Enquanto o River Plate existir, se recordará de um goleiro que perambulou por mais de duas décadas na grande área do Monumental de Núñez. Por vezes com boina, como mandava a antiga elegância, a partir de um tempo usando luvas, introdutor da novidade na Argentina. Costumava voar em suas pontes sob as traves e em suas empreitadas arrojadas além da linha do gol. Aliás, foi um desses arqueiros a explorar uma nova dimensão, a sair da pequena área, a buscar o espaço além e a se tornar fundamental ao jogo da equipe. Sua qualidade com os pés também o colocava em uma outra categoria. Não à toa, Amadeo Carrizo figura como uma lenda do River Plate. Não à toa, terminou eleito como melhor goleiro sul-americano do Século XX pela IFFHS. E qualquer condecoração, ainda assim, é insuficiente para definir sua grandeza.

A lista de títulos vai além das taças que ergueu dentro de campo – e não foram poucas, integrando equipes históricas do River Plate. Carrizo não é apenas presidente honorário do River Plate, como também nomeia um dos setores do Monumental. Na Argentina, 12 de junho é o “Dia do Goleiro” por sua causa, celebrando o seu nascimento. Foram 93 aniversários, quase 70 ainda batendo sua bola, até que o camisa 1 enfim descansasse. Nesta sexta-feira, Carrizo faleceu. Vive na memória dos os rivais, que prestaram tributos diante da triste notícia. Vive, ainda mais, na memória do River Plate que tanto o idolatra. E permanecerá vivendo enquanto persistir o reconhecimento a um dos maiores arqueiros da história.

“Como gostaria de ser lembrado daqui a 100 anos? ‘Meu bisavô me contou que uma vez houve um goleiro muito bom, que se chamava Amadeo Carrizo. Defendia o River, jogou muitíssimos anos’. Merda, não creio que cheguem a se lembrar de mim dentro de um século. Seria grato que, pelo menos dentro do meu clube, alguém conte aos mais jovens quem fui eu. Eles fazem que você perdure na recordação. Que saibam que eu fui um arqueiro à medida do estilo River”, comentou ao jornal La Nación, em 2018. Certamente perdurará.

Carrizo nasceu em 1926, na cidade de Rufino, localizada na província de Santa Fe. Embora não torcesse para o River Plate na infância, preferindo o Independiente de Arsenio Erico, tinha no pai uma influência millonaria dentro de casa, e também seu grande incentivador dentro do esporte. Diferentemente do que era comum na época, a família de Amadeo não repelia o futuro no futebol. Pelo contrário, o motivava. As primeiras bolas eram feitas de improviso. Em tempos nos quais as pelotas de couro custavam caro, seu pai pedia ao açougueiro a bexiga de uma vaca, que amarrava e transformava em brinquedo. A partir dos sete anos, o futuro craque já se arriscava dentro de campo. Aprimorou logo sua habilidade com os pés, ao mesmo tempo em que exibia sua coragem para atuar sob as traves. Habilidade e destemor eram virtudes que se uniam e formavam a personalidade do jovem.

Carrizo, afinal, era valente não apenas pela missão solitária de um goleiro que esperava os chutes potentes dos atacantes em campos duros e com bolas pesadas. Ele também tinha a petulância de não temer o algo a mais, de se arriscar além dos paus, de buscar o jogo. Por isso, costumam chamá-lo de revolucionário. Características que renderam o apelido de Tarzan, por suas acrobacias, e El Loco, por suas peripécias. Segundo ele, o estilo era fruto de sua imaginação, desde cedo. Assim, tornou-se vanguarda e parâmetro.

“As inovações me saíam sozinhas, porque, embora aos sete anos já tivesse manhas de goleiro, gostava de jogar adiante, de fazer um drible, e tudo isso me ajudou a ter essa técnica, a jogar com mais confiança. É fundamental que o goleiro saia confiando, porque pode se complicar se titubeia. Além do mais, assim transmite tranquilidade aos seus companheiros”, contou, à revista El Gráfico, em 2012. Ou como complementou ao La Nación: “Ser jogador de campo me ajudou a ser melhor goleiro. Sempre aconselhei isso. Eu pensava: quanto menos chutem ao gol, menos gols vão fazer. E de que forma impeço? Saindo a cortar a jogada, lendo a jogada antes. Viver, adivinhar ou antecipar o que ia fazer o rival. Intuição. E outra virtude que tinha era agarrar os cruzamentos com uma só mão. Fazia que estava buscando a bola e enganava os rivais”.

