Desde o começo de sua carreira, Nuno Espírito Santo já era um “intruso”. Afinal, não é comum vermos entre os treinadores ex-atletas que, no passado, haviam sido goleiros. Mas o fato de ter sido em boa porção da sua carreira reserva o permitiu, do banco, aprender a enxergar o jogo.

Isso ficou bem claro com a impressionante campanha de seu Wolverhampton no retorno à Premier League. Em 38 jogos disputados, os Wolves conseguiram 57 pontos, maior número alcançado em 18 anos por uma equipe recém-promovida à Premier League. A marca rendeu também a sétima colocação aos lobos, sua melhor posição na elite do futebol inglês desde 1979/80.

A coroação do trabalho veio não apenas na forma de estatísticas, mas também com a intrusão do técnico entre os quatro indicados a melhor do campeonato na temporada, concorrendo com Jürgen Klopp, Maurício Pochettino e Pep Guardiola (este último levando o prêmio). E essa ousadia de se colocar onde não fora inicialmente chamado vem de longa data.

Em 2003, na temporada que antecedeu a conquista da Champions League pelo Porto comandado por José Mourinho, Nuno Espírito Santo era o goleiro da equipe. No confronto contra o Celtic na decisão pela antiga Copa da Uefa daquele ano, o hoje treinador já mostrava sua aptidão para líder da matilha.

“Naquela final, mesmo do lado de fora, o Nuno foi um dos que mais ajudaram. Líderes não precisam estar em campo. Algumas poucas palavras são o suficiente quando necessário. E quando alguém precisava disso ele estava lá”, relembra o ex-atacante brasileiro Derlei, autor de dois gols na decisão que deu a Mourinho seu primeiro título europeu, em entrevista ao Guardian em abril.

“Não era o bastante para ele aparecer, treinar, ir para casa e se contentar com isso. Ele era um daqueles que diziam: ‘Não seria melhor se aquela jogador fosse ali? Por que estamos jogando com três atrás?’”, recorda outro ex-companheiro, Dani Mallo, com quem jogou no Deportivo La Coruña, em relato ao jornal inglês.

Mallo descreve também uma grande autoconfiança na personalidade de Nuno. Algo que ele claramente levou para sua carreira como treinador. A maneira como bateu de frente com os seis grandes times da Premier League logo em seu primeiro ano na competição rendeu ao time a fama de matador de gigantes.

Nuno recebeu no ínicio deste mês um doutoramento honoris causa da Universidade de Wolverhampton em reconhecimento pelo sucesso do clube da cidade (Divulgação/Wolverhampton)

Foram quatro vitórias contra adversários do Big 6: 3 a 1 contra o Arsenal e 2 a 1 sobre o Chelsea em casa, 3 a 2 diante do Tottenham e 2 a 1 sobre o Manchester United como visitante, sem falar nas duas vitórias por 2 a 1 contra Liverpool e, mais uma vez, United, pela Copa da Inglaterra. No início da campanha da Premier League, conseguiu ainda segurar um empate contra o campeão Manchester City, na 3ª rodada, por 1 a 1, colecionando também empates pelo mesmo resultado contra United e Chelsea atuando fora de casa.

Os resultados não foram puro acaso. Os Wolves até que tentaram manter o 3-4-3 com que haviam tido sucesso na segundona inglesa, mas o nível de dificuldade da Premier League inviabilizou que a equipe contasse tanto com o futebol de posse de bola que o caracterizou na grande campanha de acesso. Uma sequência de cinco derrotas em seis jogos entre outubro e novembro significava que era preciso mudar o esquema, e foi isso que Nuno fez

A forma foi alterada para 3-5-2, com Rúben Neves recuado e Dendoncker formando uma dupla com João Moutinho à frente do primeiro – e o esquema se tornava mais ofensivo com a entrada de Gibbs-White para atuar avançado, com Neves e Moutinho recuados.

O futebol que se viu desde então foi de solidez defensiva, mudando para um 5-3-2 sem a bola, contando com velocidade nos contra-ataques para pegar desprevenidos os times superiores tecnicamente, e o 3-5-2 em si para manter a bola nos pés e controlar o jogo contra adversários mais parelhos ou mais fracos.

Diogo Jota foi um dos destaques individuais do Wolverhampton de Nuno nesta temporada (Divulgação/Wolverhampton)

O Wolverhampton é um dos poucos casos nos últimos anos de equipe recém-promovida que vinha com fama na bagagem pelo futebol praticado na temporada anterior. Comprados em 2016 pelo grupo chinês Fosun International, que tem ligações com Jorge Mendes – empresário de Nuno quando este era jogador –, os Wolves estabeleceram um projeto milionário e que, inicialmente, não vinha dando certo. Até que o treinador português chegou promovendo uma mudança imediata no clube, tendo o apoio financeiro e da rede de contatos de Mendes para formar uma equipe que conquistou 99 pontos, com aproveitamento superior a 70% e um jogo que ganhava as manchetes mesmo sem os holofotes da primeira divisão.

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Os adversários conheciam o futebol do Wolverhampton, e a adaptabilidade mostrada por Nuno Espírito Santo provou que ele não era o tipo de técnico disposto a morrer com uma ideia, o que é ideal em campeonatos de alto nível em que o seu futebol é facilmente descoberto e você precisa de alternativas.

Mais de um ano atrás, com a promoção garantida, o treinador já observava a empolgação de sua torcida com o futebol praticado e pregava cautela. “Sinto que as expectativas estão muito altas, e sou o único cujas expectativas não são tão altas.” Com um trabalho fantástico desses, você mais uma vez elevou o próprio sarrafo, Nuno. Os Wolves precisarão exercitar bem sua rede de contatos nesta janela de transferências para segurar quem for possível segurar e atrair novos nomes para somar ao projeto, que deve almejar voos ainda mais altos depois de tamanho sucesso. Os dois anos do português à frente da matilha não acostumaram as pessoas a menos do que isso.