Dentre os muitos baques que o Cruzeiro sofreu ao longo dos últimos dias, é possível se reerguer da maioria absoluta – por mais caótica que seja a situação na Toca da Raposa. O caminho a se percorrer é longo, principalmente pelo cenário econômico dos mineiros, mas a recuperação gradual permanece ao alcance. O que não volta atrás, porém, é o fato consumado de que os cruzeirenses não podem se dizer mais “incaíveis”. E isso dói menos quando se pensa naquilo que deveria ser verdadeiramente lamentado nesta semana: o adeus de Dona Salomé, um emblema do que é a paixão celeste. De tão simbólica, a torcedora fanática despediu-se como uma dolorosa metáfora. É uma perda irreparável.

O que faz um clube ser grande, afinal, não é o orgulho de nunca ter sido rebaixado. Também não são os títulos, não é o dinheiro acumulado na conta bancária, não é o elenco cheio de estrelas. Um clube sustenta a sua grandeza, sobretudo, pela paixão de sua torcida. O crescimento do número de apoiadores, óbvio, precisa ser fomentado por ídolos e/ou taças. Mas há inúmeros exemplos de poderosos esquadrões que se tornaram efêmeros. O gigantismo de uma camisa depende daqueles que a vestem além do gramado. Maria Salomé da Silva encarnava o Cruzeiro.

Os 86 anos de idade não afastavam Dona Salomé de seu grande amor. Pelo contrário, a idosa permanecia vivendo o Cruzeiro por dentro. Funcionária do clube desde 1993, trabalhava na limpeza da sede no Barro Preto e ninguém tratava de tirá-la de lá, porque era assim que ela se sentia bem. E o carinho nos corredores celestes se transformavam em representatividade nas arquibancadas.

Salomé era sempre recebida com reverências. Sempre respondia com um sorriso escancarado, daqueles contagiantes. E sempre era possível encontrá-la nos jogos do futebol ou mesmo do vôlei – equipe à qual demonstrava um apego similar. Pouco importava a modalidade, mas sim as estrelas no peito.

Dona Salomé mantinha uma relação próxima com diversos atletas do Cruzeiro. Naturalmente, tinha os seus xodós entre aqueles que passaram pelo clube. Marcelo Moreno chegou até a dar seu nome ao papagaio da idosa, assim como batizava uma raposinha de pelúcia que a torcedora carregava consigo. Ela também levava bonequinhas cruzeirenses, além de Nossa Senhora das Graças, com seu manto celeste. Já entre os torcedores, era praticamente impossível encontrar um cruzeirense que não conhecesse Salomé – e não a adorasse. Inclusive, costumava viajar a muitos jogos fora de casa com a própria torcida organizada, sempre tratada com afeto.

Os últimos dias não foram fáceis a Dona Salomé. A torcedora se mostrava preocupada com a situação da equipe e evidenciava seu abatimento. Na semana passada, ela ainda machucou o joelho durante uma confusão entre torcedores do Cruzeiro e do Atlético Mineiro após um jogo de vôlei – apesar das informações de que havia sido agredida, a idosa negou. Recuperada, a cruzeirense sequer cumpriu a recomendação de repouso para voltar a trabalhar na sede do Barro Preto. Já no domingo, seu compromisso era no Mineirão, na rodada final do Brasileiro.

Dona Salomé começou a se sentir mal nas arquibancadas e foi atendida pelos bombeiros. Depois, a torcedora seria encaminhada ao hospital. Permaneceu internada até a madrugada de terça-feira, quando não resistiu às complicações cardíacas. Segundo seu filho, a mãe já sofria de hipertensão e tomava remédios. Ele refutou que o mal-estar tenha relação com os tumultos ocorridos no Mineirão.

Tal qual uma personagem de realismo mágico, Dona Salomé se foi num ritual de passagem ao Cruzeiro. E, de certa maneira, ela ensinou algo a mais aos torcedores celestes nesta semana. Muita gente que tratava o rebaixamento como tragédia passou a direcionar seus pensamentos para expressar o luto à idosa e prestar as devidas homenagens.

Como uma triste ironia, há muito mais no futebol (e na vida) do que permanecer ou não na primeira divisão. A grandeza da camisa azul prevalece através da memória de Salomé. A obrigação do clube é honrá-la, deixando para trás os tantos episódios lamentáveis protagonizados por diferentes pessoas e em diferentes âmbitos neste 2019. Salomé foi o Cruzeiro, e continuará sendo.

Dona Salomé deixa um filho, três netos e (como escreveu o próprio Cruzeiro) nove milhões de órfãos. Seu corpo foi velado no ginásio em Contagem, onde a Raposa costuma disputar os seus jogos de vôlei. Foi-se uma parte viva da história celeste, agora transformada em lembranças. Fica o orgulho necessário de quem compartilhou as arquibancadas com a fanática.

Que cada clube e que cada torcida no Brasil saiba valorizar as suas (e os seus) Salomés.