O início da carreira de Carrizo aconteceu ainda em Rufino, no juvenil do Buenos Aires Pacífico. Agradou e passou a atuar na equipe principal logo cedo. Héctor Berra, seu conterrâneo, fez a ponte ao River Plate. Presente nas Olimpíadas de 1932, o saltador era ferroviário e trabalhava com o pai do goleiro, além de defender as cores do River no atletismo. Enviou uma carta de recomendação a Carlos Peucelle, lenda do futebol millonario. Numa peneira cheia de garotos em Núñez, Carrizo pensou que passaria despercebido. Logo depois da partida, recebeu a boa notícia: deveria avisar à sua família que permaneceria em Buenos Aires. Assim, aos 16 anos, iniciou sua história em vermelho e branco.

Viver longe de Rufino e de seus pais doía a Carrizo. O próprio pai, no entanto, tirou sua vontade de voltar. E logo o progenitor teria motivos para se orgulhar: destaque nas categorias de base, o santafesino ganhou sua primeira chance na equipe principal às vésperas de completar 19 anos, num clássico contra o Independiente. Ajudou na virada dos millonarios e saiu aplaudido por um lance de coragem, no qual foi empurrado pelo adversário e evitou que a bola entrasse em cima da linha. Porém, nos tempos de La Máquina, não era simples ganhar a posição entre os craques de Núñez. Aprenderia um pouco mais como reserva do peruano José Soriano.

Para Carrizo, a posição de goleiro é feita de aprendizados: “Qual é o objetivo do futebol? Chegar ao gol adversário, onde o pobre goleiro espera. A posição é um pouco ingrata, porque sofre as consequências dos gols, porque aparentemente você é o culpado. À noite se dá conta no travesseiro: ‘Que tonto! Deveria ter reagido de outra maneira’. E se critica: ‘Espero não repetir isso da próxima vez’. É a maneira de melhorar e seguir aprendendo”.

Entretanto, como diria à enciclopédia do centenário do River, não cabiam coitadismos. A Carrizo, o goleiro poderia ser mais: “Minha ideia sempre foi reivindicar o goleiro, dar categoria ao posto. Na várzea, toda a vida, ao garoto mais leso, ou ao mais gordo, ou ao mais pé murcho, mandavam ao gol. Não gostava disso. E quis demonstrar então como a função de goleiro também é transcendente. Assim tratei de impor um estilo e converter o posto de goleiro em algo totalmente diferente ao que havia sido até esses momentos. Busquei mudar a imagem do goleiro e creio que, com os anos, consegui”.

Após a aposentadoria de Soriano e de um tempo no qual Héctor Grisetti assumiu a meta do River, Carrizo ganhou a posição a partir de 1948. A greve dos jogadores naquele ano culminou no desmanche do esquadrão do River Plate e o clube teria que se reconstruir. Ao menos, teve uma pedra fundamental a este novo momento sob suas traves. Ao lado de Ángel Labruna, El Loco se colocou como um dos protagonistas do timaço que voltaria a enfileirar taças durante os anos 1950, vendo o surgimento de novos talentos – sobretudo, o endiabrado Omar Sívori. E a estrela do arqueiro superava o próprio futebol. O ídolo se colocava também como galã em filmes e desfiles de moda. Um ícone.

O River Plate conquistou o Campeonato Argentino cinco vezes em seis anos, entre 1952 e 1957. Foi bicampeão, antes do primeiro tri do clube de Núñez a partir de 1955. Os tempos afamados levaram os millonarios a turnês pela Europa. Nesta época também, Carrizo ganhou as primeiras chances na seleção. E foi durante um amistoso contra a Itália que, ao ver as luvas utilizadas pelo adversário Giovanni Viola, o questionou se realmente valia a pena a nova indumentária. Ganhou um par do italiano, comprou outros e importou o artigo à Argentina. A ideia espalharia-se no país depois disso.

A partir de 1957, com o sucesso inegável no River Plate, Carrizo se tornou titular absoluto na seleção argentina. Participou das Eliminatórias e figurou na Copa do Mundo. A equipe treinada por Guillermo Stábile carregava grandes expectativas em 1958, por seus títulos na Copa América durante os anos em que se ausentou do Mundial. Entretanto, a participação na Suécia seria um fracasso. A Albiceleste perdeu na estreia contra a Alemanha Ocidental, ganhou da Irlanda do Norte e, quando jogava a classificação contra a Tchecoslováquia, tomou uma acachapante goleada por 6 a 1. A geração seria tratada como pária e alguns deles passaram a ser vaiados constantemente nos estádios argentinos. El Loco era um dos alvos preferidos das torcidas rivais.

