Anotar um gol em plena Copa do Mundo pode garantir a um jogador o reconhecimento pelo restante da vida. Fazer isso por um país apaixonado por futebol, mas pouco tradicional no cenário internacional, aumenta ainda mais essa projeção. E a Ahmed Radhi, a honra de ser o único iraquiano a balançar as redes em um Mundial, de certa maneira, representa uma justiça até mesmo premonitória à sua grande história escrita nos gramados. O tento no México em 1986 foi o epítome de um dos maiores craques que o futebol asiático já viu. E que, neste final de semana, infelizmente se tornou mais uma vítima da Covid-19. Aos 56 anos, o veterano não resistiu à doença, falecendo em Bagdá.

Ahmed Radhi vestiu a camisa 8 do Iraque na Copa do Mundo de 1986. O atacante, contudo, cumpria o papel de goleador nos Leões da Mesopotâmia. Aos 22 anos, o jovem ainda iniciava sua trajetória na equipe nacional, mas foi importante na inédita conquista da classificação ao Mundial. Titular sob as ordens do técnico Jorge Vieira nas Eliminatórias, manteve o posto com a chegada de Evaristo de Macedo à casamata. E seria durante a Copa que ele atrairia a atenção de outros cantos do planeta. Era um jogador de porte físico avantajado, mas que aliava isso a uma apurada qualidade técnica e à tranquilidade nas finalizações.

Durante a estreia contra o Paraguai, Radhi já poderia ter anotado o seu primeiro gol. Ele balançou as redes ao final do primeiro tempo, o que garantiria o empate por 1 a 1 aos iraquianos, mas o árbitro apitou o intervalo quando a bola estava no alto e anulou a jogada. Já na segunda partida, ninguém tirou o gosto do camisa 8. A Bélgica vencia por dois gols de vantagem em Toluca e o Iraque atuava com um homem a menos. Mesmo assim, Radhi provocou o orgulho de seu país ao descontar contra os futuros semifinalistas da Copa. O artilheiro recebeu o passe na entrada da área e bateu cruzado, num chutaço que saiu do alcance de Jean-Marie Pfaff, um dos melhores goleiro do mundo na época. Após a derrota por 2 a 1, os Leões da Mesopotâmia ainda sofreram seu terceiro revés na rodada final contra o México. Nada que abalasse o moral do astro.

Nos anos seguintes, Radhi se tornaria ainda maior. O camisa 8 formava uma excelente dupla com Hussein Saeed, também considerado um dos melhores jogadores iraquianos de todos os tempos. O ano de 1988, sob a tutela de ambos os atacantes, seria igualmente marcante à seleção. Coadjuvante no elenco do Iraque que conquistou a Copa do Golfo em 1984, Radhi virou protagonista no novo título em 1988. Artilheiro do certame, anotou gols em três das quatro vitórias dos Leões da Mesopotâmia no torneio de pontos corridos. Além disso, também esteve presente nos Jogos Olímpicos de Seul.

Os iraquianos caíram logo na fase de grupos das Olimpíadas de 1988, mas fizeram uma campanha surpreendente ao quase descolarem a classificação. Empataram por 2 a 2 com a Zâmbia, sensação do torneio; venceram a Guatemala por 3 a 0; e só perderam as esperanças com a derrota diante da favorita Itália por 2 a 0, num duelo em que os árabes jogavam pelo empate para avançar. Autor de dois gols na campanha, abrindo o placar contra zambianos e guatemaltecos, Radhi recebeu seu maior reconhecimento individual ao final daquele ano. O atacante acabou escolhido como o melhor jogador da Ásia em 1988. Permanece como o único futebolista da história do Iraque a receber tal prêmio.

Os feitos pela seleção do Iraque não se estenderam por muito tempo, o que não diminui a importância de Ahmed Radhi à equipe nacional. Ele seguiu estrelando os Leões da Mesopotâmia em Eliminatórias e outras competições menores. Os iraquianos ficariam a um ponto de se classificarem à Copa do Mundo de 1994, em campanha na qual Radhi desempenhou papel de carrasco. Autor de oito gols naquele qualificatório, o capitão do Iraque balançou as redes do Japão uma vez no empate por 2 a 2, válido pela última rodada. A chamada “Agonia de Doha” marcou a frustração dos Samurais Azuis, que perderam sua vaga no Mundial de última hora, com Jaffar Omran selando o empate iraquiano aos 45 do segundo tempo.

