Pensar o futebol além do óbvio é uma exigência de qualquer torcedor ao treinador do seu time. Pensar o futebol além do óbvio foi o que melhor fez Cilinho ao longo de sua carreira. Rodado entre os clubes paulistas, o comandante atravessou boa parte de sua trajetória no interior – de certa forma, por resistência aos seus métodos. No entanto, foi por pensar o jogo e suas relações fora da caixinha que emplacou seu grande sucesso: a construção de uma equipe que segue ocupando o imaginário do São Paulo. Os ‘Menudos do Morumbi’ permanecem como o seu maior legado, num time cheio de promessas e com um futebol vistoso, que rendeu dois títulos do Paulistão, além de um Brasileiro durante um hiato do técnico. Tem seu lugar na história o treinador falecido nesta quinta, aos 80 anos de idade.

Nascido em Campinas, em 9 de fevereiro de 1939, Cilinho não teve uma carreira relevante como jogador. Pelo contrário, foi um dos tantos que ficou pelo caminho, após passar pelas categorias de base do Guarani. O futebol, ainda assim, estava fadado como seu destino. Começou como treinador na várzea campineira, antes de dirigir os garotos juvenis na Ponte Preta e estrear à frente do elenco principal aos 26 anos. A Macaca seria a sua primeira grande casa, em meados da década de 1960.

Cilinho se talhou no futebol do interior, passando por Ferroviária e XV de Piracicaba. De qualquer maneira, na Ponte Preta é que ele ganhou projeção, ao moldar o forte time que havia conquistado a divisão de acesso em 1969 – e no qual despontavam garotos da base, incluindo Dicá. Sob as ordens do comandante, a Macaca faria uma campanha excepcional no Paulistão de 1970 e terminaria com o vice-campeonato. Tratados como a sensação da competição, os ponte-pretanos exibiam um futebol “moderno, rápido e bonito”, segundo a descrição da revista Placar na época. Cilinho, além do mais, era exaltado por ser mais que um treinador, ao estabelecer relações próximas com seus atletas.

Em tempos nos quais o futebol tinha forte apoio da ditadura no Zaire, Cilinho chegou a dirigir o Mazembe, numa aventura de rápida duração. Já em 1972, comandaria a Portuguesa, em seu primeiro trabalho na capital. Chegou respaldado pelos dirigentes, exatamente por sua sensibilidade com os atletas, ao trabalhar a parte motivacional e fomentar a cultura – mas dispensando uma erudição esnobe. O comandante estimulava os jogadores a lerem livros e a participarem de eventos culturais, o que por si já demonstrava como era diferente. E mesmo um tanto quanto turrão e teimoso, tinha as suas sacadas sensacionais para mexer com o brio dos comandados. Unia também certo boleirismo para focar seus craques.

Todavia, não há inovação que resista no futebol sem resultados. Por mais que Cilinho pensasse na reestruturação da Lusa e fizesse um trabalho de base, com olhar especial à formação de uma comissão técnica mais ampla, acabou demitido por pressão da torcida diante dos maus resultados no Paulistão de 1973. Seu período no Canindé ainda seria marcado pela chamada “Noite do Galo Bravo”, em que seis jogadores terminaram demitidos pelo presidente Oswaldo Teixeira Duarte.

Da Portuguesa, Cilinho rumaria ao Sport. Promoveu uma grande renovação da equipe principal e lançou um punhado de jovens, a ponto de escalar um time com média de 19 anos no Brasileirão. Rodaria ainda por Paulista, Comercial e XV de Jaú, além de registrar outras duas passagens pela Ponte Preta. E o sucesso no interior o colocava outra vez na mira dos grandes.

O XV de Jaú, aliás, foi outro trabalho expressivo do técnico, ao encerrar o Paulistão de 1981 na quinta colocação. Era outra equipe que o destacava por seu monte de garotos e pelos métodos pouco ortodoxos. Exímio frasista que era, usava frases motivacionais em cartazes. Também dava livros de presente aos melhores em campo e aplicava treinos específicos para desenvolver a habilidade. Classificava-se, mais do que um treinador, um educador. “Não sou um simples apitador de treinos. Sou, antes de tudo, um formador de homens”, afirmaria à Placar, em 1985.