“A Tchecoslováquia fez três ou quatro gols quase iguais: o ponta esquerda ia sozinho, eu saía, ele cruzava e um entrava para converter. Mas bem, o goleiro saiu, como acontece nesses casos. No aeroporto de Ezeiza, nos castigaram quando chegamos, havia um pessoal no terraço e nos jogaram de tudo. O problema seguiu nos estádios, porque entrávamos e gritavam qualquer coisa, exceto a torcida do River, que jamais me disse algo. Pintaram minha casa, arranharam meu carro e acho que isso só aconteceu comigo, ainda que os seis gols o time todo tenha tomado. Minha família sofreu muito”, recontou à revista El Gráfico, negando que tenha falhado em qualquer tento.

Longe da Albiceleste, Carrizo se dedicava de corpo e alma ao River Plate, onde seguia adorado. Os millonarios sabiam admirar não apenas a qualidade do goleiro, como também sua mentalidade, que tanto se casava com a ofensividade pregada em Núñez. As aventuras além da grande área, conduzindo a bola e iniciando os ataques, poderiam parecer loucura. Todavia, também auxiliavam um time com DNA de jogar para frente. Era um recurso. “Depois de 21 anos no gol todos os domingos, o torcedor nem sabia se havia outro goleiro, embora às vezes tenham me substituído. Virei ídolo por ter correspondido, por ter sido um goleiro que gerou um estilo que os torcedores gostaram, que não o consideraram fazer algo distinto apenas por chamar atenção”, diria, à El Gráfico.

A propensão de Carrizo em sair jogando com a bola dominada rendia ainda suas anedotas, como em certa feita no Monumental. Em pleno clássico decisivo contra o Boca, Tarzan aplicou um chapéu e um corte seco no rival que tentava abafá-lo. O troféu não ficou em Núñez naquele campeonato de 1954, justamente o único que faltou na sequência de 1952 a 1957, mas o lance entrou à história da rivalidade. Apesar do folclore, o veterano garantia que não tentava humilhar ninguém – especialmente o oponente da ocasião, José Borello, um de seus tantos amigos xeneizes na época.

Os títulos minguaram em Núñez a partir de 1958, naquela que se tornaria a maior seca do River Plate no Campeonato Argentino. Nada que abalasse a reputação de Carrizo. Os millonarios seguiam protagonizando grandes vitórias em suas turnês internacionais. A ponto de, no início dos anos 1960, Don Santiago Bernabéu tentar levá-lo ao Real Madrid. O reencontro com Alfredo Di Stéfano não deu certo porque, lógico, o River não aceitou abrir mão de seu ídolo. Seria assim com outras tantas propostas do exterior, inclusive do Brasil.

O perdão na seleção argentina também veio neste período, integrando o elenco às vésperas da Copa de 1962. Todavia, incomodado com o fantasma de 1958, preferiu abandonar a equipe e não jogar no Mundial do Chile. “Você precisa se sentir invulnerável, porque o goleiro está propenso à queda em qualquer momento. Sentir que vão custar a fazer um gol é importante. A mim, doía quando marcavam, porque olhava a torcida e via a cara triste, me faziam sentir nostálgico”, contaria à revista El Gráfico.

Mais confiante, voltaria à Albiceleste no ano seguinte e, em 1964, seria uma das estrelas no título da Copa das Nações – quadrangular disputado entre Brasil, Inglaterra e Portugal no Maracanã. Brecou Pelé em seu auge e, do Rei, receberia sempre elogios. Além do mais, foi sua volta por cima junto às demais torcidas argentinas. No lugar das vaias de 1958, já esquecidas, vinham os seguidos aplausos ao veterano, em diferentes estádios ao redor do país. Era o merecido reconhecimento a quem tanto fez.