Ahmed Radhi defendeu a seleção do Iraque de 1982 a 1997. Disputou 121 partidas, atrás apenas do companheiro Saeed (137 jogos) e do igualmente lendário Younis Mahmoud (148), o camisa 10 no título da Copa da Ásia em 2007. Já em gols, o eterno camisa 8 ocupa a segunda colocação na lista histórica dos Leões da Mesopotâmia, com 62 tentos, 16 a menos que Saeed. Na votação feita pela IFFHS em 1999 para eleger os maiores jogadores asiáticos do século, entretanto, Radhi superou o antigo colega de ataque. Ficou em nono na votação, vencida por Cha Bum-kun.

Embora sua carreira com a seleção seja mais relevante, Ahmed Radhi também fez sucesso por clubes. Ele é um ídolo incomparável do Al-Zawraa, o maior vencedor do Campeonato Iraquiano. Começou e encerrou a carreira por lá, totalizando três passagens. Conquistou duas vezes a liga nacional com a equipe de seu coração, quebrou o recorde de gols em uma edição da competição em 1991/92 e chegou à absurda marca de 15 rodadas consecutivas balançando as redes. Porém, em tempos nos quais a ditadura de Saddam Hussein também controlava o esporte, o astro do país precisou atuar por seis anos com a camisa do Al-Rasheed – time fundado por Uday Hussein, o filho de Saddam que também presidia a federação local e o comitê olímpico.

Radhi não queria se juntar ao Al-Rasheed em 1984, meses após a criação da equipe. O jovem recusou a oferta e, em consequência, foi sequestrado pelos homens de Uday em certa madrugada. Espancado e acusado de crimes, precisou aceitar a transferência por causa das ameaças de morte. O atacante atravessou o auge de sua carreira no clube nefasto, com três títulos do Campeonato Iraquiano e três da Copa Árabe de Clubes Campeões, além do vice na Copa dos Campeões da Ásia de 1989. Porém, mesmo conduzindo a seleção aos seus maiores sucessos na época, o camisa 8 se tornou vítima de outras agressões. Uday Hussein costumava torturar os jogadores após as derrotas da equipe nacional. O goleador chegou a passar 15 horas seguidas chutando uma bola de concreto, como “penitência por desonrar as cores do país”.

Após brilhar nas Olimpíadas de 1988, Radhi recebeu uma oferta do Nacional de Montevidéu, então campeão da Libertadores. A mudança, obviamente, seria bloqueada pela ditadura de Saddam Hussein. Sua liberdade só veio em 1990, quando o Al-Rasheed acabou dissolvido por ordens de Saddam, diante da natural impopularidade da equipe – beneficiada pelo regime de diferentes maneiras. Com isso, o atacante retornou ao Al-Zawraa. A única experiência do astro no exterior aconteceu já no final de sua carreira, entre 1993 e 1997. Defendeu as cores do Al-Wakrah, com o qual seria artilheiro do Campeonato Catariano.

Ahmed Radhi se aposentou em 1999. O craque, então, virou treinador e conquistou a copa local à frente do Al-Shorta. Além disso, por toda a sua popularidade, ele auxiliaria a reformulação do esporte no Iraque após a invasão americana e a queda de Saddam. O veterano manteve contato direto com Paul Bremer, líder da coalizão americana, e trabalhou nos bastidores para que os iraquianos representassem sua reconstrução nos Jogos Olímpicos de 2004. Os Leões da Mesopotâmia se classificaram ao torneio de futebol após 16 anos e fizeram grande papel em Atenas, perdendo o bronze para a Itália.

Envolvido com a política, Ahmed Radhi chegou a se mudar à Jordânia em 2007 por conta dos ataques às autoridades esportivas do país, mas voltou ao Iraque e se tornou parlamentar por um mandato. Duas décadas depois de sua despedida dos gramados, seguia visto como uma lenda do esporte iraquiano. Mas, infelizmente, seria vitimado pela COVID-19 neste domingo. O veterano de 56 anos precisou ser hospitalizado e até recebeu alta na última quinta-feira. Todavia, sofreu uma recaída e veio a óbito três dias depois. Emblematicamente, faleceu vestindo a camisa da seleção.

Com um sistema de saúde precário, o Iraque vê os casos de coronavírus subirem bastante desde o início de junho. O país registrou nesta segunda 32 mil infectados e 1,1 mil mortos. Simbolizando a tristeza e a preocupação pelo momento, um ídolo nacional como Radhi sequer pôde receber uma despedida à altura de sua história.