Can Bartu era uma figura ímpar no futebol turco. Durante a década de 1960, o meia-atacante se tornou um dos pioneiros do país a atuar nas principais ligas europeias. Fez relativo sucesso na Serie A, onde valorizaria a capacidade de seu país no futebol, defendendo as camisas de Lazio, Fiorentina e Venezia. O respeito que conquistou na Itália, porém, não se compara à veneração que recebia no Fenerbahçe. Bartu praticamente encarnou as cores do clube durante os anos em que defendeu os Canários. Afinal, não era só um goleador nos primeiros anos da liga nacional. O craque era desses raros homens múltiplos que se dividem em diferentes modalidades e, ao mesmo tempo em que brilhava nos gramados, também era uma referência no basquete. Não à toa, o Fener guardou luto nesta sexta-feira. Aos 83 anos, a velha lenda faleceu, deixando uma legião de fãs e de boas histórias sobre sua trajetória esportiva.

Nascido em 1936, Can Bartu chegou ao Fenerbahçe ainda na adolescência, para jogar basquete. Porém, em 1955, receberia o convite que seria decisivo à sua carreira. O técnico Fikret Arican convidou o rapaz para completar o time de futebol em uma partida contra o Edirnespor, diante da ausência de outro jogador. Bartu não apenas teve grande atuação, como também anotou o gol da vitória aos Canários. A partir de então, começaria a dividir seu tempo entre as diferentes modalidades. Mesmo sem ser tão alto, com 1,72 m, se valia da agilidade para brilhar. E mesmo com a agenda cheia, seguiu triunfando – às vezes, no mesmo dia.

Em 25 de janeiro de 1957, Bartu protagonizou um feito com ares de folclore. Às vésperas de completar 21 anos, o meia entrou em campo durante a tarde. Anotou dois gols e deu duas assistências na vitória por 4 a 0 sobre o Beyogluspor. Todavia, a equipe de basquete estaria em quadra à noite, e o armador não fugiu da missão. Também fez seu serviço e somou dez pontos. O detalhe é que não seria uma atuação qualquer. A vitória por 44 a 43 só aconteceu por uma cesta decisiva do prodígio a três segundos do fim. Motivo suficiente para ser idolatrado no Fener? Pois ele faria muito mais.

Can Bartu jogou pelas duas seleções turcas. No basquete, foram seis partidas com a equipe nacional. Já no futebol, atuou com bem mais frequência, somando 28 aparições. E como se não bastasse, o coringa aprontou das suas na estreia em jogos oficiais. Em 1958, a Turquia encarava a Romênia na primeira fase da Eurocopa. Os visitantes encontravam dificuldades em Bucareste, até que o goleiro Turgay Şeren se lesionou. Em tempos nos quais não existiam substituições, Bartu foi para o gol, mas não evitou a derrota por 3 a 0. O meia também disputaria duas edições das Eliminatórias para a Copa do Mundo, entre as referências de seu time nos anos 1960.

Já ao Fenerbahçe, Can Bartu representa as primeiras glórias nacionais. Em 1959, o Campeonato Turco foi oficialmente criado, unificando as antigas ligas municipais. O jovem seria um dos protagonistas na conquista do Fener, anotando três gols ao longo da campanha. Também seria titular nas finais, quando os Canários atropelaram o Galatasaray. O clube repetiu a dose em 1960/61 e, na Copa dos Campeões, contava com as participações decisivas de seu craque. Tamanha era a repercussão sobre o futebol de Bartu que a Fiorentina fechou a sua contratação em meados de 1961. Algo raríssimo para atletas turcos na época, ele desbravava novas fronteiras.

Neste momento, Can Bartu passou a se dedicar exclusivamente ao futebol profissional italiano. E teve sua relevância. Em sua primeira temporada na Serie A, em 1961/62, disputou 14 partidas e anotou dois gols. Já o maior momento aconteceu na Recopa Europeia. O turco anotou o gol da vitória contra o Újpesti, em jogo que assegurou a Viola em sua segunda final consecutiva. O meia se tornou o primeiro jogador de seu país a disputar uma decisão continental. O time treinado por Ferruccio Valcareggi tinha outros jogadores renomados, como Giuliano Sarti e Kurt Hamrin. No entanto, acabou derrotado por um forte Atlético de Madrid na final.

Emprestado ao Venezia na temporada seguinte, Bartu acumulou seus melhores números no Calcio. Foram oito gols em 29 partidas, embora não tenha evitado o rebaixamento da equipe. Voltou à Fiorentina e seria repassado um ano depois à Lazio. Opção frequente entre os titulares biancocelesti, ficou três temporadas na capital, em uma época na qual o clube frequentava o meio da tabela da Serie A. E sem o mesmo espaço, decidiu retornar à Turquia em 1967. Voltaria para casa, ao seu Fenerbahçe, onde viveu as últimas glórias. Conquistou mais duas edições do Campeonato Turco antes de pendurar as chuteiras, em 1970. Com a camisa dos canários, acumulou 181 gols em 372 partidas disputadas.

Longe dos gramados e das quadras, Can Bartu permaneceu ligado ao esporte. Foi comentarista na televisão local e também embaixador da final da Copa da Uefa em 2008/09, quando esta aconteceu no Estádio Sükrü Saraçoglu. Já a homenagem maior se deu quando o Fenerbahçe batizou seu centro de treinamentos com o nome da velha lenda. A morte do veterano foi amplamente lamentada pelo clube, assim como por outros tantos jogadores históricos do Fener. Exaltam a aura de um atleta que conseguiu transcender no esporte.