Cilinho chegava a realizar treinos sem bola para trabalhar a inteligência dos jogadores em campo, bem como testava as suas qualidades com outros tipos de pelota, das ovais de futebol americano às bolinhas de tênis. Para ele, coletivos eram desagregadores e preferia muito mais ensaiar situações de jogo em espaços reduzidos. “Treinador brasileiro que não joga no ataque não pode ser levado a sério”, dizia. “Os grandes artistas estão aqui. O material humano no Brasil é tão fora de série que podemos formar umas 20 seleções”.

Exigente, Cilinho também tinha seus truques para lapidar as virtudes de cada um. “Habilidade não se compra na farmácia, tem de se adquirir treinando”, era um de seus lemas. Para aprimorar cruzamentos, por exemplo, segurava coletes de cores diferentes e pedia ao atleta para dizer qual a cor erguida na hora de bater na bola, assegurando que estava de cabeça levantada. Além do mais, era extremamente didático em suas explicações táticas, com o uso inseparável de sua prancheta, e também preferia abolir a concentração por avaliar que não funcionava.

“Sou pela disciplina, tanto dentro como fora de campo. Mas sou um homem aberto ao diálogo. Faço questão que meus comandados demonstrem interesse pelo trabalho desenvolvido”, avaliava à Placar. E o apego aos princípios era outro traço no treinador, novamente sondado pelos grandes. O São Paulo chegou a procurá-lo para substituir Carlos Alberto Silva, mas Cilinho preferiu seguir no Galo da Comarca, onde disputou o Brasileirão de 1982. Seguiria à Vila Belmiro ao final daquele ano, também sob a promessa de abrir as portas à base. Uma campanha ruim no Paulista custou seu emprego, antes de retornar à Ponte Preta para mais uma passagem.

O Morumbi, no entanto, parecia mesmo traçado como destino de Cilinho. O treinador foi contratado pelo São Paulo em 1984. Como de praxe ao longo de sua carreira, realizaria um trabalho de renovação. Nomes tarimbados de outros períodos tricolores foram substituídos por uma nova safra de talentos lapidada pelo comandante. Aproveitaria não apenas os pratas da casa, mas também outros atletas descobertos em clubes menores. Encabeçaria uma reformulação fundamental para o clube retornar ao topo do Paulista e do Brasileiro.

A empreitada de Cilinho, é claro, teve as suas provações. Estava claro que o trabalho do treinador era de longo prazo e a campanha morna no Paulista de 1984 não importou muito. Porém, o início ruim no Brasileiro de 1985 estourou a paciência da torcida. Por mais que o São Paulo apresentasse um futebol ofensivo em suas melhores atuações, nem sempre o estilo de jogo resultava em vitórias. Terminou bancado pela diretoria e a aposta se pagou em alguns meses. Foi então que os Menudos do Morumbi (apelido em referência à boy band porto-riquenha de enorme sucesso na época) emplacaram.

O São Paulo deslanchou no Campeonato Paulista de 1985, com um futebol que unia a garra dos jogadores com uma qualidade técnica refinada. Cilinho gostava de um estilo de jogo rápido, explorando principalmente os lados do campo. Primava pela criatividade e pela liberdade que dava aos seus jogadores, mas também com exigências, pedindo um toque de bola de pé em pé e sem violência. Era um entusiasta da arte, que desejava fazer valer o preço do ingressos pago pela torcida com um bom espetáculo.

“O jogador de hoje ganha um pouco mais e pensa um pouco menos. Antigamente, ele era mais interessado, assim como o futebol romântico era mais bem jogado. Além disso, ele anda muito mal treinado. A preparação física vem esmagando a parte técnica. Tomaram a bola do nosso garoto. Futebol brasileiro, para ser bem jogado, é simples: atleta bem treinado é 60%; o grupo bem treinado, outros 30%; os 10% restantes ficam por conta da preparação física”, disse, em entrevista à Placar.

A juventude pujante daquele São Paulo tinha seu talento sobretudo no setor ofensivo – estrelado por Careca, Müller, Silas, Pita e Sidnei. Ainda assim, era uma equipe forte por completo, que aliava a experiência de nomes como Oscar, Darío Pereyra e Gilmar Rinaldi, além de um Paulo Roberto Falcão no ocaso da carreira, que mais esquentava o banco do que atuava. As duas vitórias sobre a Portuguesa nas finais do estadual ratificaram a grandeza do que fazia Cilinho. “Venceu o São Paulo, para o bem do futebol. O São Paulo jogou o futebol-arte criativo, com liberdade e emoção”, declarava o treinador, sem muita modéstia.

