbi, tamanho o receito de enfrentar o zagueiro merengue.

Embora o Real Madrid possua como tradição os times ofensivos e vistosos, os anos 1970 do clube seriam marcados por equipes bem mais aguerridas e agressivas. Alguns jogadores habilidosos permaneciam à disposição, é claro. Ainda assim, Benito tinha muito mais a ver com aquela fase merengue. Era reconhecido pela dedicação, pelo gosto de vestir a camisa. Seu orgulho pelo madridismo servia de exemplo e criou uma ligação muito forte com a torcida. As arquibancadas adoravam aplaudir a persistência do zagueiro. “Tira o machado, Benito!”, era um grito tradicional nas tribunas durante aqueles tempos.

Aquele Real Madrid mais feroz também colecionou suas taças. Logo em sua primeira temporada na equipe principal, Benito faturou a Copa do Rei. Viriam outros quatro títulos na competição. Já em La Liga, o beque celebrou seis conquistas, incluindo aí o período dominante entre 1975 e 1980, no qual os merengues deixaram o troféu escapar apenas uma vez. Na parte final de sua trajetória, o veterano usava a braçadeira de capitão. Faltou apenas um pouco mais de sorte nas copas europeias, com um vice na Recopa em 1971 e outro na Champions em 1981.

Benito, porém, já não era mais titular quando o Real Madrid perdeu para o Liverpool na decisão continental de 1981. As pancadas que dava eram tantas vezes retribuídas e as cicatrizes ficaram. Além de fraturas na costela e nos dedos, o defensor precisou operar oito vezes por lesões dentro de campo. Quebrou o nariz duas vezes e uma a tíbia, mas seu ponto fraco eram os joelhos, que o levaram ao bisturi cinco vezes e abreviaram sua carreira. “O futebol é um esporte viril. Eu dou, mas também recebo…”, comentava.

Apesar da reputação no Bernabéu, a trajetória de Benito na seleção espanhola seria bem mais curta. Disputou apenas 22 partidas pela Fúria. Suas únicas competições internacionais aconteceram ainda no nível amador, presente inclusive nos Jogos Olímpicos de 1968. Contudo, quando tinha esperanças de ir à Copa do Mundo de 1978, acabou descartado pelo técnico László Kubala por “já terem muitos jogadores merengues no elenco” – segundo contava o próprio defensor.

A despedida de Goyo Benito dos gramados aconteceu em 1982, aos 36 anos. Entretanto, a partida em homenagem ao ídolo dentro do Bernabéu ocorreu apenas dois anos depois. Um amistoso contra o Tottenham valeu para que a torcida merengue celebrasse o seu xerife pela última vez em campo. Os 519 jogos com a camisa do Real Madrid, 420 em encontros oficiais, transformavam o zagueiro em emblema. Na época, Benito declarou que seu interesse não estava no dinheiro que o clube lhe daria por aquela noite, mas em “sentir que a torcida do Madrid não me esqueceu”.

O sujeito durão dentro de campo se transformava fora dele. Goyo Benito era conhecido por seu jeito polido e pelo caráter, de quem colecionava amigos mesmo entre os atacantes adversários. Após a aposentadoria, passou a investir em bares e restaurantes. Seus estabelecimentos eram ponto de encontro ao madridismo, bem como aos rivais. Também seria relações públicas do Real Madrid por um tempo e concorreu à presidência em 1995.

Já nos últimos anos, a gratidão ao antigo ídolo seria manifestada por Florentino Pérez. O presidente do Real Madrid nutria um carinho especial por Benito e o auxiliou após a descoberta do Alzheimer. Por intermédio de Florentino, o ex-zagueiro passou a morar em uma casa de repouso, onde recebeu os devidos cuidados por sua doença ao longo de uma década. Infelizmente, o lar de idosos seria bastante afetado pelo coronavírus e o merengue não resistiu. Como consolo, não faltaram oportunidades em que o madridismo o agradeceu em vida.

“O adeus de Goyo Benito deixa emocionada grande parte do madridismo, onde o zagueiro ocupava o coração. Viveu uma época em que os grandes nomes não eram os principais destaques do Real Madrid, mas sim os jogadores que marcavam o torcedor, e Benito estava à frente destes. Nunca foi um virtuoso nisso de conduzir a bola, mas seu caráter e força o elevaram aos altares da torcida durante muitos anos. Com ele na zaga, o Real Madrid se sentia mais seguro, mais forte”, escreveu o jornal Marca, em um texto de despedida. Palavras que devem ecoar até o merecido tributo no Bernabéu, que certamente ocorrerá com o passar da pandemia.