“Para ser goleiro do Corinthians é preciso ter muita personalidade, não se deixar abater”. Poucos poderiam fazer tal afirmação com tanta propriedade quanto Cabeção, goleiro que dedicou boa parte de sua vida ao Corinthians. Luiz Moraes, que dispensava formalidades e não tinha qualquer problema em ser chamado pelo apelido famoso, viveu o Parque São Jorge desde a tenra infância. Realizou toda a formação na base, profissionalizou-se pelo clube e liderou o time em grandes conquistas. Ao longo de 17 anos pela equipe principal, entre idas e vindas, somou 326 partidas com o manto alvinegro. Apenas outros três arqueiros na história corintiana (Ronaldo, Cássio e Gylmar) superam a sua marca.

E personalidade foi uma das virtudes de Cabeção nesta longa jornada em preto e branco. Teve personalidade para se transformar em destaque precoce do Corinthians. Teve personalidade para se tornar um goleiro de vanguarda, para chegar à seleção brasileira, para encarar a concorrência de Gylmar também no clube. Ainda precisou de personalidade para aceitar as críticas da torcida, para peitar treinadores tarimbados, para enfrentar os desmandos dos dirigentes. Com muita personalidade, o paulistano colecionou importantes troféus (inclusive pela Portuguesa) e se colocou entre os melhores de sua posição no país durante os anos 1950.

Dono de um ótimo senso de posicionamento e de uma postura arrojada em suas saídas de gol, Cabeção manteve a solidez durante a carreira. E ainda ajudaria outros goleiros, de diferentes maneiras. Sabe as luvas? Começaram no Brasil com ele. Sabe os treinos específicos aos goleiros? Ao lado de Valdir, ele também seria um dos precursores. Sabe alguns dos grandes arqueiros corintianos dos anos 1980 e 1990? Foram aprimorados pelo veterano. A gratidão no Parque São Jorge deveria circundar qualquer menção ao nome de Luiz Moraes, o Cabeção. E assim fica a homenagem ao veterano falecido nesta segunda-feira, aos 89 anos, praticamente 50 deles atravessados dentro do clube.

Nascido em 23 de agosto de 1930, Cabeção era tão corintiano que, desde os seus primeiros dias de vida, cresceu no Parque São Jorge – o bairro na região do Tatuapé, que dá nome ao estádio. Filho de um português e de uma brasileira, o menino era neto de italianos por parte de mãe, mas seu avô era um raro exemplar que não torcia pelo Palestra Itália – e, mais do que isso, chegou a prestar serviços com sua carroça de aluguel ao clube alvinegro. Já os maiores incentivadores à sua caminhada como jogador foram seus tios maternos, que praticavam esportes e até atuaram na várzea paulistana.

A proximidade da Fazendinha facilitou o acesso de Cabeção ao clube e, aos sete anos de idade, ele já começou a frequentar o Corinthians – a princípio, para conhecer seu grande ídolo, o artilheiro Teleco. Entrou para a categoria infantil meses depois e costumava ir para o campo onde treinavam os profissionais alvinegros, apenas para brincar. Ganhou sua primeira carteirinha de sócio em 1942. Assim, ao longo da década de 1940, o adolescente viveria o dia a dia corintiano.

A precocidade levou Cabeção ao gol. Como era o mais novo quando ia bater bola nos campos de várzea, era mandado pelos mais velhos a jogar como goleiro. E a defesa de um pênalti o ajudou a tomar gosto pelo ofício, aprendendo os macetes da função. Seu grande exemplo foi Jurandir, antigo ídolo do Flamengo e arqueiro da Seleção, que passou pelo Parque São Jorge em 1946. Deixou lições valiosas ao pupilo, sobretudo quanto ao posicionamento. Além de atuar na base corintiana, Cabeção também se aventurava nos times de várzea. Chegou a formar uma equipe com amigos na vizinhança, o River Plate, que ganhou uniformes da própria ‘Máquina’ durante uma excursão dos argentinos por São Paulo. Ainda passou pelo Clube Atlético e Recreativo Maria Zélia, onde vários pratas da casa alvinegros se aprimoraram.

Na base do Corinthians, de qualquer maneira, é que Cabeção se colocava como uma das maiores promessas do futebol paulista. Foi campeão no infantil e no juvenil, assim como passou a integrar a seleção paulista de juvenis. Com isso, virou opção à seleção brasileira sub-20 que disputou o Campeonato Sul-Americano de 1949, no Chile. A equipe nacional se impôs no triangular disputado contra chilenos e uruguaios para ficar com a taça. Naquele mesmo ano, o goleiro passaria aos profissionais do Corinthians e começaria a ganhar os primeiros salários.