Cilinho, inclusive, não se curvava aos medalhões. Chegou a bater de frente com Oscar e a barrar Falcão. O primeiro semestre de 1986 ainda seria prejudicado pelo próprio impacto que o São Paulo causava. A nova fornada de craques servia de base à seleção brasileira em sua preparação à Copa do Mundo, o que brecou a campanha no Paulistão de 1986, iniciado já no primeiro semestre. Seriam cinco os são-paulinos convocados por Telê Santana ao Mundial do México, mais Darío Pereyra na seleção uruguaia.

Ainda em julho daquele ano, Cilinho deixaria o Morumbi. Dizia-se desiludido com o futebol e optaria por “se dedicar aos seus bois” na fazenda que tinha em Jaguariúna. Era um personagem peculiar, afinal. Criava galos de briga ao mesmo tempo em que apreciava arte barroca. Era amante do samba, a ponto de tocar tamborim. Também gostava de cozinhar aos amigos e tomar sua cervejinha. Misturava ares de filosofia e folclore, paternalismo e explosão. No Morumbi, de qualquer forma, sua base preservou o legado. Sob as ordens de Pepe, os Menudos conquistaram o Brasileiro de 1986 – já no início de 1987.

Cilinho seria sondado pela própria seleção brasileira no período. Crítico voraz do calendário e desejoso a assumir também a base, não aceitaria algumas exigências da CBF, no ápice da bagunça interna da entidade. Também teve outra passagem pela Ponte Preta. E o retorno ao Morumbi não estaria distante de acontecer, reassumindo o time para o Paulistão de 1987. Nem mesmo a saída de jogadores importantes, sobretudo com a venda de Careca ao Napoli, impediram os Menudos de levar uma nova taça. Com os novatos Edivaldo e Lê definindo a final contra o Corinthians, o Tricolor ergueu o troféu estadual mais uma vez.

Cilinho permaneceu à frente do São Paulo também na Copa União de 1987, além de se manter no cargo ao longo de 1988. A saída do Morumbi aconteceu no início de 1989, com o gênio forte causando novos litígios com jogadores e com a diretoria. Acumularia 249 partidas à frente dos tricolores, quinto treinador com mais jogos pelo clube. Registraria 111 vitórias e 375 gols, números expressivos ao seu futebol ofensivo. As marcas são eternas.

Depois disso, Cilinho teria trabalhos mais curtos e efêmeros entre os anos 1980 e 1990. Passou pelo Corinthians, onde foi vice do Paulistão em 1991, justamente derrotado pelo São Paulo, em nova equipe marcada pelos jovens promovidos. Também trabalharia em Guarani, Portuguesa, Bragantino, XV de Jaú, São José e América de Rio Preto. Em 1995, viveria a última estadia na Ponte Preta, chegando aos 345 jogos à frente da Macaca, um recorde da agremiação. Além disso, após pendurar a prancheta na virada do século, ensaiaria uma volta ao Rio Branco de Americana em 2011, o que não durou mais do que alguns meses.

Cilinho manteve uma relação próxima com o São Paulo após abandonar a jornada na área técnica. Chegou a coordenar as categorias de base, além de visitar com frequência as arquibancadas do Morumbi. Também trabalhou na base do Corinthians e durou quatro meses, demitido por conta das mudanças drásticas que desejava. Já nos últimos meses, seu estado de saúde se tornou mais complicado. Em abril de 2018, ele sofreu um AVC. Há dois meses, uma pneumonia o manteve internado. Aos 80 anos, faleceu nesta quinta, com a saúde debilitada.

As homenagens a Cilinho foram inúmeras. Muitos de seus craques relembraram com carinho o mestre – menção especial a Careca, talvez o grande jogador que atingiu o auge nas mãos do técnico. A Ponte Preta não apenas relembrou o eterno comandante, como também cedeu o Moisés Lucarelli ao velório, que atravessou a madrugada de quinta para sexta. Fica apenas o pesar ao tributo simplório prestado pelo São Paulo antes do jogo contra o Vasco, limitado a um minuto de silêncio só explicado quando a bola rolava e a uma menção dividida com Gugu Liberato no telão do estádio.

Em um país no qual os ídolos tantas vezes não são reverenciados como deveriam, acima do que fez o clube, ao menos uma geração de são-paulinos seguirá exaltando os sonhos que Cilinho alimentou através dos Menudos. Seu ideal de futebol vive.