Neste momento, Carrizo beirava os 40 anos e passou a se dedicar apenas ao River Plate. E ele também seria pivô do jogo que rendeu o apelido de “galinhas” ao clube. A chance de consagração estava na final da Libertadores de 1966, contra o Peñarol. Os argentinos ganharam a volta no Monumental por 3 a 2, após a derrota no Centenario. Já no jogo-desempate em Santiago, os millonarios abriram dois gols de vantagem ao final do primeiro tempo. E eis que, em uma de suas audácias, El Loco defendeu um chute com o peito. O lance soou como provocação aos carboneros, que iniciaram sua reação depois disso. Empataram antes dos 90 minutos e, na prorrogação, depenaram os visitantes por 4 a 2.

O River Plate tinha valores como Daniel Onega, Oscar Más, Luis Cubilla e Roberto Matosas. Ainda assim, ficou a marca negativa. Para Carrizo, aquela derrota doeu mais que os 6 a 1 contra a Tchecoslováquia, embora negasse a provocação: “Faria tudo de novo, se acontecesse. Foi algo rápido, chutaram a quatro metros de distância, um balaço que veio direto no meu peito. Não foi humilhação, fiz o que me pareceu mais seguro e agarrei em seguida. Dizem que os jogadores do Peñarol se enojaram e por isso ganharam. É história velha. Eles encontraram a partida depois. Nenhum jogador do River reclamou. Ao contrário, eram favoráveis. Tive companheiros que, vendo algo assim na partida, se engrandeciam e diziam que não fariam gols em mim no dia”.

E Carrizo nunca seria visto como vilão pela torcida no Monumental: “O torcedor do River me ama. Ele sente algo por mim. Depois de um gol defensável, nunca ouvi um insulto do torcedor do River. E olha que você tem 20 mil torcedores atrás do gol. Sempre havia um silêncio total. E, às vezes, quando tomava um frango, eles não diziam nada. Nem um insulto. Por isso os agradeço. Eu sempre tratei de ser companheiro. Se tomava um gol e era culpa de um colega, jamais ia apontar para ele. Por que agora existem goleiros medianos estúpidos que tomam o gol e ficam gesticulando? Que babacas… Abaixe a cabeça e aceite, ou não diga nada e pronto. Quando você toma um gol, a culpa é de todos”.

Aos 42 anos, Carrizo ainda estabeleceu o recorde de 730 minutos sem sofrer gols no Campeonato Argentino. Embora a marca tenha caído no ano seguinte na liga, foram 50 anos até que outro arqueiro do River Plate conseguisse superá-la – Franco Armani, com 769 minutos em 2018. Mesmo com a façanha, a ampliação do jejum de títulos millonarios culminaria na saída do Tarzan em 1968, escanteado pelo agora técnico Labruna. Ficou a mágoa pela maneira como a despedida se deu, em uma reunião na sede da agremiação, em que o avisaram sobre o fim de seu ciclo. Ainda assim, não guardou rancor do antigo companheiro.

Carrizo sequer ganhou uma partida em homenagem, apesar das promessas da cartolagem. A bronca pela forma como tudo se desenrolou era tanta que, em seu apoio, os sócios do River rasgavam seus carnês na porta da casa do ídolo. Até mesmo tentaram levá-lo a um adeus na Bombonera, onde a torcida xeneize costumava provocá-lo em quase todos os jogos, com xingamentos e tudo mais. A fidelidade ao River Plate pesou e o ídolo não aceitou.

“Sair do River me surpreendeu. Já era mais velho, é certo, e era raro ver jogadores dessa idade. Mas se cometia um erro, então a culpa era também da idade. Se faziam um gol bobo, olhe a idade… Lógico que doeu quando me disseram. Eles me chamaram para falar isso, tudo muito elegante. E eu respondi que acreditava poder continuar mais um pouquinho, mas compreendia. E disse também aos dirigentes que passar tanto tempo no River era a maior honra. Tive que aceitar, ainda que me sobrasse tempo e pude demonstrar depois”, rememorou, ao La Nación.

Apesar dos anos vividos em Núñez, dos 16 aos 42, Carrizo não seria homem de um clube só. Vestiria outra camisa. Após um amistoso disputado contra o Dynamo Moscou de Lev Yashin no Peru, recebeu a proposta para defender o Millonarios. Seria também ídolo na Colômbia, mesmo sem levantar taças pelo clube de Bogotá. Foram mais dois anos na ativa, até pendurar as luvas aos 44 anos, em 1970 – mas apenas profissionalmente. O veterano seguiu batendo sua bola com frequência e a praticar outros esportes, até os 75 anos. Só então resolveu dar um descanso às suas mãos tão testadas e aos pés habilidosos, que transformaram a posição de goleiro na Argentina e na América do Sul.