Reserva de Bino durante os primeiros meses no elenco principal, Cabeção se afirmou de vez durante o Campeonato Paulista de 1950. Já no Paulista de 1951, colocaria a faixa no peito pela primeira vez. E aquela campanha seria marcante ao Corinthians, que encerrou o jejum de nove anos sem o título estadual. O grande trunfo na campanha seria o ataque, que passou dos 100 gols pela primeira vez desde a instituição do profissionalismo, em linha de frente protagonizada por Cláudio, Baltazar e Luizinho. Já na meta, o jovem prata da casa ajudou a segurar as pontas.

Durante aquele mesmo ano, porém, o Corinthians trouxe o grande concorrente de Cabeção pela titularidade na equipe alvinegra: Gylmar dos Santos Neves. Exatamente um dia mais velho que o prata da casa, Gylmar chegou por acaso ao Parque São Jorge, envolvido na contratação de outro jogador do Jabaquara, enquanto Bino e Cabeção acertavam a renovação de seus contratos. Não demorou a apresentar suas qualidades e também disputaria algumas partidas durante o Paulistão de 1951, embora tenha sido escanteado após uma goleada sofrida ante a Portuguesa.

“O Gylmar entrou e ficamos dez anos juntos. O que é coisa rara, né? Dois goleiros do mesmo nível. Quando um ia para a seleção, o outro ficava. Ficamos dez anos sem rusga, sem briga, sem nada. Dez anos passando”, relembrou Cabeção, em entrevista ao projeto ‘Futebol, Memória e Patrimônio’, do Museu do Futebol e da Fundação Getúlio Vargas.

Reconhecido pelo ótimo momento após o Paulistão de 1951, Cabeção recebeu sua primeira convocação à seleção principal em 1952. Sob as ordens de Zezé Moreira, o jovem goleiro foi reserva de Castilho no Campeonato Pan-Americano conquistado em abril, no Chile. Os campeões seriam recepcionados pelo presidente Getúlio Vargas no Rio de Janeiro. E, curiosamente, o grande passo dado pelo titular foi o que realmente abriu uma brecha a Gylmar. O Corinthians realizou no mesmo período sua primeira excursão à Europa, em uma série de amistosos disputados sobretudo na Turquia e na Suécia. O rapaz que veio do Jabaquara ganhou uma oportunidade e se firmou, com grandes atuações. Seria ele o titular no bicampeonato paulista de 1952, consumado já nas primeiras semanas de 1953.

Em suas alternâncias com Gylmar, Cabeção voltaria a estrelar o Corinthians nas conquistas de 1953, após o companheiro integrar a seleção no Campeonato Sul-Americano daquele ano. Os alvinegros faturaram o Torneio Rio-São Paulo e a Pequena Taça do Mundo – competição realizada na Venezuela que contou com a presença do Barcelona e da Roma. Assim, o paulistano voltaria a ficar em alta.

Gylmar estava no páreo por uma vaga na Copa do Mundo de 1954, mas lesionou o braço e ficou quatro meses parado. Assim, Cabeção ganharia força na disputa pelo Mundial e voltaria às convocações de Zezé Moreira. Em fevereiro de 1954, ele integraria o elenco nas Eliminatórias da Copa. Castilho lesionou o pé e o corintiano deveria ser o titular, mas o treinador optou por Veludo, reserva do Fluminense. Após o retorno de Castilho, os três arqueiros seriam chamados ao Mundial da Suíça, disputado a partir de junho. Sem entrar em nenhuma partida, Cabeção viu do lado de fora a queda para a Hungria nas quartas de final. Na volta ao Parque São Jorge, participaria do último jogo na conquista do Torneio Rio-São Paulo de 1954.

A retomada de Cabeção no Corinthians seria conturbada. O goleiro começou o Campeonato Paulista de 1954 como titular, mas entrou em rota de colisão com o técnico Osvaldo Brandão. Antes de uma partida contra a Portuguesa, surgiu um rumor de que o goleiro havia se vendido, porque o médico de sua família também era o presidente verderrubro. Cabeção chamou Brandão e afastou as acusações, mas ainda assim o treinador preferiu sacá-lo do time e colocar Gylmar, alimentando o falatório. Indignado com a atitude do comandante, o arqueiro acertou seu empréstimo ao Bangu e disputaria o Campeonato Carioca daquele ano. Enquanto isso, Gylmar se eternizou como ídolo alvinegro, em atuações espetaculares que valeram a conquista do Paulistão de 1954, em meio às famosas celebrações do IV Centenário da Cidade de São Paulo.

