As “três cores que traduzem tradição”, como versa o hino do Fluminense, representam uma vida a Altair. O coração do ex-jogador permaneceu tricolor por toda a carreira. Chegou a Laranjeiras ainda na adolescência e defendeu o time profissional por uma década e meia. Considerado por muitos como o maior lateral esquerdo da história do Flu, o veterano tornou-se o quarto atleta que mais jogou pela agremiação e, graças ao seu sucesso na equipe, integrou a seleção brasileira que conquistou a Copa do Mundo em 1962. Uma lenda que, apesar da reverencia merecida, não teve o devido reconhecimento durante o fim da vida. E que sofreu com o esquecimento mesmo depois de sua morte, aos 81 anos, nesta sexta-feira.

Nascido em Niterói, Altair era botafoguense durante a infância. Começou a sua carreira no Manufatora, de sua cidade, mas não demorou a descolar uma chance no Fluminense, aos 15 anos. Diante da desaprovação de seus pais, que preferiam o adolescente se dedicando aos estudos como chapeador naval, precisou sair às escondidas para realizar uma peneira com os tricolores. Foi aprovado e dava seu jeitinho para burlar o cerco da família. Sua irmã falsificou a assinatura do pai durante a chegada ao Flu, em 1953. Além disso, um amigo dava cobertura durante os finais de semana, em que o prodígio dizia estar estudando, mas permanecia concentrado com os juvenis. Apesar de tudo, prosperou.

Destaque na base como meio-campista, Altair subiu aos profissionais em 1956, aos 18 anos. Porém, não da maneira como imaginava. Como o elenco estava cheio de concorrentes à sua posição, o novato passou a atuar como lateral. Não era a sua, mas precisou se provar ali. E o “improviso” se tornou certeza em pouco tempo. Altair transformou-se em um talento evidente na nova função e, tamanho o destaque, despontou entre os titulares. Por ali se manteria, ao se colocar entre os melhores defensores do futebol carioca.

O desafio de Altair não era pequeno. Afinal, o lateral foi contemporâneo de alguns dos melhores pontas da história. Sua primeira conquista com o clube aconteceu em 1957, no Torneio Rio-São Paulo que os tricolores faturaram com uma campanha invicta. Voltaria a levar o caneco interestadual em 1960. E, em 1959, compôs uma linha defensiva célebre para erguer sua primeira taça do Campeonato Carioca. Enquanto Castilho protegia o gol tricolor, a zaga contava também com os igualmente históricos Pinheiro, Clóvis e Jair Marinho. O Flu sofreu míseros nove gols em 22 partidas para ser campeão.

Foi nesta mesma época que Altair estreou pela seleção brasileira. Ele chegou a participar da preparação à Copa de 1958, mas se lesionou durante um treinamento em Vitória. A primeira partida com a camisa amarela só ocorreu em setembro de 1959, contra o Chile. O tricolor encarava a concorrência pesadíssima de Nílton Santos. Todavia, tornou-se um aprendiz da Enciclopédia durante aquele convívio. Depois de aparições constantes na fase preparatória à Copa do Mundo, terminou convocado ao Mundial de 1962 como reserva. O jovem não chegou a entrar nos gramados chilenos. Ainda assim, comemorou junto com os companheiros o bicampeonato mundial, após a coleção de exibições fantásticas de Garrincha.

Mané, inclusive, representa uma parte importante da história de Altair. Se o talento do ponta garantiu o maior título da carreira do lateral, nos clubes os dois costumavam travar embates ferrenhos. Não à toa, o tricolor era considerado o adversário mais duro que o alvinegro encontrou ao longo de sua trajetória, sobretudo porque não aliviava à ginga do camisa 7. Que o sucesso maior tenha pendido a Garrincha durante seu auge no início dos anos 1960, o defensor também desfrutou de seus momentos. Tinha firmeza nas divididas, mas também uma capacidade técnica refinada e muita versatilidade.

