Juanmi Callejón construiu uma trajetória no futebol bastante peculiar. São raros os jogadores europeus a se aventurarem na América do Sul, e ainda mais raros os que permanecem por tanto tempo no continente. O irmão gêmeo de José Callejón, no entanto, se transformou em um dos maiores ídolos do Bolívar na década. Conquistou três títulos no Campeonato Boliviano, participou de uma campanha histórica até as semifinais da Libertadores e colecionou gols com a camisa celeste. E neste momento de despedida, a adoração ao meia ficou expressa no emotivo abraço compartilhado com um pequeno torcedor.

Contratado em 2013, Juanmi Callejón chegou ao Bolívar por intermédio do espanhol Miguel Ángel Portugal, seu comandante na base do Real Madrid. O treinador não ficou tanto tempo no cargo, mas logo o meia viveria seu ápice sob as ordens de outro compatriota, o experiente Xabier Azkargorta. Dirigido pelo técnico que levou a Bolívia à Copa de 1994, o Bolívar alcançou as semifinais da Libertadores em 2014, com uma caminhada na qual deixou para trás Flamengo, Emelec, León e Lanús, antes da queda diante do San Lorenzo. Callejón anotou quatro gols na campanha, tornando-se fundamental à jornada.

A partir de então, Callejón passou a ocupar um lugar especial no coração da torcida do Bolívar. E suas marcas pelo Campeonato Boliviano também são expressivas. O espanhol permaneceu em La Paz de 2013 a 2016, com dois títulos nacionais no período. Foram 142 aparições pela liga, com 67 gols marcados – uma média relativamente alta para um jogador de sua posição, atuando como meia ou ponta. Não à toa, conquistou a artilharia do torneio em duas ocasiões.

Em 2017, Callejón recebeu uma proposta do futebol saudita e passou um ano no país, com a camisa do Al Ittifaq. No entanto, retornou ao Bolívar em 2018 e conseguiu ser ainda mais espetacular neste recomeço. Foram mais 88 jogos e 58 gols de Juanmi com a camisa celeste pelo Campeonato Boliviano. O espanhol liderou a conquista do Torneio Apertura 2019, artilheiro da equipe com 17 tentos. E, mesmo sem a taça, também brilhou no Clausura, chegando a balançar as redes cinco vezes durante um duelo contra o Guabirá em outubro.

Aos 32 anos, Juanmi Callejón optou por não renovar seu contrato com o Bolívar ao final de 2019. Antes da última rodada do Campeonato Boliviano, o meia publicou uma carta de despedida à torcida celeste, na qual explicava que motivos familiares o levaram a tomar a decisão. “Durante os quase seis anos vividos na Academia, passei por momentos inesquecíveis, com recordações maravilhosas que permanecerão no meu coração. Compartilhei este período com treinadores, companheiros, gente ligada ao clube e, sobretudo, uma torcida excepcional que sempre me apoiou. Mas toda etapa chega a seu fim…”, salientou.

Antes do duelo contra o Royal Pari, várias homenagens foram oferecidas ao capitão, que virou até bandeirão nas arquibancadas do Estádio Hernando Siles. Já o momento mais emotivo aconteceu após o empate por 2 a 2, quando um pequeno torcedor foi se despedir de Juanmi. O garotinho se ajoelhou diante do ídolo e abraçou suas pernas, sem segurar as lágrimas. O espanhol sorriu de início, mas também não pôde conter o choro copioso. Depois, entregou sua camisa ao menino. Uma cena que resume os quase seis anos do “Matador” em La Paz.

Formado nas categorias de base do Real Madrid, assim como José Callejón, Juanmi não teve chances no time principal merengue. Rodou por Mallorca, Albacete, Córdoba e Hércules, além de tentar a sorte no Levadiakos, até ser contratado pelo Bolívar em 2013. Poderia construir uma trajetória sem brilho pela Europa, mas aceitou o desafio de vir à Bolívia e escreveu a própria história de um dos maiores clubes do país. Merece todo o carinho e todas as lembranças por aquilo que ofereceu à camisa celeste. Ao menos em adoração, Juanmi se deu melhor que José – e isso significa bastante à memória que fica sobre sua carreira.