Ao final do empréstimo ao Bangu, Cabeção foi vendido justamente à Portuguesa. O goleiro passaria três anos no clube e também marcou o seu nome por lá. Num timaço que também contava com Julinho Botelho, Djalma Santos, Brandãozinho, Ipojucan e Nena, a Lusa conquistou o Torneio Rio-São Paulo logo na primeira temporada do arqueiro, em 1955. Cabeção seria titular na campanha, em façanha selada após a definição da taça contra o Palmeiras. Também participaria da inauguração do Canindé, em novembro de 1956.

A parceria de Cabeção com Gylmar seria repetida na Seleção, durante o Campeonato Sul-Americano de 1956 e de uma série de amistosos realizados na Europa naquele mesmo ano. Nesta viagem, o paulistano traria uma inovação ao Brasil: as luvas específicas para goleiros, pioneiro no uso do equipamento com palmas emborrachadas. No entanto, o goleiro da Portuguesa não ganharia mais chances na equipe nacional, após uma enorme briga nos vestiários com Flávio Costa – seu treinador no Canindé e então um nome influente nos corredores da CBD. O retorno de Cabeção ao Corinthians aconteceria no primeiro semestre de 1958, para suprir as constantes ausências de Gylmar com a seleção brasileira rumo ao Mundial. Enquanto isso, um jovem Félix começava a despontar na Lusa.

Cabeção voltaria a se alternar com Gylmar no Parque São Jorge durante esta segunda passagem. Foi mais frequente até o final de 1958, com períodos esporádicos na equipe ao longo de 1959. Durante uma viagem pela Europa em 1959, o goleiro chegaria a receber uma proposta do Porto, mas a diretoria não o liberou. Seguiu no time durante o Paulistão de 1960, enquanto Gylmar retomou a posição no estadual de 1961. Contudo, sob acusações de que estaria fazendo corpo mole ante a má fase do time, o titular da seleção brasileira arrumaria suas malas ao final daquele ano. Gylmar acertou sua transferência ao Santos, onde também faria história.

Cabeção também sofria suas contestações e a transferência abriu uma brecha para Aldo, terceira opção na meta corintiana desde o final dos anos 1950. Durante aquele início da década de 1960, em que a pressão pelo jejum aumentava no Parque São Jorge, o veterano revezou-se na posição por mais alguns anos, sem nunca mais se firmar como titular absoluto. Heitor (trazido do São Cristóvão) e Marcial (antigo ídolo de Atlético Mineiro e Flamengo) também pintaram com frequência vestindo a camisa 1 alvinegra, ambos defendendo a seleção brasileira no período. Cabeção ainda ficou períodos emprestado a Comercial e Juventus, antes de ganhar o passe livre em 1967. Seu último jogo pelo clube do coração aconteceu em agosto de 1966, numa vitória por 6 a 3 sobre a Portuguesa no Paulistão.

Aos 37 anos, Cabeção rodaria mais um pouco no futebol, antes de pendurar as luvas. O goleiro assinou em definitivo com o Juventus, até atuar também pelo Bragantino e pela Portuguesa Santista. No entanto, sua volta ao Corinthians não demorou a acontecer. A partir dos anos 1970, ao lado de antigos companheiros da equipe, trabalharia como treinador no terrão. Cabeção comandou diferentes categorias na base alvinegra e atuou como um verdadeiro caçador de talentos, ao buscar promessas na várzea paulistana. Ídolos como Wladimir, Casagrande e Ataliba passaram por suas mãos. Além disso, o velho camisa 1 formou uma série de goleiros para o clube – entre eles Ronaldo, Solito, Solitinho e Rafael Camarota.

Cabeção deixou o Corinthians após quase 20 anos trabalhando na base, magoado com os dirigentes não apenas pela falta de consideração com seus serviços prestados, mas também pela falta de apoio ante uma doença enfrentada por seu único filho, que faleceria pouco depois. O ex-goleiro teria depois uma efêmera carreira como técnico em clubes do interior paulista. Ainda assim, os laços alvinegros permaneceram indeléveis. Cabeção seguiu morando nos arredores do Parque São Jorge até os últimos anos de vida. Nesta segunda, após a morte do senhor de 89 anos, o clube emitiu sua nota de pesar e decretou luto. Pode fazer mais, a quem viveu pelo Corinthians durante a maior parte de sua vida.

Como sugestão complementar de leitura, fica a excelente entrevista concedida por Cabeção ao projeto ‘Futebol, Memória e Patrimônio’, do Museu do Futebol e da Fundação Getúlio Vargas – a principal fonte deste texto, ao lado de jornais e revistas antigos. Também vale conferir os artigos dos sites ‘Tardes de Pacaembu’ e ‘Museu da Pelada’ dedicados ao ex-goleiro.