E, em sua visão, Carrizo não teria problemas para viver seu auge nos dias atuais. Pelo contrário, ele poderia se dar ainda melhor: “Acredito que defenderia com sobras hoje em dia [risos]. A posição de goleiro não mudou nada. Ao contrário. Vejo partidas em que a bola chega duas vezes ao arco. E isso é benéfico para o arqueiro, que não está sendo bombardeado constantemente”. Por sua história, o comentário não soa de modo algum como vaidade ou prepotência.

Não são poucos os arqueiros que colocam Carrizo como sua grande referência. Hugo Gatti, René Higuita e José Luis Chilavert são os seus “herdeiros” mais famosos na América do Sul, por transformarem o papel também em uma arte ofensiva. Todavia, a reverência e a inspiração são amplas, inclusive daquele que concorre com El Loco como o maior arqueiro argentino da história: Ubaldo Fillol. Nesta sexta, diante da notícia da morte, o campeão do mundo em 1978 escreveu uma emotiva mensagem: “Foi-se o grande Amadeu. Meu arqueiro, meu amigo. Um exemplo para todos aqueles que amamos a posição. Além do maravilhoso que foi no gol, quero destacar sua grandeza como pessoa. O mundo do River e o futebol inteiro choram sua partida. Abraço de alma ao céu”.

A emoção para falar sobre Carrizo não é exclusividade de Fillol. Tarzan era descrito também como uma pessoa amável, divertida, educada. Não perdia o humor. E mantinha a sua lucidez, muito além dos 90 anos, para recontar sua carreira e relembrar outras tantas histórias do futebol. Nem mesmo seu arrojo ele perdeu. Confessava que, mesmo com a velhice avançada, seguia andando com sua potente moto pelas ruas de Buenos Aires. Coragem nunca lhe faltou e não seria no fim da vida que acabaria.

“Andei de moto até recentemente, mas parei a pedido da minha família. A moto é linda, mas perigosa. Tomei consciência. Raciocinei que, a esta altura da vida, preciso me cuidar. E também tenho meu carro. O que passa é que devo renovar a habilitação e me preocupa o exame de vista, porque colocam letras pequenininhas. Na rua você topa com carros e caminhões, não com letras. No exame, coloquem carros, não letrinhas”, brincou ao La Nación, já aos 91 anos.

Nas redes sociais, o luto foi amplo. A começar pelo River Plate, o clube de sua vida: “Em um dia de dor para todos os riverplatenses, nos despedimos com profunda tristeza do presidente honorário do clube e um dos maiores ídolos de nossa história. É uma lenda, Amadeo”, escreveram os millonarios. A reconciliação com o time do coração veio principalmente na última década, quando as menções ao Tarzan se tornaram mais frequentes. Nesta época também veio o título de presidente honorário, o maior de sua carreira. Foram 520 partidas com a camisa alvirrubra pelo Campeonato Argentino, um recorde. No total, apenas Reinaldo Merlo o supera.

“Amadeo Carrizo é sinônimo de personalidade, de temperamento, de segurança. Todas as características que o converteram em um dos melhores goleiros da história do futebol, inventor de um estilo e referência a gerações que o seguiram. O grande Amadeo também tem um lugar de privilégio no Monumental: a plateia Belgrano média leva seu nome e será para sempre uma parte fundamental do clube, dentro e fora de campo”, complementou o River. E as citações não ficaram apenas aos millonarios: Boca Juniors, Independiente, Racing e San Lorenzo, todos os grandes rivais, prestaram o seu tributo.

Do alto de sua idade, Carrizo tinha consciência de que não havia mais tanto tempo. A maioria absoluta de seus companheiros já tinha partido. Tratava de aproveitar a vida, com o vinho que dizia ser sua receita à longevidade e com uma alimentação saudável. “Sei que me resta pouco, mas quero seguir neste mundo um pouquinho mais, para viver prazeres como esta entrevista. Alguém lerá e dirá: ‘Que lindo relembrar, já velhinho, para ver o que foi sua vida’. Para os que fomos algo no esporte, o fato de continuarem lembrando de nós é um orgulho. Tenho 91 anos, não posso pedir mais. Já sou grande”, agradeceria ao La Nación, há dois anos. Palavras que ecoam neste adeus.

Como complemento à leitura, vale conferir o obituário escrito pelo amigo Caio Brandão no Futebol Portenho.