“O magrinho tricolor é um problema bem sério. Com ele, não tenho tempo nem de respirar. É duro nos lances e só consigo passar por ele depois de um bom tempo de jogo”, disse Garrincha, à Revista do Esporte, em 1961. Naquele mesmo ano, Altair foi eleito por 60% dos leitores do periódico como o melhor marcador do Mané. “Sinto-me honrado com o julgamento da torcida. Se é o público quem o afirma, a minha satisfação é maior. Marcar o Garrincha é, realmente, uma coisa difícil. Ele dribla mais do que qualquer outro ponta e improvisa jogadas que deixam tonto o seu mais cuidadoso marcador”, comentou, ao saber da honraria.

Com a despedida de Nílton Santos na Seleção, Altair disputou a lateral principalmente com Rildo. Entretanto, gradualmente passou a ser deslocado ao miolo da defesa e já foi considerado zagueiro durante a preparação à Copa de 1966. Assim, mesmo vestindo a camisa 6, integrou o time de Vicente Feola no Mundial da Inglaterra compondo a faixa central. Foi titular ao lado de Bellini na vitória sobre a Bulgária e na derrota para a Hungria. Orlando Peçanha e Brito os substituíram no encontro com Portugal, que culminou na eliminação precoce do Brasil. A competição marcaria também o adeus do defensor com a Canarinho.

Pelo Fluminense, entretanto, Altair continuou participando de momentos memoráveis. Mesmo cortejado por clubes como o Santos e o São Paulo, manteve sua fidelidade e acumulou outros troféus. Após conquistar o Campeonato Carioca de 1964, ergueu a taça pela terceira vez em 1969, embora já perdesse o seu espaço na equipe desde o ano anterior. Levou também duas vezes a Taça Guanabara, em 1966 e 1969. Ficou no Tricolor até 1970, quando ganhou passe livre. Somou 551 partidas pela agremiação. Somente os ex-companheiros Castilho, Pinheiro e Telê entraram mais vezes em campo pelo Flu. Além disso, anotou três gols em seu período como profissional.

Após disputar alguns jogos pelo Canto do Rio, Altair pendurou as chuteiras e seguiu morando em Niterói, onde administrou uma lotérica (benesse recebida do governo justamente pelo título mundial) e participou de projetos sociais relacionados ao futebol. Também retornou ao Fluminense, assumindo outras funções principalmente na década de 1990. Integrou diferentes comissões técnicas e era assistente de Joel Santana no emblemático título carioca de 1995, além de servir como técnico interino em ocasiões pontuais. Também ajudou na formação de talentos nas categorias de base. A contribuição do velho ídolo aos tricolores era inesgotável.

Já nos últimos anos, Altair começou a sofrer com o Mal de Alzheimer. Em 2013, durante o início da Copa das Confederações, o veterano estava em Brasília para receber uma homenagem ao lado de outros jogadores. Perdeu-se nas ruas da capital e ficou cerca de dez horas desaparecido, até ser reencontrado desorientado por repórteres do Globo Esporte e do Lance. Enquanto o presente se esfacelava na mente do ex-lateral, o passado no Fluminense ainda estava vivo, a ponto de imaginar que ainda era jogador.

Surgiram algumas iniciativas para ajudar Altair, inclusive do Fluminense, mas não se mantiveram. Um grande apoio vinha justamente do antigo companheiro Jair Marinho, seu parceiro no clube, na Seleção e também seu melhor amigo fora de campo. O idoso ainda tinha um apoio fundamental da cuidadora Eluana Galvão, que tomou conta do veterano ao longo da última década e o levou para morar em sua casa. A esposa do ex-jogador falecera em 2009 e a única filha do casa, em 2002.

Altair viu suas condições se debilitarem bastante durante os últimos meses. Restrito à cama, faleceu nesta sexta-feira, aos 81 anos, vítima de um problema pulmonar. O Fluminense declarou luto de três dias, mas não enviou um representante sequer ao velório, onde estiveram presentes apenas 18 pessoas – a maioria, familiares. Que, apesar da falta da atenção merecida nos últimos dias de vida, a memória do lateral seja um pouco mais honrada neste momento. Seu legado é imenso.